Juiz Evandro Pelarin conversa com menor recolhido em uma blitz em Fernandópolis (SP) |
Chico Siqueira
Direto de Araçatuba
Em abril deste ano, o toque se tornou definitivo com uma portaria baixada por Pelarin. O procedimento foi uma medida estratégica adotada por Pelarin para evitar que qualquer recurso judicial derrube sua iniciativa. "Ninguém vai conseguir derrubar", garante.
Terra - Depois de quatro anos, qual o balanço que o senhor faz desta medida?
Pelarin - O melhor possível. As estatísticas informam que os delitos caíram em até 90% e que os jovens aprenderam a conviver com esta medida. Além disso, os pais estão mais satisfeitos.
Terra - O que levou o senhor a adotar essa restrição de horário?
Pelarin - Os problemas da juventude; menores consumindo álcool e permanecendo nas ruas até de madrugada; pais e professores reclamando. Alguma coisa precisava ser feita e achamos que poderíamos tentar isso.
Terra - E como foi?
Pelarin - Primeiro tentamos com mandados judiciais provisórios, válidos por 3 meses, para que, se alguém tentasse derrubar até o processo tramitar, a medida já teria vigorado.
Terra - Hoje ela é definitiva...
Pelarin - Só em 2009 que decidimos adotar de vez esta medida, chamada de toque de recolher. Mas não é isso. Agora o horário já está incorporado no costume da cidade. Os menores já incorporaram isso, o que nos leva a pensar que o horário é uma questão de segundo plano.
Terra - E o que seria o primeiro plano?
Pelarin - O primeiro plano é a situação de risco. Somente menores que estiverem em situação de risco é que são alvos da portaria que regulamenta o toque. Menores que não estão em situação de risco estão liberados. A questão do horário se tornou secundária, porque (menores em casa às) 23h é um horário que se tornou padrão dos costumes na cidade.
Terra - Então, qualquer menor pode ficar na rua até depois das 23h se não estiver em situação de risco?
Pelarin - Sim. Se ele for pego saindo da escola após as 23h ou indo para casa na madrugada, a PM vai questioná-lo, conversar com ele e até perguntar se ele quer ser levado para casa. Mas dificilmente algum menor estará na rua de madrugada se não estiver em situação de risco.
Terra - Mas a constitucionalidade de sua medida pode ser questionada mesmo assim, especialmente pelo Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, que a considerou inconstitucional e lesiva ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
Pelarin - Se alguém quiser pode até tentar, mas não vai conseguir derrubá-la. Deixamos a questão do horário em segundo plano até para evitar os questionamentos sobre o direito de ir e vir, pois não estamos impedindo nada. Além disso, nossa medida atende exatamente o ECA, ao ter objetivoi de zelar pela integridade dos menores. Acho que a questão é familiar. As famílias que cuidam dos filhos não os deixam na rua de madrugada. Mas só usei esta estratégia - de deixar o horário em segundo plano - para evitar perder tudo que conquistamos até agora, que é ter uma cidade mais tranqüila, jovens mais saudáveis e uma sociedade com mais futuro pela frente.
Especial para Terra