0

Ministério garante 64 barcos para resolver saúde na Amazônia

24 jun 2012
09h06
Mauricio Tonetto
Direto de Santarém (PA)

Quando o barco Abaré ancora nas 73 comunidades do rio Tapajós, região amazônica do Pará, cerca de 15 mil ribeirinhos têm a oportunidade de receber gratuitamente atendimentos básicos de saúde, exames de rotina, consultas odontológicas, pré-natal, planejamento familiar e pequenas cirurgias sem deixar suas casas. Atuando desde 2006, o navio hospital, mantido pela ONG Projeto Saúde e Alegria e prefeituras locais, resolve 93% dos 18 mil atendimentos feitos anualmente e cumpre, a cada 40 dias, um rito que lhe valeu o nome indígena - em Tupi, abaré significa "gente amiga" - e inspirou o Ministério da Saúde. Até 2014, o governo federal garante colocar em circulação ao menos 64 barcos semelhantes.

Para evitar que ribeirinhos percorram centenas de km na Amazônia até conseguir atendimento médico, governo vai levar barcos hospitais às comunidades
Para evitar que ribeirinhos percorram centenas de km na Amazônia até conseguir atendimento médico, governo vai levar barcos hospitais às comunidades
Foto: Mauricio Tonetto / Terra

"Pela característica da Amazônia e seus rios, é fundamental a alternativa dos barcos. Essa novidade importante pode mudar a realidade da saúde na região. As prefeituras estão animadas e até 2014 teremos 64 barcos", afirmou Helvécio Magalhães, secretário de Atenção à Saúde do Ministério da Saúde. Segundo ele, as rotas, agendas, mobilizações e contratações de funcionários serão feitas pelos municípios que aderirem ao programa.

"Estamos financiando as equipes de saúde da família, elaborando programações para que os ribeirinhos tenham acesso de fato à saúde e não precisem ir até as cidades e colocando equipamentos nos navios", completou Magalhães. Através da Portaria 2.191, o Ministério da Saúde levou o projeto a 10 Estados que compõe a Amazônia Legal e também ao Pantanal do Mato Grosso do Sul. O objetivo é evitar as desgastantes viagens aos grandes centros urbanos. De Suruacá a Santarém, por exemplo, são pelo menos três horas de barco. Até Belém, os mais de 1,3 mil km de distância exigem vários dias de navegação.

"Não adianta o médico ir para a comunidade sem recursos. No barco, ele tem raio-X, laboratório, consultório, farmácia, entre outras coisas. É uma grande sacada, uma solução para a saúde básica daqui", afirmou Mário Tozzi, médico responsável pelo Abaré. Conforme o governo, a prefeitura interessada deve cumprir uma série de requisitos, como atendimentos periódicos e lanchas de emergência, para obter uma verba de R$ 1,2 milhão para construção do navio e R$ 50 mil para manutenção. Neste ano, 19 convênios serão aprovados.

Abaré: eficiência e conexão
Doado em comodato à ONG Projeto Saúde e Alegria pela organização holandesa Terre des Hommes, o Abaré tem um custo anual de R$ 1,5 milhão, hoje mantido entre a iniciativa privada e o Poder Público, e opera desde o ano passado via Sistema Único de Saúde (SUS). Já houve o pedido, segundo o coordenador da entidade, Caetano Scannavino, para que o governo federal assuma todas as despesas e transforme o navio em um centro de estudos para novas experiências.

Construído para enfrentar as condições amazônicas de secas e enchentes dos rios, ele está equipado nos moldes do Programa de Saúde da Família (PSF) para ser hospital e ambulatório e dispõe de instrumentos de comunicação e educação, com espaços para palestras e oficinas de capacitação.

Mário Tozzi explica que a instalação de internet no barco, em 2011, tornou o serviço ainda mais eficiente: "as pessoas com doenças graves ou traumas fortes são estabilizadas aqui e removidas para a cidade mais próxima. Antes, porém, já comunicamos os locais. A internet ajuda muito para que o médico não fique isolado. Ele precisa às vezes de uma segunda opinião e cursos de aprimoramento, portanto, a telemedicina praticada aqui é para isso."

Alegria, descontração e pesquisas
O Abaré conta sempre com um ou dois médicos fixos, pagos pela ONG e prefeituras de Belterra, Santarém e Aveiro, além de uma equipe de enfermeiros e residentes, normalmente estudantes universitários, que se revezam ao final de cada expedição. A equipe recebe ainda o apoio de palhaços e educadores durante as visitas às comunidades, que atraem as crianças com oficinas temáticas de prevenção (higiene, saúde escolar, nutrição, DST/aids) e cidadania (direitos da criança, adolescentes e mulher, organização comunitária, controle social e meio ambiente).

Parcerias com instituições de ensino e entidades privadas permitem que o Abaré coordene pesquisas e qualifique profissionais. "Queremos desenvolver programas para ler eletrocardiogramas, por exemplo, e estamos conversando com o hospital Albert Einstein, em São Paulo, para que exames sejam feitos em tempo real. Estamos dando oportunidade a mais de 180 alunos estudarem por ano diversas doenças que só conhecem em livros. Com sorte, eles podem até contrair algumas delas", brincou Tozzi.

Amazônia, um laboratório de experiências
Caetano Scannavino comemora o sucesso do Abaré e ressalta que ações como essa nas comunidades da maior floresta do mundo podem ser estudadas e expandidas para os grandes centros urbanos.

"Temos muito orgulho de ter criado aqui um caminho para se chegar a algo maior. Achamos uma vitória fantástica conceber esse modelo de saúde pública, que envolve estratégias diferenciadas. Nós pensamos em soluções para pequenas localidades, visualizando como isso possa ser replicado em larga escala", explicou Scannavino.

Polêmica
Em 2011, a fundação Terre des Hommes solicitou que o Abaré fosse devolvido à Europa, para ser enviado a missões na África, o que gerou uma grande comoção no Tapajós e fez com que as comunidades se mobilizassem para impedir o fim da operação do barco. Scannavino e os demais membros do Projeto Saúde e Alegria, com apoio das da região, conseguiram na Justiça manter a embarcação circulando.

"Nada contra novos projetos ou a construção de um outro barco pela cooperação holandesa se deseja operar em outras regiões. O difícil de entender é que, para isso, exista a quebra de um compromisso com os ribeirinhos do Tapajós a partir de um projeto premiado e exitoso, símbolo de uma nova politica de saúde para toda região, referencia em nosso País e de Instituições como o Banco Mundial e a Organização Mundial de Saúde. Esperamos que isso não ocorra", afirmou Scannavino.

Fonte: Terra

compartilhe

publicidade
publicidade