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Noivo de morta-símbolo no Irã critica apoio de Lula ao país

28 mar 2010
20h28
atualizado às 23h47
Gabriel Toueg
Direto de Tel Aviv

Para um dos ícones da resistência iraniana, Caspian Makan, 38 anos, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, erra ao demonstrar intenções de visitar Teerã, por ignorar as violações aos direitos humanos que ocorrem no Irã. A questão ganhou força de missão na vida dele quando perdeu a noiva, morta em junho de 2009 pelas forças iranianas durante protestos contra o resultado das eleições presidenciais que reelegeram Mahmud Ahmadinejad.

Para Makan, Lula erra ao demonstrar intenções de visitar Teerã
Para Makan, Lula erra ao demonstrar intenções de visitar Teerã
Foto: Gabriel Toueg / Especial para Terra

O fotógrafo iraniano, de olhar triste e fala calma, estava de casamento marcado com a jovem Neda Agha-Soltan, que virou um símbolos da oposição iraniana após a foto que a mostrava caída no chão, sangrando, ao lado do pai desesperado, circulou o mundo.

Makan, 38 anos, esteve em Israel na semana passada e disse que foi ao país, que não tem relações com Teerã desde a Revolução Islâmica em 1979, "como um embaixador do povo iraniano, um mensageiro da paz". Na oportunidade, teve uma reunião com o presidente Shimon Peres em Jerusalém. "Sua opinião é respeitada no Irã e ao redor do mundo", afirmou.

Makan está exilado no Canadá, depois de ser preso em Teerã e ter conseguido escapar do país. Ele disse que ao pedir um visto para visitar Israel, a imprensa no Irã, ligada ao governo "deu a notícia logo em seguida". Segundo ele, o povo em seu país não quer guerra e "não vê problema nenhum com os israelenses, nem com o povo, nem com o governo".

O fotógrafo afirmou ainda não gostar de política, e que é um ativista de direitos humanos. "Não quero ser chamado de líder". Ele anunciou ainda que procura declarar o dia 20 de junho, data em que a noiva foi morta, como o "Dia Mundial de Neda", e que espera que neste dia "os líderes do mundo parem com assassinatos, execuções e guerras".

Brasil
Em Tel Aviv, Makan disse que o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, não deveria encontrar-se com nenhum governante do Irã. Segundo ele, ao declarar a intenção de visitar Teerã e reunir-se com Ahmadinejad, "os líderes brasileiros demonstram que não sabem o que está acontecendo no Irã, não veem os abusos aos direitos humanos". O presidente Lula já anunciou que viajará ao país em meados de maio, para retribuir a visita de Ahmadinejad ao Brasil em 2009.

Para o analista iraniano-israelense Meir Javedanfar, especializado em Oriente Médio, o encontro entre Lula e Ahmadinejad pode prejudicar a imagem do Brasil no Irã. "Os iranianos admiram muito o Brasil, e esse encontro vai fazê-los acreditar que Lula apoia a ditadura e os abusos aos direitos humanos cometidos pelo regime de Ahmadinejad", afirmou.

De acordo com o analista, Lula precisa se encontrar com líderes da oposição no Irã, como Mir- Hossein Mousavi, candidato derrotado nas eleições de 2009, e Mehdi Karroubi, líder do Partido de Confiança Nacional. "Eu faria isso", disse. Mas, em sua análise, o regime do atual presidente não permitirá tal encontro. "Lula deve insistir", enfatizou. Em Tel Aviv, Makan também disse que Lula deveria se encontrar com a oposição iraniana.

Javedanfar afirmou ainda, repetindo o discurso de Makan, que a maioria do povo iraniano "não quer guerra" contra Israel. "Há uma maioria silenciosa no Irã que gosta muito de Israel", afirmou. Segundo ele, há correntes que criticam a política israelense de construção em assentamentos, mas a maioria "não está de acordo com o que diz Ahmadinejad". O líder do Irã disse, ao assumir o cargo em 2005, que Israel deve ser varrido do mapa.

Holocausto
Para o analista, os baixos índices de popularidade do presidente iraniano criaram um fenômeno segundo o qual "o que ele (Ahmadinejad) diz é automaticamente interpretado ao contrário". Javedanfar disse que mais e mais pessoas no Irã estão se interessando em estudar o Holocausto, que o presidente iraniano afirma ser um mito.

Fonte: Especial para Terra

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