Marina Mello
Direto de Brasília
O senador Cristovam Buarque (PDT-DF) afirmou nesta quinta-feira que a suposta interferência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na crise do Senado desmoraliza a Casa e é ainda pior do que as denúncias de irregularidades como atos secretos. "O Congresso não pode ficar como um poder irrelevante, desprezado. Como um acordo entre o presidente do Poder Legislativo e do Executivo, como se um fosse sócio do outro", disse. "Quando a gente tem o presidente do Congresso como sócio do presidente da República, aí vem a mais grave de todas as suspeitas."
Para ele, a relação entre Lula e o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), faz com que o Congresso se torne uma instituição "irrelevante" e dá a impressão de que o Poder Legislativo é "sócio" do Poder Executivo.
"Esta Casa não pode ficar calada quando a gente vê um poder interferindo aqui. Não estamos vendo o presidente Sarney falar para o presidente Lula que no Congresso ele não tem direito de colocar o seu dedo", completou.
Endurecendo o tom das críticas, Cristovam defendeu que Sarney não permita que o presidente Lula mantenha com o Congresso a mesma relação que tem com seus ministérios.
"Queria alertar que o mais grave de tudo é a desmoralização do Congresso pela perda de poder que ele tem de zelar. Ele (Sarney) não está zelando ao dizer que não tomaria decisão sem o presidente da República, ao dizer que está aqui para atender o presidente da República", afirmou. "Antes de pedir a licença, se ele não quer e tem direito de não querer, ele que, por favor, defenda essa Casa, que se comporte como presidente desta Casa e não deixe que o presidente da República nos trate como um ministério que pode ser nomeado ou demitido por telefone. Essa é uma condição para ter nosso respeito."
Nesta quinta-feira, Lula vai receber a bancada do PT para discutir a crise na administração do Senado. O líder do partido na Casa, senador Aloízio Mercadante (SP), informou que a reunião ocorrerá às 20h, mas não há informações sobre o local do encontro.
Na reunião, o PT vai tentar convencer Lula de que o melhor a ser feito para minimizar a crise do Senado é o afastamento de Sarney. Lula, até o momento, tem se manifestado pela permanência do peemedebista no cargo.
Sarney anunciou na quarta-feira que aguardaria uma oportunidade para falar com Lula - que estava em viagem ao exterior - para decidir sobre seu afastamento. Segundo o senador, nenhuma decisão seria tomada sem consultar o presidente.
Sarney é acusado de nepotismo e de envolvimento em irregularidades, incluindo o escândalo dos atos secretos do Senado, que foram utilizados para contratar servidores, autorizar a nomeação de parentes de senadores e o pagamento de horas extras.
Além disso, o neto dele, José Adriano Cordeiro Sarney, é acusado de fazer parte de um esquema irregular de crédito consignado pelo Senado e estaria sendo investigado pelo Polícia Federal.
DEM, PSDB e PDT já pediram publicamente o afastamento de Sarney. O presidente do Senado, no entanto, informou a Mercadante e à senadora Ideli Salvatti (PT-SC), líder do governo no Congresso, que definirá seu destino político depois de conversar com Lula. O PR aprovou na tarde de ontem o apoio ao presidente do Senado, assim como seu partido, o PMDB, havia feito na terça.
Redação Terra