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Lula emociona família de agricultores em Buíque

26 de abril de 2003 16h50

A pequena propriedade rural do agricultor José Cícero Filho nunca experimentou uma manhã tão movimentada. A casa de três cômodos onde ele mora com a mulher, Isabel Maria Silva, e sete filhos fica na área rural de Buíque, município pernambucano a 300 quilômetros de Recife. Hoje, às 4h da madrugada todos estavam acordados, arrumando a propriedade para a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A casa de um quarto, uma cozinha e uma sala não tem saneamento básico ou energia elétrica. A água para beber, cozinhar e tomar banho é trazida de um poço de uma fazenda vizinha. A família vive de uma pequena plantação de feijão e de milho, mas, por causa da seca, pelo menos 60% da safra já está perdida.

As dificuldades enfrentadas por José Cícero são as mesmas de várias famílias de Buíque. Da população de 45,5 mil habitantes, 90% vivem da agricultura familiar. Sem qualquer sistema de irrigação, a maioria dos pequenos agricultores não consegue colher o que plantou quando a chuva não é suficiente. Como na cidade não há trabalho, essas famílias ficam sem qualquer alternativa. A renda mensal de 80% dos moradores do município é inferior a meio salário mínimo.

A visita foi um pedido do presidente, que queria conhecer um dos agricultores que serão beneficiados pelos programas anunciados hoje em Buíque. A chegada do ônibus em que estava Luiz Inácio Lula da Silva e de mais de 10 carros que formam a comitiva presidencial transformaram a paisagem da pequena estrada que dá acesso à casa de José Cícero. Vestida com sua roupa mais bonita, Isabel Maria foi a primeira a abraçar o presidente e não conteve as lágrimas. Emocionado, Lula quis saber se aquele casal tinha nascido no município e ficou contente ao descobrir que José Cícero veio de Caetés, cidade natal de Lula.

Atrás da cerca que demarca a propriedade de José Cícero cerca de 500 moradores da região se espremiam para tentar falar com o presidente. Ao deixar a casa, Lula cumprimentou os agricultores, deu autógrafos, tirou fotos e conversou com alguns deles. Quando a comitiva seguia em direção ao ônibus, um susto: uma cobra apareceu perto dos pés do presidente e foi morta por um dos seguranças.

No centro de Buíque, o pátio da feira, local escolhido para a solenidade, foi completamente tomado por mais de 10 mil pessoas que queriam ver de perto o conterrâneo e presidente, Luiz Inácio Lula da Silva. Acompanhado por seis ministros, o presidente anunciou o Programa Conviver - Ações Integradas de Convivência com o Semi-Árido. O Conviver é destinado aos pequenos agricultores das regiões mais secas do país, que serão beneficiados com o Seguro-Safra, crédito fundiário e assistência técnica. Serão atendidas 550 mil famílias em 2003, num total de 1.200 municípios dos estados de Pernambuco, Paraíba, Piauí, Ceará, Sergipe e Alagoas, norte de Minas Gerais (Vale do Jequitinhonha e Vale do Mucuri) e norte do Espírito Santo.

Em Buíque, 3.170 agricultores se inscreveram no programa Seguro-Safra. Dentre eles, foram identificados três mil que atendem às exigências estabelecidas pelo programa: renda mensal de até 1,5 salário mínimo e no máximo 10 hectares de área plantada. Este ano o seguro vai garantir renda de R$ 475,00 dividida em 6 parcelas aos produtores que perderem mais de 50% da safra de milho, arroz, feijão, mandioca ou algodão. Para participar do Seguro-Safra o agricultor deve pagar uma taxa de R$ 6,00. O Governo Federal reservou R$ 52 milhões para os gastos com o programa em 2003.

O presidente anunciou também que o Programa Cartão Alimentação, uma das principais ações do Fome Zero, será implantado em 19 municípios pernambucanos até a segunda quinzena de abril. Em Buíque, cerca de 4.500 famílias com renda de até meio salário mínimo receberão o benefício de R$ 50,00 para a compra de alimentos. O cadastro das famílias beneficiadas está sendo elaborado pelo Comitê Gestor, que já está formado no município, e conta com oito representantes da sociedade civil.

Em seu discurso, o presidente afirmou que esses programas são o início de um trabalho que visa a melhoria das condições de vida dos pequenos agricultores do semi-árido. "Nós não queremos trabalhadores no campo vivendo de cesta básica, nós não queremos trabalhadores no campo vivendo de esmola, nós precisamos ajudá-los a produzir, a trabalhar".

Luiz Inácio Lula da Silva ressaltou que é preciso o trabalho conjunto dos governos Federal, estaduais e municipais para que o país volte a crescer. "Não tem solução para um governador sozinho, não tem solução para um prefeito sozinho e não tem solução para um presidente sozinho. Ou todos nós assumimos a responsabilidade de deixar as nossas divergências para a época das eleições e governamos juntos ou não tem solução para esse país", disse.

O presidente lembrou que nunca prometeu realizar a transposição do rio São Francisco e que sempre defendeu a recuperação do rio. "Eu nunca fiz promessa. Mas aguardem porque se houver transposição nesse país vai ser exatamente no meu governo, sabe porque? Porque eu sei o que é a seca, eu sei o que é o sofrimento causado a mulheres, homens e crianças por causa da seca e eu sei que o nordeste precisa de água", disse o presidente, ressaltando a necessidade de serem realizados estudos a respeito da transposição do rio São Francisco e sobre a recuperação dos rios do estado para a construção de barragens.

Ao encerrar o discurso, o presidente prometeu voltar a Buíque para conferir os resultados dos programas implantados hoje.

Agência Brasil