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Miséria em qualquer canto: o mapa da fome no País

07 de julho de 2003 14h18 atualizado às 14h29

A agricultora Antônia Lopes dos Santos, que trabalha o dia inteiro para ganhar R$5, mostra as mãos machucadas. Foto: Agência Brasil

A agricultora Antônia Lopes dos Santos, que trabalha o dia inteiro para ganhar R$5, mostra as mãos machucadas
Foto: Agência Brasil

Sendo o carro-chefe do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, o combate à fome no País começou a ser posto em prática através do Fome Zero. Sem escapar de críticas, o programa ainda está sendo estruturado, sob o comando do ministro de Segurança Alimentar e Combate à Fome, José Graziano da Silva. Enquanto isso, os caminhos da falta de comida para aquelas pessoas que estão abaixo da linha de pobreza no Brasil começam a ser retratados, em uma série de reportagens especiais produzidas pela Agência Brasil e divulgadas todos os domingos. Na primeira viagem, o repórter Xico Sá e o fotógrafo Ubirajara Dettmar visitaram os Vales do Jequitinhonha e Mucuri, em Minas Gerais.

Miséria ainda assombra o sertão-veredas de Minas

Maria de Fátima Cardoso Jesus, idade desconhecida, saiu de casa cedo - 5h, 5h30 - para ganhar, dependendo da produção na roça de café, o máximo de R$ 6. O marido, Sebastião Chagas de Jesus, que calcula ter 60 anos, tomou o rumo da mesma vereda, no sítio São João da Mata, município de Malacacheta, a 432 quilômetros de Belo Horizonte, no vale do Mucuri, já na divisa com outro vale mais famoso, o Jequitinhonha. Embora a velha tradição machista lhe garanta alguns R$ 2, R$ 3 a mais, nesse dia ele ficou na mesma faixa da mulher. Ganhou "apenas para o sal", como diz.

Os meninos, João, Adélia, Leonardo e Dario, ficaram dormindo sozinhos, na beira da estrada que dá na sede do município. Acordaram sem nada no fogo. São dez filhos ao todo. Os seis mais velhos já se viram sozinhos, entre roças e a servidão doméstica em casas de pessoas mais aquinhoadas de sítios e cidades vizinhas. "Uma das meninas vive em casa com televisão, geladeira, povo que luxa", diz a mãe.

Como acordou sem comida - o fogão era apenas um borralho de cinzas - o caçula resolveu ciscar, como um bicho do mato, nos arredores da casa. Tentava tirar alguma sustança de um bagaço velho de cana-de-açúcar. Pela aparência, o bagaço já havia sido todo sugado por porcos. Ele ciscava nu, sujo de muito, entre os garranchos do balseiro. "Um bichinho, meu Deus", espantou-se Flávia Hilário Cassiano, 28 anos, assistente social de Malacacheta, que já conhecia a família.

A expressão da moça, paulista de São José dos Campos, situada em vale mais próspero, repetia, involuntariamente, velho poema de Manuel Bandeira. O poeta se espantou com o primeiro homem que viu a lamber sobras de alimentos de lata de lixo urbano, coisa de mais de 50 anos atrás.

Flávia apanhou uns gravetos com a ajuda de João, Adélia, Leonardo e Dario, cortou uma abóbora e botou no fogo. Misturou na mesma água um punhado de arroz. Fez um "rebengo", como muitos sertanejos daquela região chamam a comida feita das sobras das sobras. Os meninos voaram em cima da panela e se lambuzaram. Era perto do meio-dia. Não comiam há 23 horas.

"Ah, minha filha, Deus que te guarde e ilumine para todo o sempre, amém". Era a mãe das crianças, Maria de Fátima, em agradecimento à ação da assistente social. "Filho de pobre é assim mesmo, come aqui, come acolá", discursa, no meio da roça de café.

A família Chagas de Jesus - abaixo de tudo que se possa classificar como linha da miséria - nunca conseguiu fazer parte de nenhum programa social de governo. Por falta de documentos, por achar que não tem mesmo direito a nada. "Isso não é para o nosso bico não, meu senhor", acentua a mãe.

A família em breve terá registros de nascimentos. Quase todos com idades arbitradas pela promotoria pública do município, que os alertou para a clandestinidade. João, o mais novo, deve ter uns dois anos. O mais velho, Leonardo, não deve passar dos seis.

Ladainha

Na última vez que sentou para escutar o rádio, no começo do ano, o pai Sebastião, cuja origem é o município de Ladainha, ali no mesmo vale da miséria, conta que ouviu falar, sem entender direito, em "um tal de Fome Zero". No seu jeito guardado, faz cara de quem não aposta mais em qualquer inclusão. "É coisa do governo, né? Se vier, é bom". E volta para a roça.

Malacacheta é um dos 38 municípios dos vales do Mucuri e do Jequitinhonha escolhidos para o início das atividades do programa comandado pela política de segurança alimentar do governo Luiz Inácio Lula da Silva. O Fome Zero começou, ainda em junho, no sertão mineiro. O convênio entre o governo federal, governo do Estado e prefeituras foi assinado em Belo Horizonte. Os comitês gestores do programa, que contam com representantes do poder municipal, sindicalistas, Igreja Católica e sociedade civil, estão prontos para a operação.

"Não vejo a hora, pois um "arremedeio" desses já tira tanta dor de cabeça. Pense em acordar e ter que completar o "de comer" dos meninos tendo que trabalhar no cafezal!", diz Sebastiana Machado dos Santos, 43 anos, que, sem marido, tem que sustentar quatro crianças. "Os infelizes dos fazendeiros de café pagam muito pouco, mas as mulheres daqui se viram é na roça mesmo".

Ela mora na Vila Operária, nos arrabaldes de Capelinha, Vale do Jequitinhonha, a 427 km de Belo Horizonte. Nessa época do ano, quem consegue R$ 6 por dia na lavoura do café dá-se por contente. O caminhão chega às 4h, 4h30, para a viagem até o trabalho - totalmente clandestino, avulso, sem vínculo na carteira. Depois de 12 horas, no mínimo, o pau-de-arara da fome está de volta.

A sorte é que a solidariedade é grande entre os moradores da Vila Operária. As mães que ficam em casa ajudam os filhos das que tomaram o caminho da roça. Um prato de comida aqui, um mingau acolá. Mas a incerteza das três refeições ronda a área de casinhas apertadas, beco atrás de beco, onde o cheiro de café é forte durante todo o dia. As mulheres torram e passam no moinho os grãos que simbolizam um trabalho quase escravo. "Não é que a gente se conforme, mas tem tanta gente mais lascada", argumenta Francisco Gomes Figueiredo, 42 anos, pai de quatro filhos, também passageiro do mesmo caminhão dos avulsos.

A gente "mais lascada", no dizer de Francisco, vive nas "grotas". Isolada do mundo e dos possíveis benefícios e avanços. Como o casal Geraldo Leite, 43 anos, e Maria Batista da Costa, 42, pais de 10 meninos. Estão escondidos em Santo Antoninho, sítio a 30 quilômetros da cidade de Capelinha, aonde só se chega a pé. Os carros não alcançam seu terreiro. "Aqui não é o fim do mundo não, meu senhor, as coisas é que estão longe", diz Maria, enigmática. "Mas se alguém adoece, fica ruim mesmo".

É o caso do marido, diabético, que acaba de amputar um dedo do pé. Precisa voltar ao hospital, mas deixa para quando "Deus der bom tempo". Um menino, João Fabiano, 8 anos, que sobe a serra de uns seis quilômetros para assistir às aulas, garante o bolsa-escola, renda que evita a fome mais brava. Ele estuda na localidade chamada Bateria do Riacho, onde é comum o desmaio por fome, como contam os próprios alunos. "É bom que aprenda alguma coisa pra ser gente na vida, mas só em merendar por lá já é uma ajuda do céu", relata Maria da Costa. "A fome por essas bandas é mais velha que o cuspe".

Capital x trabalho

Grandes e pequenos produtores rurais dos vales mineiros fazem eco contra qualquer programa social do governo que distribua recursos. A queixa tem razão direta e econômica, embora a desculpa usada seja a de que os benefícios deveriam estar associados ao trabalho. Como remuneram muito mal, vêem os programas como concorrentes. "É um discurso oportunista, baseado na lógica de que muita gente deixa de se submeter à exploração. A situação vai forçá-los a pagar melhor", diz o prefeito de Carbonita (a 421 quilômetros de Belo Horizonte), Marcos Lemos (PT), presidente da Associação dos Municípios do Alto Jequitinhonha.

Com 8.967 habitantes, a agricultura é a principal atividade local. Um dia de serviço por lá é pago, em média, a R$ 6 na roça. O eucalipto domina a paisagem. Nivaldo Oliveira, 35 anos, recém-empregado de uma firma que explora essa cultura, consegue um salário mínimo (R$ 240) por mês para sustentar oito bocas - o casal e mais seis filhos.

"É melhor do que nada", apressa-se em dizer - e cortar as lamentações do marido - a dona-de-casa Maria da Conceição Meira, 27 anos. "O ruim é ficar parado de tudo, aí o desmantelo é feio". Oliveira consente com a cabeça: "É melhor do que nada mesmo".

Na TV, ouviram falar do Fome Zero, programa no qual devem ser incluídos. A expectativa é grande em torno da ajuda de R$ 50 para comprar alimentos. O pai tem a razão: "Acordar com a comida dos meninos resolvida é uma coisa que a gente não conhece desde que botou eles no mundo".

No Jequitinhonha

No velho fogão à lenha, só cinza no borralho e panelas enfumaçadas sem nada dentro. Essa é a imagem, comum em muitas casas no Vale do Jequitinhonha, que deixa as mães de família em tempo de perder o juízo. "Agora estou mais calma, mas já corri doida nessas horas, me largava a pedir cachaça nas vendas para esquecer tudo", conta Benvinda Severina, cujo nome não tem mesmo sobrenome, mas já diz tudo.

Tem "uns 30 anos", diz, sem a menor vontade ou paciência para exatidões. Filhos, soma 14, mas perdeu três, ainda "anjinhos". Ri, pois estão no Céu. Difícil é aqui embaixo, vida semi-árida, município de Carbonita, sertão das Minas Gerais. "E nunca dei nenhum (filho) a ninguém, mesmo vivendo sem marido", orgulha-se. Entende-se: dar uma criatura para uma pessoa "com condições" é ato banal na região.

Benvinda Severina sustenta os meninos com a bolsa-escola de uma filha e a ajuda de vizinhos e do "véi", como chama um aposentado do distrito de Abadia, na zona rural, que passa o final de semana com ela. "Hoje a fornalha não tem um caroço de feijão, mas hei de arrumar", conta enquanto mostra o fogão. O relógio da igreja bate as pancadas do meio-dia.

Há tempos atrás, relata, já estaria bêbada pelas calçadas. "O que comer ninguém dá assim fácil, mas cachaça a gente arruma correndo", lembra. Diz que está com o juízo no lugar. Beber não adiantava nada. "Na volta pra casa, era um inferno do mesmo jeito, coisa do belzebu". E se benze, bate na madeira três vezes.

Vida fácil nunca teve mesmo. Antes de morar na cidade - não sabe há quanto tempo - viveu debaixo de árvores ou lona, dormindo com crianças em cima de duas esteiras de palha de banana. Depois que as coisas melhoram, fez uma promessa: nunca mais reclamar da vida.

Agência Brasil