FHC diz que guerra demonstra supremacia da força

13 de fevereiro de 2003 • 22h16 • atualizado às 22h16

O ex-presidente do Brasil Fernando Henrique Cardoso afirmou hoje, em Madri, que uma guerra no Iraque seria conseqüência de "um unilateralismo" que conduz "à supremacia da lógica da força".

A declaração foi feita em uma conferência proferida na sede da Fundação para as Relações Internacionais e o Diálogo Exterior (Fride), na qual esteve acompanhado do ex-presidente do Governo espanhol Felipe González (1982-1996).

Cardoso, presidente do Clube de Madri, criado em maio de 2002 com o objetivo de "reforçar a democracia no mundo", disse que não se lembra de "um momento mais difícil que o atual" e insistiu na necessidade de reconsiderar organismos como o Conselho de Segurança da ONU como catalisadores das decisões e interesses internacionais.

Em sua conferência sobre "o papel do multilateralismo nas relações internacionais contemporâneas", o ex-presidente disse que "em tempo de conflitos, a lei do mais forte sempre se impõe disfarçada de algum valor".

E diante disso, "não há possibilidade de uma paz duradoura se não houver regras decididas sob consenso nos organismos internacionais".

O ex-presidente reconheceu que instituições como o Banco Mundial, a ONU, a OMC e o FMI podem ter "defeitos" e "imperfeições", mas sem sua existência "a lógica que imperaria seria a da força, que é o que prevalece quando não há um marco de organização".

Cardoso expressou seu convencimento de que o cenário posterior a uma guerra favoreceria a "vingança", a volta a um estado da natureza no qual "o homem é o inimigo do homem".

"É duro dizer que a guerra pode ser necessária", disse o ex-presidente, para depois perguntar sobre quem decide "quando é necessária, quem diz que é necessária e como reconhece que é necessária?".

O ex-presidente se disse otimista porque, contra idéias de conflito, há outras como o desenvolvimento sustentável, "que podem substituir a lógica da supremacia por uma lógica de solidariedade".

Nesse sentido, acrescentou, "é necessário conhecer a ascensão de uma sociedade civil internacional como personagem importante da nova ordem".

Por isso, o ex-governante disse que o Clube de Madri deverá lutar para identificar esses novos valores de convergência.

Na sua opinião, a idéia "roussoniana" (do filósosfo francês Jean Jacques Rousseau) do Contrato Social deve ser novamente evocada, "na busca de um pacto com a humanidade como pano de fundo".

Para Cardoso, é necessário que a comunidade internacional consolide a democracia, mas, ao mesmo tempo, "que os países reconstruam seus mecanismos de tomada de decisões, tanto políticas, econômicas e de segurança, pois todas estão agora em xeque".

"Se houver confiança na razão, na moderação, na tolerância e na forte necessidade de aceitar o consenso, então se pode caminhar para a reconstrução de uma ordem positiva".

Sobre a iminência de uma guerra, Fernando Henrique Cardoso se mostrou partidário de "fazer um esforço para impedir que esta situação possa se apresentar".

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