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Libaneses de Foz do Iguaçu buscam notícias de parentes

21 de julho de 2006 16h18 atualizado às 16h54

Os telefones no escritório do comerciante libanês Kamal Osman, morador de Foz do Iguaçu, tocam sem parar. Ansioso, ele recebe notícias sobre sua filha, que está prestes a dar à luz, na Síria, para onde fugiu após ver sua rua em Beirute ser bombardeada pelas forças de Israel.

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Assim como Osman, dono de uma famosa loja de roupas na cidade paranaense, diversos libaneses na região seguem aflitos com seus familiares que moram ou passam férias no Líbano, principalmente após a morte de cinco pessoas de Foz do Iguaçu, incluindo três crianças.

A cidade ao extremo oeste do Paraná tem pouco mais de 300 mil habitantes e faz fronteira com Argentina (pela cidade de Puerto Iguazú) e Paraguai (Ciudad del Leste). Nesta região, conhecida como Tríplice Fronteira, estima-se a existência de 8 mil a 15 mil libaneses, fazendo de Foz do Iguaçu a outra cidade com grande concentração da colônia árabe depois de São Paulo.

Segundo o consulado do Líbano na capital paulista, existem no país entre 8 e 10 milhões de libaneses e descendentes, fazendo do Brasil a maior colônia do mundo. A prefeitura de Foz estima que 100 famílias viajavam pelo Líbano neste período. "A gente não tem conseguido dormir. Para fazer uma ligação tem que tentar por duas horas, é muito dolorido", disse Osman em sua sala no centro da cidade, repleta de fotografias de sua família e referências árabes. Além da filha que morava em Beirute e lhe dará sua primeira neta, estão lá sua mulher, pai, mãe e cunhada.

"A raça árabe é a ralé hoje em dia. Estamos sendo perseguidos", continua. Mas, se no Líbano a relação com os judeus é complicada, o empresário explica que em Foz do Iguaçu a história é outra. "Aqui somos irmãos. Tenho afilhada judia, já tive um gerente de loja judeu e recebi muitas ligações de amigos judeus de São Paulo."

O prefeito da cidade, Paulo Mac Donald Ghisi (PDT), gosta de reafirmar a diversidade étnica da região, chamando-a de "uma esquina do mundo", com 72 nacionalidades e "nenhum caso de discriminação racial", segundo ele.

Mas Ghisi confirma a perseguição aos árabes, comentando a intenção de um setor da Câmara de Representantes dos Estados Unidos de propor a Organização dos Estados Americanos (OEA) a criação de uma "força-tarefa para controlar supostos atos terroristas na Tríplice Fronteira", conforme diz uma nota de repúdio assinada pelo prefeito, que seria enviada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva nesta sexta-feira.

"É a pecha que tentam nos imputar, de lugar de terrorismo, ano após ano", disse Ghisi à Reuters. "Essa acusação mais recente, de que os árabes daqui mandam dinheiro para o Hizbollah ... Olha, eles mandam de Nova York, de Paris, de Ottawa, da Califórnia. O dinheiro no mundo corre livre, isso não é motivo para intervenção."

Orações nas mesquitas
À noite, na mesquita xiita do bairro Jardim Central, cerca de 800 muçulmanos se encontraram para participar de uma cerimônia em homenagem ao libanês naturalizado brasileiro Akil Merhei, 34, morto há uma semana na cidade ao sul do Líbano de Srifa, após sua casa ser bombardeada com sua mulher e seus dois filhos brasileiros dentro.

No dia 12 de julho, Israel lançou uma ofensiva contra o grupo guerrilheiro Hizbollah, no Líbano, que deixou sete brasileiros mortos. Os confrontos começaram depois de o grupo ter capturado dois soldados israelenses e matado outros oito.

"Estamos passando por uma tristeza muito grande", disse à Reuters o comerciante Sobhi Merhei, irmão de Akil, que estava na cerimônia de quinta-feira à noite na mesquita xiita. "Eles estavam dormindo, de madrugada, quando um ataque israelense derrubou o prédio em que eles estavam. Foram cinco mísseis, só ficou o pó, destruiu tudo."

Angustiada, a brasileira Rosemeyer Zanardine, convertida ao Islã há oito anos e casada com um libanês, disse que não esperava essa nova crise no país. "Passo o dia na frente da TV, prestando atenção para ver se surge algum nome de conhecido, de parente", afirmou ela, que estava do lado de fora da mesquita, com suas duas filhas pequenas, conversando em árabe. Na mesquita sunita da região, mais conhecida pelos turistas por sua edificação suntuosa, cerca de 300 homens compareceram, ao lado de algumas mulheres, na tarde desta sexta-feira para rezar. Os homens se ajoelhavam em direção a Meca no grande salão redondo do primeiro piso, todo acarpetado, enquanto as mulheres, de véus, ficavam separadas no piso superior.

"A mesquita tem tido o mesmo movimento, a religião independe de guerras e situações adversas. Mas esse tem sido o assunto principal dentro da mesquita e depois das orações", explicou o xeique muçulmano Ahmad Mazloum, no Centro Cultural Beneficente Islâmico de Foz do Iguaçu.

"Nós confortamos a todos e lembramos a eles que a vitória sempre será da paz e da verdade. E, enquanto eles estiverem apegados à verdade, eles jamais serão derrotados, mesmo que sejam mortos ou bombardeados", disse Mazloum, enquanto alguns turistas tiravam fotos da mesquita.

Reuters
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