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Morador de rua escreve livros em São Paulo

13 de julho de 2007 11h38 atualizado às 13h50

Raimundo escreve livros e assina com o pseudônimo 'O Condicionado'. Foto: Felipe Gil/Terra

Raimundo escreve livros e assina com o pseudônimo 'O Condicionado'
Foto: Felipe Gil/Terra

Os termômetros da cidade de São Paulo marcam 13º C. Raimundo Arruda Sobrinho, 68 anos, veste calça jeans, camisa branca imunda e meias azuis rasgadas nos calcanhares. Coberto pelo que restou de um edredom infantil com desenhos de bolas e cestas de basquete, não reclama do frio. Ele está sentado em um banco de madeira no canteiro central da avenida Pedroso de Morais, em Pinheiros, e se concentra em escrever livretos com pensatas filosóficas. Tosse e cospe. Arruda se recupera de uma doença que tenta ignorar.

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Há cerca de três semanas, pelos cálculos dele e dos motoristas de táxi do ponto localizado no outro lado da praça, foi levado de ambulância, involuntariamente, a um hospital. "Os médicos disseram que é pneumonia, mas eles que falam, eles que sabem o que fazem com a gente. Eu não sei de nada", diz em tom ríspido e desconfiado.

"Me deram banho, fizeram raio-x, fizeram um monte de coisa. Pelas minhas contas, depois de poucas horas voltei". Até o começo da semana, ele recebeu remédios cujos nomes diz não lembrar, de alguém que não sabe quem é. "Eu não conheço ninguém", repete sempre que o perguntam sobre pessoas.

Arruda está no canteiro há 11 anos, mas repudia o verbo morar. "Eu não sou morador de rua, sou vítima de um crime contra os direitos humanos!", diz, sobre sua condição. Quem cometeu o crime? "Responsabilizo o Estado, não sei quem é". O senhor denunciou? "Toda a máquina do Estado sabe". Quando o crime começou a ser cometido? "Não vou entrar nisso porque não tenho tempo e nem o senhor tem tempo. E nem capacidade".

Antes da "ilha da Pedroso de Morais", como descreve o local onde vive nas páginas de seus livros artesanais, costurados com fiapos de sacos plásticos, Arruda teve 14 endereços em São Paulo, onde vive desde 1961. Nasceu em Piacá, no norte de Goiás - hoje Goiatins, cidade de 11 mil habitantes no norte do Tocantins.

Para ele, que não lê nada desde que passou quase dois meses no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, em 1976, não faz diferença. Num primeiro momento, diz não saber o que lhe fizeram no Instituto. Depois, completa. "Tomava remédio. Me davam remédio".

Antes do surto psiquiátrico que o levou a ser internado, Arruda trabalhou como vendedor de livros. Evita falar do passado, que aborda com um genérico "faz muitos anos". Mesmo assim, lembra com carinho da casa onde viveu até abril de 1968. "Lá eu tinha papéis, escrivaninha, colchão de mola, lençóis, cobertor, travesseiro, sanitário".

Os albergues disponíveis na cidade não têm espaço para ele guardar seus escritos e demais pertences, que ficam escondidos sobre lonas. Diz calçar de 39 a 41, mas não quer sapatos, nem um cobertor novo. "Não posso ter muita coisa, ou eles vêm e rasgam, assaltam", explica. Quem? "Não sei, eu não sei de nada. Sei que aparece rasgado". Mas o senhor não está aqui o tempo todo? "Estou, mas eles hipnotizam!". O senhor já foi agredido? "Muitas vezes, já".

Arruda escreve enquanto há luz natural, com o auxílio de uma régua de 30 cm para manter as linhas retas no papel não pautado. Monta os livros, os quais distribui para as pessoas que o ajudam, com recortes de folhas de papel sulfite. Usa uma moldura de madeira de 11 cm por 16 cm para manter o espaço das margens.

Assina como "O Condicionado", um pseudônimo que usa "há muitos anos". Cada exemplar doado é numerado e datado. De 2000 a 2007, marca os anos como 1999+1 a 1999+8. Ele explica: "quando disseram que era o ano 2000, sabia que já tinha passado. Estou sabendo que é tudo falsidade. Quando dizem que é uma coisa, é outra".

Apesar do cuidado com que produz, Arruda despreza os escritos. "Isso é para matar a curiosidade de quem vem aqui, porque não vale nada. Eu sei que não vale nada". Não pensa em publicá-los. "Quando eu procurei ninguém quis. Hoje não quero nem ouvir falar do assunto".

O ex-livreiro se vê permanentemente mal-humorado, e sabe que isso afasta as pessoas. "Estou socialmente estragado".

Redação Terra