Traição é principal alvo de detetives particulares

19 de março de 2005 • 10h48 • atualizado às 10h48
Detetive Edilmar Lima, um especialista em investigação de infelidade
Detetive Edilmar Lima, um especialista em investigação de infelidade
19 de março de 2005
Divulgação

Rafael Balsemão

Brasília


Máquinas fotográficas, binóculos-câmera, filmadoras e transmissores de imagem: equipamentos sofisticadíssimos têm sido usados cada vez mais para acabar com as desconfianças de uma possível traição ou, então, para confirmá-las. Em busca de flagrantes de infidelidade, mulheres desconfiadas e maridos inseguros contratam, para investigar o parceiro, detetives que recorrem a técnicas bizarras e se deparam com as situações mais inusitadas.

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    Pais aflitos em busca de notícias sobre os filhos, buscas sobre o paradeiro de desaparecidos, fraudes em empresas e informações de possíveis candidatos a uma grande empresa também figuram entre os diversos trabalhos realizados pelos "Sherlock Homes" brasileiros, mas a principal tarefa dos detetives ainda é investigar casos extraconjugais. A Central Única Federal dos Detetives do Brasil (CUFDB), com sede em Brasília, estima que entre 60% e 70% das investigações realizadas pela empresa envolvem traição.

    A procura por este tipo de serviço cresceria em datas especiais. De acordo com o diretor da CUFDB, Edilmar Lima, 11 anos de profissão, a busca por detetives aumenta durante as festas de final de ano e nas semanas anterior e posterior ao Dia dos Namorados. Lima afirma que nestas ocasiões um elemento a mais ajuda na investigação: a compra do presente para os namorados e para os amantes.

    Sobre as acusações de que os detetives teriam a função de acabar com uma relação, Lima defende a categoria. "Não destruímos um relacionamento; apenas colocamos um ponto final", destaca.

    Amaral cita como características de um bom detetive a honestidade, boa escolaridade - no mínimo Ensino Médio - e "muita inteligência". Ele acrescenta que os profissionais de qualidade cobram preços altos. "O melhor preço é o pior detetive", avalia. Em média, é cobrado por dia de investigação entre R$ 300 e R$ 500. A renda mensal de um bom detetive pode chegar a R$ 10 mil.

    Tranqüilidade e paciência também são fundamentais para a profissão, acredita Lima. Ele, que também dá aulas na CUFDB para futuros detetives, afirma perceber em alguns candidatos à profissão uma certa "agonia", o que não combina com o dia-a-dia da investigação. "A gente nasce detetive", afirma Lima. De acordo com ele, todo mundo seria um investigador em potencial, mas nem todos desenvolvem essa característica.

    Para o psiquiatra Getúlio Marca Filho, esta grande procura por detetives para investigar casos extraconjugais mostra o fracasso das relações, e a descoberta da traição pode ser um prato cheio para poder colocar a culpa no outro. "É mais fácil tirar a culpa de si e colocar no companheiro", enfatiza.

    Outra situação encontrada pelos detetives são casos de maridos que, mesmo após um grande período de investigações, insistem em manter a vigia sobre suas mulheres. "É a mania do chifre", classifica o detetive Amaral. Em muitos casos, quando não se descobre a traição, os clientes se recusam a pagar pelos serviços prestados.

    Segundo Getúlio Marca Filho, esta é uma situação parecida com a vivida por Bentinho, em Dom Casmurro, de Machado de Assis, que passa o livro desconfiando de uma possível traição de sua mulher, Capitu. "É um comportamento de alguém que tem tendências a paranóia, podendo em alguns casos ser considerado até mesmo doença", avalia o psiquiatra. Para Marca Filho, esta "mania de corno" tem ainda um lado de fetiche e fantasia, em que existe uma vontade de que a traição aconteça.

    Muitas histórias para contar
    O detetive Amaral, que tem uma empresa de detetives particulares há 30 anos com sede na capital paulista, conta que não tem clientes e sim amigos, mais de mil, que indicam outras pessoas para seus serviços. Dentro do "segmento" traição, Amaral trabalha também para "amigos" que vivem no exterior, que o contratam para "cuidar" de suas namoradas e esposas em território brasileiro.

    Entre suas histórias, ele destaca um cliente, na década de 70, que pediu para investigar sua companheira, "uma mulher insaciável, que se masturbava por telefone de manhã, à tarde e à noite". Amaral, que trabalha com free-lancers, mas que vai a campo nos casos mais complicados, disse que teve de colocar em ação um carro e mais três motocicletas para conseguir pegar a mulher de seu cliente em flagrante. A "insaciável", descreve Amaral, corria muito em seu Mercedes e não deixava ninguém chegar perto.

    "No dia do flagrante, todo mundo se perdeu. Mas eu, com meu Dodge, consegui ficar colado nela. Ela deixava o seu carro em um estacionamento e encontrava o amante. Depois disso, os dois saíam calmamente em direção a um motel, onde a pegamos em flagrante", conta. "E não existia celular naquela época."

    O marido, que se separou da "insaciável", gostou tanto dos serviços de Amaral, que, passados dez anos e já com sua segunda mulher e um filho de 19 anos, contratou novamente os serviços do detetive. Amaral mais uma vez conseguiu o flagrante da traição.

    Já o detetive Lima lembra de histórias mais trágicas, como a de uma mulher que pediu para investigar seu marido. Este mantinha uma relação homossexual e, ao "pular a cerca", contraiu o vírus HIV e contaminou a companheira.

    Amaral recorda ainda de um caso em que, na hora do flagrante da traição, o detetive mobilizou também um delegado, que prendeu por adultério o amante da companheira, outro detetive. Dois dias após o ocorrido, o cliente de Amaral teria pedido e pago "muito bem" para cancelar tudo, soltar o amante da companheira. Tudo isso para poder sair em lua-de-mel com a mulher que o traiu.

    Sobre esta história, o psiquiatra Getúlio Marca Filho cita duas possibilidades. A primeira pode mostrar uma vontade de o homem mostrar que é ele quem comanda a relação e tem o poder de perdoar. A outra hipótese seria que o cliente de Amaral descobriu a realidade, mas não estava pronto para ela e teria voltado atrás.

    Investigador ou psicólogo?
    Autor do livro Crônicas de um Detetive, sobre traição, e Sobre Amores e Paixões, Lima arrisca algumas teses sobre a traição. "A mulher para trair precisa de motivos; já o homem, somente de oportunidades", declara. Uma nova obra será lançada ainda este ano, O Beijo e a Explosão da Química Humana, que tratará sobre os efeitos da traição nos adolescentes. Segundo Lima, os menores de 14 a 17 anos seriam os que mais sofrem com as relações extraconjugais dos pais.

    O detetive defende um acompanhamento psicológico das mulheres durante uma investigação de traição. "No começo eu era frio. Eu dava o resultado final da investigação e pronto. Hoje eu sei que temos que dar um suporte. 90% das clientes precisam de um apoio psicológico", acredita.

    Lima se autoproclama um defensor da família e diz que "é do homem trair". "Eu condeno o cara que tem uma amante, mas entendo os que transam com prostitutas", declara.

    Em parte, o psiquiatra Marca Filho concorda com o detetive. "Há uma teoria que afirma que o homem teria um instinto reprodutivo, por isso sairia transando com todas; já a mulher faria uma seleção, em busca do progenitor ideal", explica. Entretanto, continua o psiquiatra, "com a evolução das mulheres, que se tornaram mais ativas, principalmente no mercado de trabalho, elas tendem a ser mais sexualizadas e acabam tendo um comportamento semelhante ao dos homens".

    Marca Filho enfatiza, entretanto, que o importante não é a descoberta feita pelo detetive no final da investigação, mas o motivo de se procurar o profissional. "É fundamental entender isso para estabelecer uma convivência melhor, onde o vínculo se estabeleça por confiança e companheirismo e não seja necessário colocar uma terceira pessoa na relação, no caso, um detetive."

  • Redação Terra
     
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