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Lançada primeira tradução do Alcorão para português

18 de outubro de 2005 20h15

A Câmara de Comércio Árabe-Brasileira está lançando no Brasil uma edição em português do Alcorão, o livro sagrado do islamismo. É a primeira tradução para o português considerada "oficial" pelas tradições dessa religião, que tem hoje mais de 1 bilhão de adeptos em todo o mundo. Para o vice-presidente da câmara, o professor Helmi Mohammed Ibraim Nasr, a edição é "um passo para fazer a gente da América Latina conhecer o Islã de uma maneira correta".

Nasr, que é professor de língua e cultura árabe na Universidade de São Paulo, emigrou há 43 anos do Egito para o Brasil, e é também o responsável pela tradução. "Queremos dar uma idéia para os brasileiros de uma religião que é mundial", explica ele, completando que "o objetivo não é fazer do Brasil uma nação islâmica".

Ele diz que, como professor universitário, fica, até hoje, espantado com o elevado grau de desconhecimento dos brasileiros, mesmo os de melhor condição sócio-econômica, sobre a cultura e a religião árabe. "Fico triste de sempre falarem do islamismo como terroristas", lamentou ele hoje, em coletiva à imprensa. "A distância entre os países é muito grande, então há idéias muito erradas."

"O Alcorão é completamente contra os fundamentalistas", explica Nasr, em referência aos princípios que, segundo ele, constam do livro, como a proibição das agressões e conflitos entre as nações, e a busca de paz, tranqüilidade, para a conquista de uma "vida boa".

Para Nasr, a tradução é uma boa base para uma refundação das relações entre a América Latina e os países árabes, que tiveram "avanços e recuos" nas últimas décadas. A própria vinda do professor, por exemplo, foi fruto de um período de intensificação dessas relações. Nasr conta que, após visita do então presidente Jânio Quadros ao presidente do Egito, Gamal Abdel Nasser, recebeu a incumbência de ensinar no Brasil por um ano. Nunca mais abandonou o país.

A tradução começou há 23 anos, em 1982, quando Nasr recebeu a proposta da Liga Islâmica da América, numa viagem a Meca. Foram quatro anos trabalhando na tradução e quase outros 20 fazendo a revisão. "Aquele que queria conhecer a nossa cultura não tinha antes uma documentação legítima como essa. É uma coisa para o futuro, uma base", diz ele, que também é autor do primeiro dicionário árabe-português publicado no Brasil.

Por princípio religioso, os exemplares do Alcorão não podem ser vendidos, apenas presenteados, por isso a edição é financiada pelo governo da Arábia Saudita e também é impressa naquele país. As oito traduções anteriores do Alcorão, segundo Nasr (quatro em Portugal e África, e quatro aqui) não haviam sido preparadas por muçulmanos, por isso não eram consideradas oficiais.

Os exemplares também serão distribuídos para universidades e bibliotecas. Em Portugal, segundo Nasr, devem servir de base para uma versão adaptada, solicitada pela comunidade islâmica de lá. Existem apenas 40 traduções consideradas "oficiais" do Alcorão, que foi escrito em árabe no século VII.

Entre os princípios do Islã que Nasr espera esclarecer com a tradução estão regras como a proibição do álcool, que é perigoso por "alterar o pensamento das pessoas", segundo ele, e o veto aos juros. "O juro é proibido porque deixa gente ganhar dinheiro sem trabalhar. É coisa feia", diz.

Agência Brasil