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Penitenciária de 172 anos será demolida no Rio

24 de dezembro de 2006 08h37

"Nenhuma utilidade representávamos na ordem nova. Se nos largassem, vagaríamos tristes, inofensivos e desocupados, farrapos vivos, fantasmas prematuros". O relato do escritor Graciliano Ramos em "Memórias do Cárcere" foi vivido no longínquo ano de 1936, nos presídios da Frei Caneca.

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Passadas sete décadas, as palavras parecem transcrições fiéis da vida de milhares de homens e mulheres que estiveram atrás das grades dos presídios da Frei Caneca, no Estácio, Rio de Janeiro. Terça-feira, o complexo de 172 anos vai virar pó.

A implosão causa extremas e diferentes sensações nos personagens que por lá passaram. São histórias de terror e ressocialização que, a partir de hoje, o jornal O DIA começa a contar nesta série de reportagens sobre a mais antiga cadeia do Brasil.

O passeio tem início com caminhada pelas seis galerias dos três pavilhões da Penitenciária Milton Dias Moreira. É manhã de quarta-feira, 20 de dezembro de 2006. Do lado de fora, superesquema de segurança está montado para transportar os 773 detentos que restaram para a desativação do complexo.

Acompanhando a movimentação, o agente penitenciário L., que vigiou as 720 celas da unidade por sete anos, diz que acumulou experiência suficiente para perceber que, no Estácio ou em Japeri, para onde os presos seriam levados, pouca coisa vai mudar em sua vida, além dos gastos de combustível para chegar ao trabalho. "O inferno vai apenas mudar de endereço", sentencia.

Fácil acesso
A história desse inferno, encravado no Centro do Rio de Janeiro, começou mais de 200 anos atrás, em 8 de julho de 1769, quando Dom José I assinou a carta régia para a construção da Casa de Correção da Corte. O local foi estrategicamente escolhido. "Era uma área de fácil acesso para o transporte do material de construção. Tudo podia vir em embarcações que navegavam pelo canal que hoje corta a Avenida Presidente Vargas", explica o historiador Luiz Carlos da Silva, coordenador do setor de pesquisas da Escola de Gestão Penitenciária (EGP).

Do projeto arquitetônico ¿ inspirado na obra do inglês Jeremy Benthan ¿, só uma das quatro colunas saiu do papel, em 1834, por ordem de Aureliano de Souza e Oliveira Coutinho, então ministro de Negócios da Justiça. O político, porém, ficou apenas um ano no poder.

"A compra da chácara para a construção do presídio, por 80 contos de réis, teria sido superfaturada. Depois, vieram mais denúncias contra o ministro, dando conta de que ele estava envolvido no tráfico de escravos africanos para trabalhar nas obras. Com isso, a pressão política ficou muito forte e ele acabou derrubado", relata o historiador Carlos Eduardo Moreira de Araújo, doutorando da Universidade de Campinas (Unicamp), que acrescenta que os gastos mensais com o material para as obras eram de cerca de seis contos de réis.

Mortes antes da inauguração
Nos 16 anos de construção até a inauguração, em 6 de julho de 1850, a Casa de Correção viveu seus primeiros tempos de terror. Não por causa de rebeliões e tentativas de fuga, como nos tempos modernos. Mas do grupo inicial de 60 presos que trabalhavam na obra, vários morreram por doenças como tuberculose e até por diarréia. O primeiro assassinato de que se tem notícia aconteceu em 25 de maio de 1880, quando um agente que separou a briga de dois presos foi esfaqueado por um detento.

Já parecia ser difícil colocar em prática a idéia de construir uma cadeia com o objetivo de ressocializar infratores. "Na verdade, desde aquela época, a idéia era tirar proveito do ócio, preparando criminosos para o trabalho", afirma Carlos Eduardo Moreira de Araújo.

Como nos relatos de Graciliano Ramos, há 70 anos, as histórias do início da Frei Caneca, há quase 200, também parecem descrever os tempos atuais. "Aqui sempre foi um caldeirão. Por isso tanta gente enlouquece", define o agente L.

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