Ex-ministra anunciou a saída do PT
Foto: AFP
Guilherme Mergen
Confirmada nesta quarta-feira, a saída da senadora acreana Marina Silva do PT balança o cenário político previsto para as eleições de 2010. A provável filiação da ex-petista ao PV para entrar na corrida presidencial do próximo ano amplia o leque e abre portas a outros nomes, como o ainda indefinido Ciro Gomes (PSB-CE) e o ex-governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho (PR), segundo avaliação do cientista político e professor da Universidade de Brasília (UNB), David Fleischer.
Para o professor, a entrada de Marina na disputa tende a enfraquecer tanto a candidatura de José Serra (PSDB-SP) quanto a da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, apadrinhada pelo presidente Lula. "A Dilma acaba sendo a mais enfraquecida, até pelo 'fator mulher' e pelo nome de Marina ser uma opção aos esquerdistas, que tenderiam a apoiar o PT na briga direta com o PSDB. Mas a senadora do Acre também tiraria votos do Serra", afirma.
Apesar de o senador Cristovam Buarque (PDT-DF) ter declarado publicamente o desejo de ser vice-presidente em uma eventual chapa encabeçada por Marina, o cientista político considera a aliança entre os pedetistas e o PV quase impossível. "Com a entrada da Marina, o PDT deve ficar dividido, assim como o PMDB em 2002. Nomes como o ministro Lupi (do Trabalho) resistiriam em se coligar com outra chapa que não seja a do governo", diz.
Confira abaixo a entrevista na integra com o professor da UNB.
Com a saída da senadora Marina Silva do PT e a possível candidatura dela à presidência da República pelo PV, o que muda no cenário político projetado para 2010?
A verdade é que essa decisão da Marina balança completamente o cenário inicialmente previsto para 2010. A eleição deixará de ser bipolar, deixará de ser centralizada entre PT e PSDB, o que abre um leque de possibilidades. Para o debate político, entendo que o fim de um eixo bipolar termina com uma discussão unicamente focada em governo e oposição, que marcaria a campanha eleitoral de 2010.
Quando o senhor fala em um leque de possibilidades, acredita que novos nomes, além de Marina Silva, tendem a surgir com essa abertura do debate?
Sem dúvida. Acredito na entrada, agora definitiva, de Ciro Gomes e possivelmente de Anthony Garotinho. Com um maior número de nomes, os dois passariam a ter chances de chegar a um segundo turno, por exemplo, até porque os votos tendem a se disseminar. Com uma eleição bipolar, a população vota naquele que mais simpatiza ou que tem menos antipatia. Se a Marina realmente vir a lançar seu nome pelo PV, o que realmente deve acontecer, o processo é outro. No exemplo do Ciro Gomes e do Garotinho, ambos podem captar votos com um possível enfraquecimento de Dilma e até do Serra.
Quem o senhor acredita que seria mais prejudicado com a candidatura da Marina? O Serra ou a Dilma?
A Dilma, sem dúvida, até pelo fator mulher. E o presidente Lula tem apostado muito neste fator mulher em seus discursos. Além disso, Marina tende a atrair votos da esquerda, que, no caso de uma eleição bipolar, acompanhariam o PT. Aliás, tem gente dizendo que o PSDB está por trás dessa candidatura da Marina. Mas, sinceramente, não acredito em uma manobra assim, até porque a Marina surge como uma nova alternativa ao pleito eleitoral. A candidatura do PV pode puxar votos do Serra também. A verdade é que um terceiro nome abre o debate e provoca efeitos tanto na estrutura do PSDB como na do PT, embora a tendência é de que atinja mais essa última.
O senhor fala em um possível prejuízo a Dilma. Mas a tendência é de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva torne cada vez mais explícita a sua campanha por Dilma. Mesmo com a popularidade dele no palanque, o senhor acha que Dilma sai enfraquecida?
Não podemos nos esquecer de um fato: o presidente Lula é uma pessoa do povo, tido como batalhador por boa parte da população brasileira e, por conseqüência, uma figura carismática. Porém, a Marina Silva também é batalhadora e de origem pobre. Além disso, ao contrário do presidente, que não concluiu os estudos, ela não só terminou o 2º grau (ensino médio), como se formou em história pela Universidade Federal do Acre, justamente no período em que entrou na vida política. Além disso, Marina é carismática, ao contrário de Dilma, que nesse ponto evoluiu muito pouco.
Em uma eventual campanha, Marina deve a atacar mais Dilma ou Serra?
Embora ideologicamente tenha uma identificação muito maior com o PT - até porque fez parte da sigla por 30 anos -, Marina deve mirar muitas de suas críticas a Dilma. As duas tiveram um enfrentamento pesado na época em que a senadora esteve à frente do Ministério do Meio Ambiente. Enquanto Dilma, chamada de "a mãe do PAC", defende obras de empreendimento, como hidrelétricas e rodovias, Marina preza pelo meio ambiente. Como Lula pesava para o lado da ministra da Casa Civil, Marina acabava sempre enfraquecida no embate. Isso até gerou uma mágoa e foi um dos motivos da saída dela do Ministério do Meio Ambiente.
Se candidata, Marina tende a somente incomodar PT e PSDB, assim como o senador Cristovam Buarque (PDT-DF) em 2006, ou realmente tem chances de chegar ao segundo turno e até vencer a eleição?
Se o PV costurar boas alianças e for além da plataforma meio ambiente, o que me parece óbvio, ela terá tempo e condições para superar o número de votos de Heloísa Helena (PSOL) e Cristovam Buarque em 2006. Há projeções de que ela possa atingir 20 pontos. Isto é, ela pode incomodar, mas não sei se alcança Serra e Dilma. É difícil analisar a corrida faltando mais de um ano para as eleições. São apenas especulações precipitadas. Até lá, tudo pode mudar. Não podemos esquecer que Dilma faz tratamento contra uma doença; Serra ainda sofre uma resistência por parte de alguns membros do PSDB, que querem Aécio Neves da disputa; e nem Marina Silva nem PV anunciaram a pré-candidatura dela oficialmente.
Em entrevistas, Cristovam Buarque disse que aceitaria ser vice-presidente em uma chapa encabeçada por Marina Silva. Gilberto Gil, do próprio PV, disse o mesmo. Esses nomes poderiam fortificar a campanha da senadora?
Cristovam Buarque sim, sem dúvida. No entanto, é muito difícil o PDT se coligar com o PV em um cenário para 2010, até porque Carlos Lupi - ministro do Trabalho do governo Lula - tem força dentro do partido e deve pressionar para a sigla permanecer com o atual governo. Porém, assim como o PMDB em 2002, o PDT deve rachar nas eleições caso a Marina seja candidata. O nome de Gilberto Gil seria mais fácil do ponto de vista partidário, mas pouco expressivo em termos de popularidade. O certo é que tudo isso passa a ser cogitado a partir de agora.
- Redação Terra

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