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Irmã de PM morto pede arma dele de volta

13 de abril de 2007 06h53 atualizado às 08h02

A irmã do policial militar Guaracy de Oliveira da Costa, 27 anos, morto domingo no Engenho de Dentro, Rio de Janeiro, fez um apelo na quinta-feira para que a arma do irmão fosse encontrada "para que ela não fosse usada por bandidos para tirar a vida de inocentes". Ela só resolveu quebrar o silêncio para evitar que a pistola roubada do policial seja usada em crimes. "Ele nunca atirou em ninguém."

"Quero que a arma seja destruída e não usada para o mal", disse. A morte do PM, que era segurança da família do governador, foi a gota d'água para que Sérgio Cabral pedisse ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva o uso das Forças Armadas no combate à violência no Rio.

Ontem, Lula teve reunião com os comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica e os orientou a colaborar com o governo do Rio. Também ontem, pela primeira vez, parentes de Guaracy tiveram coragem para entrar no quarto do policial: a porta ficou trancada a semana inteira. Lá dentro, roupas e pertences estão do jeito que o PM deixou ao sair para trabalhar, no domingo.

Despedida
Guaracy saiu de casa 10 minutos antes do que o costume, às 5h20, para ir ao encontro dos filhos de Cabral. No caminho, houve a emboscada. A família acredita que, na véspera, fez espécie de despedida ao distribuir chocolates e ovos de Páscoa. "Ele disse que talvez não voltasse. O pernil que comprou está até hoje na geladeira. Não tivemos coragem de comer", contou o cunhado.

A visita ao quarto, que virou uma espécie de santuário do rapaz, trouxe à família lágrimas e lembranças. "Ele adorava comer. Sempre pedia pavê. Hoje, mal conseguimos nos alimentar direito, estamos numa dieta forçada porque qualquer prato lembra meu irmão", desabafou a moça. A pipa na parede e a toalha de banho sobre a cama mostram a paixão pelo Flamengo. O futebol era a principal diversão de Guaracy nas folgas, quando trocava as roupas sóbrias pela camisa 10 do time da rua. "Vamos colocar a foto dele nos uniformes", disse o primo.

Sobre a televisão de 29 polegadas, está a foto da namorada e da família. Dias antes de ser assassinado, ele e a namorada começaram a planejar oficializar o relacionamento de quatro anos: o casal sairia para comprar terreno e construir uma casa. "O sonho foi destruído", lamentou a moça. O pai do rapaz de 64 anos está sob cuidados médicos com calmantes.

Os parentes também convivem com o medo. Traficantes do morro Camarista Méier - de onde é o bando que matou o PM - passam sempre pela casa. "Queria ir às ruas pedir Justiça, mas tenho que me calar e esperar que a polícia tome as providências", afirmou a irmã.

Preso mais um acusado
Policiais da 15ª DP (Gávea) prenderam ontem outro acusado da morte de Guaracy. Diego Rei Duhau, o Gordinho, 26 anos, estava em casa, no morro Camarista Méier. Em depoimento, acusou outro preso, Ricardo Martins da Silva, o Orelha, de atirar no PM. Na acareação entre os dois, Orelha admitiu ter atirado. Eles contaram que o acordo era que quem estivesse solto levasse a culpa para proteger o preso.

A casa onde Gordinho estava com a mulher, a filha e o enteado foi cercada à 1h. Ele passava o dia escondido e só voltava para dormir. De dia, trabalhava como auxiliar de serviços gerais numa loja de móveis. Foi a mulher quem o convenceu a se entregar. "Calma que ele vai sair", avisou a mulher, ao abrir a porta.

Gordinho cumpriu pena por roubo no Presídio Edgar Costa, em Niterói, onde conheceu Orelha. Os dois ficavam na mesma galeria. Contra ele, existe ainda inquérito por lesão corporal. Há três meses, quando Orelha deixou a prisão, os dois se reencontraram num pagode no Camarista Méier.

Segundo Gordinho, o comparsa o chamou para o assalto no domingo. Como não sabe dirigir, Orelha conseguiu um motorista de Kombi, enquanto Gordinho pegou a pistola emprestada numa boca-de-fumo. O pagamento pela arma seria o fruto do roubo. Orelha disse ter rendido o policial e atirado depois que Guaracy efetuou o primeiro disparo, que atingiu sua barriga. A dupla disse não saber onde está a arma do PM.

Segundo eles, o carro da vítima foi entregue aos traficantes, que resolveram queimá-lo. A polícia procura pelo motorista da Kombi que levou os criminosos.

Reunião definirá reforço
O presidente Lula determinou ontem aos comandantes das três Forças Armadas que colaborem com o governo do Estado no combate à violência. O plano de ação começará a ser traçado em reunião, segunda-feira, no Rio, entre o governador Sérgio Cabral e os ministro da Defesa, Waldir Pires; da Justiça, Tarso Genro; e do Gabinete de Segurança Institucional, Jorge Armando Félix, além dos chefes militares e secretários estaduais.

Segundo Cabral, não há impedimento constitucional para a medida e "as firulas jurídicas estão sendo deixadas de lado". O governador trata o uso das Forças Armadas como "parceria". "Não queremos de forma alguma nos imiscuir no comando das Forças Armadas, nem eles no nosso."

O governador garantiu que incursões em favelas não estão nos planos. O governo pensa em utilizar militares em vias expressas, avenidas, praças e locais de grande movimento de pedestres. Estão sendo cogitadas as linhas Amarela e Vermelha, a Avenida Brasil e estradas, como Via Dutra e Niterói-Manilha. "Nós não queremos nada pirotécnico", afirmou Cabral.

O Dia
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