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Catimbau e Canudos têm lições contra sede e fome

A quarta reportagem especial realizada pelos repórteres da Agência Brasil Xico Sá e Ubirajara Dettmar, na tentativa de mapear a fome e a miséria do Brasil, volta a Pernambuco e visita Bahia, fazendo um retrato dos sertões, mais especificamente de uma preciosidade: a água.

O sertão que virou mar há muito tempo, tanto nas escrituras como no cinema semi-árido de Glauber Rocha, trata a água como petróleo em tempos de guerra no Oriente. No Vale do Catimbau, município de Buíque (PE), a 282 quilômetros do Recife, um palácio labiríntico guarda sob o túmulo do último profeta da fome do Nordeste, "Meu Rei", morto em 1999, oito cisternas de um líquido especial para uma legião de sertanejos. "Aqui está a seiva da juventude, o abstrato da vida e a energia do espírito de Deus", diz o agricultor e artesão de madeira Luiz Carlos da Silva, 31, seguidor da simbologia e dos ensinamentos deixados pelo líder religioso.

Em Monte Santo, na Bahia, caminho de Antonio Conselheiro, rumo a Canudos, há o proveito de uma água mineral que sai das locas das pedras gastas por joelhos penitentes. Mas há também o medo de um fim de mundo que estaria sempre por um triz, um pecado, meio pecado, por uma besteirinha a mais da humanidade republicana. "Basta um tantinho assim (mede uma polegada na ponta do dedo) para que a pedreira desabe e o oceano cubra os rastros das desgraças dos homens na terra. A gente abusa demais dos poderes do Alto", agonia-se Anísio José dos Santos, 32 anos, funcionário do Museu do Sertão, onde a memória local, com tantos olhos esbugalhados de fome e espera, salta das molduras.

Na rota do programa Fome Zero, o vale do Catimbau e os sertões baianos fazem parte de uma geografia mística na qual o poder público, historicamente, só chega com a mão de ferro e o preconceito. O velho dilema "Rua do Ouvidor versus Caatingas" de que falava Euclides da Cunha ainda no começo do século passado. No dizer do escriba, o Brasil oficial e da mídia - simbolizado por uma rua do Rio de Janeiro onde estavam as principais redações de jornais - tratava tudo que desconhecia nos outros Brasis como barbárie e fanatismo. A percepção redutora que se faz hoje dos sem-terra não deixa de se incluir na velha questão.

"Meu Rei", em carne e osso, atendia pelo nome de batismo de Cícero José de Farias. Viveu até os 113 de idade. Sua lenda e gente estão vivas e tentam tomar os mesmos cuidados do guru, que podem ser resumidos em uma tábua ecológica e messiânica voltada para prevenir contra as necessidades do estômago e da alma, por que não? Naquele reino, consolidou-se o uso e costume da cisterna como alternativa para a convivência com as estiagens. "Como no estrangeiro sempre neva no inverno, aqui sempre vai secar, não adianta essa teima contra os destinos do mapa", deixou de lição o pernambucano.

Hoje, há projeto de construção de cisternas, sertões e veredas adentro. Começou com iniciativa da Asa, organização não-governamental que abarca o semi-árido e mantém laços sociais com as novas ações do governo federal. Faz de qualquer chuva um barulho bom de dormir e de acordar. Tudo que cai nas telhas das casas desce bica abaixo e junta lá dentro, como se fosse um achado. Água que desceria, quase por desaviso dos tempos, para o desperdício mais impensável. E quem tem água, dizem os fiéis seguidores do Catimbau, mata a sede e cozinha - nem que seja as próprias idéias.

"Nada é pior do que o trovão que vem do pé da barriga", narrava "Meu Rei" sobre o ronco dos famélicos. Um barulho que ouviu desde 1932, quando largou o egoísmo e a vida de comerciante em Arcoverde (PE), ali nas proximidades, para cair na estrada como andarilho decifrador dos "apocalipses ambulantes", como descrevia os homens de rostos vincados que via perambular debaixo do mesmo sol sem boas novas. "Mas se tiver umas gotas, aguinha de nada, cozinhamos até as besteiras que pensamos".

O homem do Catimbau pensava em melancias, que catava às pencas mesmo entre aquelas pedreiras. Pensava em mandioca, o pão do Brasil semi-árido, catada aos quilos. "Plantem mandioca, plantem mandioca", era o seu conselho permanente. No palacete onde vivia havia fartura. Faminto não passava na porta sem ter o barulho das tripas aplacado. "Um dia, orgulhoso do que tinha colhido, fui levar umas melancias pro "Meu Rei", mas foi grande besteira. Sabe o que ele disse? Sabe não? Disse assim: Muito agradecido, meu filho, mas leve as melancias para a sua casa, que você precisa muito mais do que eu". Quem conta a historieta, quase fábula, Esopo de corte seco, é o agricultor José Bezerra, 53.

Os seguidores do Catimbau - o nome que vem de catimbó, feitiçaria - vêem milagres nas águas guardadas para precisões futuras. "Eu mesmo tinha uma dor que num passava nunca, aí certo dia, por ordem de minha mãe, derramei uma garrafinha em cima. Pode ter sido apenas a fé, quer dizer, apenas não. Se foi a fé já foi muito", retoma o verbo o mesmo fiel. "Mas para você não dizer que sou besta e fanático, a grande sabedoria do "Meu Rei" era saber guardar água e comida para socorrer os desalmados".

Ali na passagem entre o agreste e o sertão pernambucano, o líder religioso passeava nas cavernas do vale de pedra, que virou parque nacional, para descobrir novos caldeirões de água. A história dele é um dos veios de "Árido Movie", novo filme de Lírio Ferreira (o mesmo de "Baile Perfumado"), em fase de produção, com roteiro de Sérgio Oliveira, cabra do agreste decifrador de mistérios daquele mundo.

"Como "Meu Rei" sabia que a água que cai aqui não é muita, o que interessava era mostrar aonde tem e como a gente podia aproveitar", conta de novo José Bezerra, cabra da roça, mas também artesão de primeira, como muitos da área. Tudo no seu quintal vira escultura. Árvore caiu, lá vai ele e faz um "malassombro", como chama as cabeças de madeira que espalha na frente de casa. É o rei da reciclagem. "Reci-o-quê, rapaz?", pergunta ele. Acha que foi ofendido. Foi nada.

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Agência Brasil