Aos 67 anos, Gilberto Gil quer desacelerar
Foto: Terra
Maria Lins
Direto do Rio de Janeiro
Gilberto Gil quer tirar o pé do acelerador. Perto de completar 67 anos, o cantor e ex-ministro da Cultura quer ser ultrapassado (e não atropelado) pela vida. "Está na hora de abdicar de uma certa liderança, não preciso correr nas primeiras posições", disse Gil. Em entrevista ao Terra, o ex-ministro contou que voltou a acordar tarde, enalteceu o relacionamento com a mulher, Flora, defendeu a legalização das drogas e, claro, falou sobre política. "O período que passei no governo brasileiro foi muito interessante", falou. Confira a íntegra da entrevista:
Terra - Quando o senhor deixou o ministério, apesar de um evidente alívio, disse que saía com o sentimento de uma certa perda. Sente saudade da época de ministro?
Gilberto Gil - Ainda ontem a Flora estava me perguntando: tem saudade, se arrepende de ter deixado o ministério? Eu disse que não, que me sinto melhor fora do ministério tanto quanto eu me sentia bem lá. Ficamos discutindo se não era mais fácil dizer se eu me sentia melhor hoje. Mas é para reforçar um pouco um sentimento que é real em mim. Apesar de sentir alívio, descompromisso, abundância de tempo, despreocupação e isso ser melhor do que aquilo que me ocupava e preocupava muito, ao mesmo tempo aquilo era muito bom. Foi um período muito interessante. Para avaliar minha vida, minha pessoa, para entender o significado das coisas que preenchem meu tempo e minha história, foi bom ter aquelas dificuldades e aquele momento complicado. Foi tão bom quanto ter essa folga, essa despreocupação, não ser mais responsável por aquelas coisas. O fato de não termos conseguido um orçamento mais generoso do governo é algo que eu me ressinto.
T - Como estão as relações com artistas e amigos que tanto o criticaram quando o senhor era ministro da Cultura, especialmente o Caetano Veloso?
GG - Eu e Caetano somos irmãos e os irmãos se preocupam uns com os outros. Em nenhum momento nos pegamos, não tivemos desavenças e choques. Tivemos conversas intensas duas ou três vezes. As preocupações do Caetano eram muito mais com um governo que vivia crises, não o desempenho do ministério em si. Algumas vezes ele se equivocou em relação a algumas coisas do ministério, como quando criticou a criação de uma secretaria da identidade cultural, quando tínhamos criado uma secretaria da identidade e da diversidade cultural, um elemento complementar fundamental para dar tranqüilidade a ele. Outros que foram críticos mais ácidos, mais mal-intencionados, que não dirigiam suas críticas à atuação do ministério. Eles dirigiam suas críticas ao simples fato de eu ser ministro. Era um menosprezo para o que era o ministério.
T - Quando o senhor deixou o ministério, o que foi a primeira coisa que fez? Aposentou o terno definitivamente?
GG - Não, ainda uso. O que faço é dormir até tarde regularmente, até 10h todos os dias. No ministério, acordava cedo, às 7h.
T - O senhor disse que não fuma mais maconha. É defensor da liberalização das drogas?
GG - É evidente que sou. Outro dia alguém me perguntou por que não volto a fumar, que seria bom para a criatividade. A maconha é muito musical, conheço muita gente que se beneficiou muito da capacidade extensiva de ondas de pensamento, de captação que ela proporciona com relação à música. No meu caso, tinha efeitos colaterais complicados: taquicardia, queda na taxa de açúcar no sangue. São coisas que foram se apresentando na medida que ficava mais velho. Quando fiz 50 anos, tomei a decisão de me dedicar à desaceleração do hábito, o que fiz completamente. De vez em quando tenho vontade de experimentar, mas tenho receio da volta ao uso regular por causa dessas questões de saúde, que não se apresentam para todas as pessoas. É muito diverso o impacto que a cannabis tem nas diversas pessoas. Mas não tenho vontade. É hora de confiar na sobriedade.
T - O senhor sempre cuidou muito da alimentação, sempre gostou de ser magro. Ficou mais flexível na forma de se alimentar?
GG - Mais flexível, mas sempre com a âncora na dieta mais rígida. Depois do Natal do ano passado, comi em excesso peru, rabanada e outras comidas gordurosas. No dia 28 de dezembro, sentia o volume do fígado. Não doía, mas sentia a presença do órgão, um sentimento de fundo, das vísceras. Sentia um certo enjôo. No dia 31, tinha um show para fazer em Fortaleza. Um dia antes, depois de dois dias de mal estar, resolvi fazer jejum e fechar a boca. Passei mais de 48 horas sem comer, o que me restituiu o bem-estar, perdi 2 kg que queria perder. O jejum me deu de novo o prazer dos sabores simples dos alimentos, disciplina e cuidado com o corpo. Diria que tenho liberdade, que exerço um modus alimentar muito aberto. Mas confio muito nessas âncoras, como diminuição de consumo de proteínas animais, de carboidratos, substituição das frutas naturais pelas mais secas. Quando você tem acesso ao conhecimento do que rege o modo de operar do seu corpo, sua condição física e psíquica, essas coisas também entram num processo de regulação mais adequado.
T - A partir dos 60 é preciso mudar o ritmo da agenda ou continua na mesma?
GG - No meu caso precisa. A capacidade de despender energia não é a mesma de 20 anos atrás. A capacidade de armazenar energia também não é a mesma. A desfuncionalidade, a atenuação da intensidade de funcionamento do organismo de modo geral tem início. Você não pode mais despender energia. Tem a questão do sono e da vigília, que fica mais séria. É preciso dormir mais para se recuperar melhor.
T - Foi difícil ficar na varanda elétrica e não em cima de um trio elétrico no Carnaval deste ano?
GG - Foi muito diferente. Andar seis horas em cima do trio, ter de alimentar aquela energia, voracidade e fome da massa é muito complicado. Na varanda ia de vez em quando, ficava ali cinco minutos e dava uma canja. Quando passava um trio eu dialogava um pouco. Mas não foi extenuante, não. Vou fazer 67 anos em junho. É hora de ficar quieto. Costumo pensar que é preciso desacelerar e ser ultrapassado, e não atropelado. Meu cuidado é para que tanto no sentido físico quanto cultural e espiritual eu não me deixe atropelar pela desaceleração necessária que tenho de fazer na minha vida. Não quero ser atropelado, e sim ultrapassado. Deixa as coisas mais velozes que estão chegando que temos na contemporaneidade me passarem. Está na hora de abdicar de uma certa liderança, não preciso correr nas primeiras posições.
T - O senhor já foi guru de muita gente. Tem algum guru hoje em dia?
GG - Tudo é meu guru: a árvore, uma formiga que você acompanha durante cinco minutos, um livro, um texto, um blog, uma música, um gorjear de um pássaro nas primeiras horas da manhã.
T - Quando o senhor saiu do ministério, disse que uma música que expressaria bem aquele momento era Refazenda. Qual é a música deste momento?
GG - Se eu Quiser Falar com Deus. É essa necessidade de me aproximar da idéia da finitude. É natural que me considere mais perto de morrer do que de renascer. Tem essa desaceleração a que me referi, que a vida me ultrapasse, que eu fique para trás de forma natural. Perder as ansiedades das realizações. Outra canção boa seria Retiros Espirituais.
T - Gil, o senhor parece sempre muito tranqüilo. É só uma impressão ou é verdade?
GG - É só uma impressão. Ainda ontem, aqui mesmo, eu tinha vindo pra ensaios e acerto com a menina, nossa administradora, e encontrei com dois advogados que tinham vindo tratar de questões aqui. Era um rapaz e uma moça. A moça me disse assim. "No táxi que me trouxe aqui, o motorista se referiu a você. Quando eu disse que vinha ao seu escritório, ele me disse assim: 'ah, diga ao Gil que se ele saiu - se referindo ao ministério - é porque boa coisa ele não viu'." Então, eu dizia a ela: pois é, esse senso comum de que o Estado e o governo são sempre locais inapropriados para as pessoas direitas, ou de que tudo ali está errado, é uma coisa que me incomoda um pouco. Não acho que a política ou a gestão do Estado sejam lugares diferentes dos outros. Quer dizer, coisas inadequadas, maus comportamento, coisas absurdas é uma coisa que a gente encontra em todos os lugares da vida.
T - É um reflexo da sociedade, não é?
BB - É um reflexo da sociedade, é uma coisa da própria condição humana, eu diria. Tal como o homem pôde caminhar até aqui sem condições de se livrar absolutamente das suas imperfeições. Continua imperfeito. E, a essa altura, na medida em que eu fazia o discurso, eu já estava num tom, assim, de exaltação absoluta. Tanto que a Flora saiu da sala dela e disse: "peraí, o que está acontecendo aqui? Você está brigando com alguém?" Extremamente exaltado. E eu me lembro que eu terminei a conversa dizendo para a moça exatamente assim: "você veja, eu tenho essa aparência zen, como todo mundo diz por aí, sou muito quieto, muito calmo, você teve agora a prova de que não é bem assim".
T - O senhor alguma vez já brigou feio com alguém, Gil?
GG - Não, brigar feio não. Eu tive uma vez, quando era jovem, uma coisa que no meu Teste de Rochard, que eu fiz logo depois, aos 17 anos, quando entrei na faculdade, foi detectado como agressividade camuflada. Um dia eu estava jogando bola na porta da casa, na rua do meu bairro, lá no Santo Antônio, com alguns colegas, e eu tinha uma certa unha encravada no dedão do pé direito. Um dos meninos que estava jogando bola comigo olhou a unha e disse "poxa, sua unha é encravada. Uma pisadela aí até que não era ruim, né?". Eu disse: "o que é isso, rapaz? Isso é brincadeira?". Continuamos jogando e, de repente, ele veio e, propositadamente, deu uma pisadela na minha unha, que começou imediatamente a sangrar. Foi ato contínuo. Eu corri para dentro da minha casa, fui à cozinha, peguei uma faca. Saí com a faca e quando me viu com a faca na mão saiu correndo. Eu saí correndo assim por uns 200 ou 300 m atrás dele. Evidentemente e felizmente, não consegui alcançá-lo. Enfim, não esfaqueei o meu amigo. Mas, para dar conta dessa súbita erupção de violência a que eu acho que todos os seres humanos, de uma forma ou de outra, estão sujeitos. É preciso muita vigília, muito cuidado, muito autocontrole, muita capacidade de auto regulação, e desejo mesmo de benignidade, de bondade, de tranqüilidade. É preciso querer isso para poder conseguir, porque o que dá para um, dá para todos. A possibilidade da irracionalidade, da violência irracional, todos nós estamos sujeitos a isso.
T - Gil, o senhor tem com Flora um dos casamentos mais sólidos do meio artístico. E vive bem, aparentemente, pelo que a gente tem notícias e percebe, há muitos e muitos anos. E diante do assédio, que a gente também sabe que existe nesse meio. Como é essa história? Vocês têm ciúmes um do outro? Como é que trabalham essa questão?
GG - Temos ciúmes. Isso foi se atenuando gradativamente ao longo do tempo, na medida em que também a relação foi se estabilizando, se estabelecendo, que o compromisso foi se cumprindo. O compromisso mútuo de fidelidade ou qualquer nome que se dê a isso. De qualquer modo, eu costumo dizer que da minha parte é o seguinte: logo no início do meu namoro com Flora, ao propor, inclusive, um namoro a ela, eu fiz uma canção chamada Flora, onde eu me proponho claramente a viver a velhice com ela, chegar à velhice com ela. Eu tenho a impressão que eu fiz dessa música, um pouco, em muitos momentos conscientemente, mas em outros inconscientemente, eu fiz dela uma espécie de catecismo. Uma espécie de contrato, uma espécie de elemento de regulação da nossa relação. E também ao longo dos anos nós fomos nos reconhecendo cada vez mais como fundamentais para nós mesmos. Nós fomos nos querendo mais. É uma construção. Poderia ter sido desconstruído por alguma razão. Não aconteceu. Nós acabamos permanecendo juntos, nós nos queremos cada vez mais. Nós reconhecemos também cada vez mais essa questão do reconhecimento. Ela já é avó agora, já tem dois netos, está próxima aos 50 anos, já tem uma maturidade, também já não é mais uma menina de 17, como quando eu a conheci. E eu já vou fazer 67 anos de idade. Uma expressão que eu gosto de usar: a conformidade conforme a idade. Nós hoje estamos mais conformados a esse conjunto da nossa idade, das nossas condições físicas, das nossas ocupações, dos nossos afazeres, das nossas responsabilidades, que são muitas - de família, de trabalhos, disso e daquilo. Nós temos muita coisa para nos dedicar, e muita coisa que precisa de uma dedicação conjunta nossa, minha e dela. Isso também nos aproxima muito, nos une muito. São colas, grudes que a gente tem. Coisas que amarram nosso casamento, nossa relação.
T - Gil, para a gente encerrar essa conversa: qual é a sua grande expectativa para o Brasil? A gente sabe que você sempre foi um cara esperançoso, otimista. O que você queria ver acontecer nesse País?
GG - O que eu queria ver acontecer é o que está acontecendo. É o que acontece. É o País se deslocando com a sua peculiaridade. Esse País multirracial, multicultural, formado aqui, nesse contexto de alma barroca, tropical. Com essa capacidade extraordinária de celebração, de contentamento. Aquilo que eu disse: o sentimento de fundo. Esse sentimento de fundo é que os neurocientistas se referem, que é esse sentimento puro e simples, que está nos interstícios das emoções. É o sentimento de viver, a alegria de viver, o contentamento de viver. A gratidão por estar vivo. Esse sentimento é um sentimento profundo no Brasil. O Brasil manifesta isso. Comparativamente a outros países, que são mais deprimidos, que são mais racionais, o Brasil tem essa capacidade de estar no seio da vida, com muita tranqüilidade, com muita facilidade. Isso vai ajudando o Brasil a resolver os outros problemas, que são do plano material, que são propriamente do plano de vida concreta. As simetrias sociais, econômicas, que afligem tanto, que penalizam tanto a sociedade brasileira. Setores amplos da sociedade brasileira que são amplamente castigados por isso, por dificuldade de acesso ao conhecimento, de acesso à riqueza, de acesso ao poder. Mas essa alma, essa capacidade da alma brasileira de fazer a leitura do bem estar no simples ser das coisas, no simples viver, isso eu acho que vai ajudar o Brasil muito. Nós temos tido recentemente exemplos muito claros. O Brasil começa a conquistar seu espaço no mundo, a partir dessa sua originalidade. Quando o Obama vira para o presidente Lula e diz "esse é o cara", na verdade ele não está se referindo à pessoa do Lula, nem à própria personalidade do Lula, nem ao fato propriamente do Lula ser o presidente do Brasil. Ele está se referindo a essa questão espiritual cultural. Essas são as nações emergentes que vão estabelecer o modo de estar no mundo das novas civilizações que vêm aí.
- Redação Terra


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