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Após 20 anos, SP procura saída para coibir uso de crack

23 de julho de 2009 11h27 atualizado às 14h30

O uso de crack no centro de São Paulo é comum. Foto: Reinaldo Marques/Terra

O uso de crack no centro de São Paulo é comum
Foto: Reinaldo Marques/Terra

Vagner Magalhães

Direto de São Paulo


Os primeiros registros da chegada do crack em São Paulo surgiram em 1989, quando foram identificados os pioneiros no consumo da droga. De lá para cá, muita coisa mudou: a cidade elegeu cinco prefeitos, a pedra foi modificada quimicamente, o consumo cresceu e formou uma legião de dependentes. O que não mudou foi o ponto de tráfico e consumo. No bairro da Luz, centro da capital paulista, a região conhecida como Cracolândia reúne diariamente centenas de pessoas de todos os níveis sociais que compram e utilizam a droga quase livremente. A presença da polícia na região parece não incomodar os usuários. A cada abordagem dos PMs, os grupos se dispersam - para, em seguida, voltar e continuar a tragar seus charutos improvisados.

A partir desta quinta-feira, o Terra inicia uma série de reportagens sobre os impactos causados pelo crack nos últimos 20 anos. Para discutir formas de reduzir ou acabar o tráfico e a dependência da droga, foram ouvidas autoridades públicas, médicos, usuários, pesquisadores, comerciantes e policiais. A série de reportagens será acompanhada de um ensaio fotográfico feito pelo repórter Reinaldo Marques, que passou uma noite na região para registrar o cotidiano dos usuários.

A droga passou a ser produzida na própria cidade de São Paulo, em pequenos laboratórios improvisados. Dois fatores pesaram essencialmente a sua difusão. O crack torna a pessoa mais dependente, o que resulta em um consumo maior. Vendida em pequenas pedras, é mais lucrativa que a cocaína.

Para o vício do crack atingir o índice atual, os traficantes montaram uma "estratégia de mercado" no início dos anos 90, conforme explica o pesquisador Lúcio Garcia de Oliveira, que defendeu tese de doutorado sobre o assunto na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). "No início dos anos 90, a droga não era muito acessível, e houve uma estratégia para que os usuários de outros entorpecentes experimentassem crack. Eles esgotaram as demais drogas do mercado e foram ofertando a novidade. Já na metade da década, o consumo era expressivo", disse.

Embora não tão visível, o problema também se multiplica nos bairros periféricos. Viciados relatam que é possível encontrar a droga em cada esquina. Especialistas de saúde dizem que o consumo do crack invariavelmente vem depois do consumo de outras drogas. As portas de entrada mais comuns são o álcool, a maconha e a cocaína.

Segundo o pesquisador, algo que chama a atenção é que o preço da droga se manteve praticamente estável nestes 20 anos. O que caiu foi a qualidade do produto. "A pedra que se vendia há 20 anos não tem quase nada a ver com o que se vende hoje. Antigamente, era uma pedra cor de café com leite. Hoje, o que se vende é algo que tem tanta mistura, tanto bicarbonato, que parece uma pipoca no cachimbo. Depois de acesa, ela cresce e forma uma espuma".

A avaliação é que a droga de hoje é mais danosa que no passado. A sensação relatada por usuários, de prazer e desconexão, deixou de existir, de acordo com o pesquisador. "Hoje, se fuma e não se sente mais isso. Já cai direto no aspecto negativo, na necessidade de se fumar mais. Muitos usuários nem veem mais a pedra. Comparam pedaços de papel alumínio com farelo", diz.

Rotina
O comerciante Rogério de Souza, 44 anos, convive diariamente com os usuários da região da Cracolândia. Diz que a situação vivida hoje é um "deboche". Proprietário de um açougue, diz ter perdido muitos clientes com o problema. "Hoje, quem compra aqui são os moradores dos arredores. Quem é de fora não se arrisca a vir."

Há 16 anos no local, ele disse ter visto a transição da região. Antes, marcada por prostituição e trombadões que agiam no centro, hoje é tomada por viciados. "Os ladrões acabaram presos ou mortos. Com a chegada do crack, até mesmo as prostitutas se afastaram. O que era antes a 'Boca do Lixo', hoje é isso que se vê aqui. Uma legião de zumbis, que passam dia e noite em função da pedra. Pela manhã é uma sujeira imensa que sobra. E todo o dia a 'festa' recomeça."

A coordenadora de Saúde Mental do Município de São Paulo, Rosângela Elias, afirma que o tratamento dos viciados em crack é difícil, principalmente porque a droga está sempre associada a outras. "Há muitas recaídas, mas o que propomos é um tratamento que passa pelo usuário, com a inclusão da família no processo, e a reinserção na sociedade. É uma história longa, mas gratificante", diz.

Usuário de crack há 16 anos, o desempregado S.M.A., 35 anos, está em tratamento há mais de um ano e chegou a cumprir mais de seis anos de pena por dois assaltos realizados para sustentar o vício. No dia da entrevista, confessou que havia utilizado a droga nas últimas 24 horas. "É muito difícil sair. Isso (o crack) vai te matando. É só sair na rua que dá vontade de usar", afirma.

Combate ao crack

Na última quarta-feira, as autoridades do Estado e do município anunciaram um plano de ação que envolve profissionais ligados aos setores de saúde e assistência social, acompanhados pelo Ministério Público, a Vara da Infância e Juventude e os conselhos turelares, entre outros.

A ideia é diminuir a incidência do uso de drogas na região, oferecendo tratamento psiquiátrico e atividades complementares para esses usuários. No histórico destes 20 anos, sempre se falou, em tese, sobre o que precisaria ser feito. Tentativas foram feitas, mas fracassaram. Há dois anos, o prefeito de São Paulo Gilberto Kassab (DEM) chegou a anunciar o fim da cracolândia, com o anúncio do projeto Nova Luz. Em pouco tempo ela voltou mais forte, após se deslocar apenas alguns quarteirões.

Nesta sexta-feira, a história de três usuários de crack que, em tratamento, lutam para deixar a droga.

Redação Terra
  1. Uso de crack durante a madrugada na região central de São Paulo  Foto: Reinaldo Marques/Terra

    Uso de crack durante a madrugada na região central de São Paulo

    Foto: Reinaldo Marques/Terra

  2. Usuários compram droga durante o dia na região da Cracolândia  Foto: Reinaldo Marques/Terra

    Usuários compram droga durante o dia na região da Cracolândia

    Foto: Reinaldo Marques/Terra

  3. Usuários dividem a droga na região da Cracolândia em São Paulo  Foto: Reinaldo Marques/Terra

    Usuários dividem a droga na região da Cracolândia em São Paulo

    Foto: Reinaldo Marques/Terra

  4. Droga é utilizada a qualquer hora do dia em São Paulo  Foto: Reinaldo Marques/Terra

    Droga é utilizada a qualquer hora do dia em São Paulo

    Foto: Reinaldo Marques/Terra

  5. Com a passagem da polícia, os usuários se dispersam  Foto: Reinaldo Marques/Terra

    Com a passagem da polícia, os usuários se dispersam

    Foto: Reinaldo Marques/Terra

  6. Após abordagem policial, rapaz é liberado  Foto: Reinaldo Marques/Terra

    Após abordagem policial, rapaz é liberado

    Foto: Reinaldo Marques/Terra

  7. Livre dos policiais, rapaz procura droga escondida  Foto: Reinaldo Marques/Terra

    Livre dos policiais, rapaz procura droga escondida

    Foto: Reinaldo Marques/Terra

  8. Com o encerramento das atividades do comércio, o uso se torna mais intensivo  Foto: Reinaldo Marques/Terra

    Com o encerramento das atividades do comércio, o uso se torna mais intensivo

    Foto: Reinaldo Marques/Terra

  9. Crianças ajudam no tráfico e também são usuárias da droga  Foto: Reinaldo Marques/Terra

    Crianças ajudam no tráfico e também são usuárias da droga

    Foto: Reinaldo Marques/Terra

  10. Usuários aproveitam a madrugada para fumar a pedra  Foto: Reinaldo Marques/Terra

    Usuários aproveitam a madrugada para fumar a pedra

    Foto: Reinaldo Marques/Terra

  11. Ao amanhecer, uma multidão ainda é vista na Cracolândia  Foto: Reinaldo Marques/Terra

    Ao amanhecer, uma multidão ainda é vista na Cracolândia

    Foto: Reinaldo Marques/Terra

  12. Na madrugada, o movimento na Cracolândia se intensifica  Foto: Reinaldo Marques/Terra

    Na madrugada, o movimento na Cracolândia se intensifica

    Foto: Reinaldo Marques/Terra

  13. Usuários se preparam para o uso do crack  Foto: Reinaldo Marques/Terra

    Usuários se preparam para o uso do crack

    Foto: Reinaldo Marques/Terra

  14. Sozinho, usuário faz uso de crack na região central de São Paulo  Foto: Reinaldo Marques/Terra

    Sozinho, usuário faz uso de crack na região central de São Paulo

    Foto: Reinaldo Marques/Terra

  15. As autoridades do Estado começaram a estimular a diminuição do uso de drogas na região  Foto: Reinaldo Marques/Terra

    As autoridades do Estado começaram a estimular a diminuição do uso de drogas na região

    Foto: Reinaldo Marques/Terra

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