Índios protestam em frente à sede da Fundação Nacional de Saúde, em Manaus |
Arnoldo Santos
Direto de Manaus
Índios de pelo menos 18 etnias que ocupam o prédio da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) em Manaus (AM) não cumpriram a ordem de desocupação determinada na última sexta-feira pela juíza federal Ana Paula Serizawa, da 2ª Vara Federal. O prazo terminou às 16h desta segunda-feira, mas os índios disseram que vão resistir.
"Nós pedimos pouca coisa, queremos somente a substituição do coordenador (geral da Funasa no Amazonas) e do chefe do Distrito (Especial de Saúde Indígena) de Manaus. Mas nós estamos preparados. Se a polícia federal vier desocupar o prédio nós vamos morrer aqui", disse o cacique Xina Marikawa, da etnia cocama.
Segundo os ocupantes, cerca de 600 índios, entre eles 120 crianças, estão no prédio. Armados de arco, flechas e bordunas, eles montaram uma barricada na entrada do prédio da Funasa, localizado no bairro Glória, zona oeste de Manaus. Mas até o final da tarde, nenhuma autoridade havia aparecido para cumprir a ordem de desocupação.
Uma multidão de curiosos apareceu na frente do órgão para presenciar a grande movimentação dos índios que passaram o dia entoando cantos, se pintando e dançando no pátio interno. No final da tarde, eles fizeram uma manifestação na frente do prédio ocupado. Crianças e adultos deitaram na rua enquanto os mais velhos faziam discursos.
"Nós queremos igualdade porque nosso povo é discriminado. Nós estamos no século XI e temos de acabar com esse preconceito", disse o cacique da etnia mura, Antônio Mota.
Até o início da noite, uma comissão da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) tentava aumentar o prazo dado pela juíza federal para a desocupação do prédio. "Nossa maior preocupação é que há crianças no meio dos ocupantes. A ocupação está prejudicando ações que já estavam previstas no interior", disse o vice-coordenador da Coiab, Marcos Maiuruna.
Desde o sábado, lideranças indígenas e coordenadores de saúde de outras regiões do Estado foram a Manaus para a reunião da coordenação nacional de Saúde Indígena. Os índios que não participam da ocupação querem uma solução geral para o problema de saúde nas aldeias. "Nós já invadimos a Funasa cinco vezes lá na nossa região, e isso não deu em nada. Nós queremos é uma maior participação na formulação da política indígena no País", disse o presidente do conselho de saúde indígena do Vale do Javari (Alto Rio Solimões), Jorge Marubo.
Não há informações oficiais se a Polícia Federal vai realizar alguma operação para cumprir a ordem de desocupação do prédio da fundação.
Especial para Terra