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São Paulo tem mais de 1% dos homicídios do mundo

05 de agosto de 2004 12h39 atualizado às 12h39

Mais de 6 mil pessoas perderam a vida na cidade de São Paulo em 2002, uma proporção de 58 mortes por 100 mil habitantes. De acordo com cálculos da Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 1% dos 520 mil homicídios que ocorreram no mundo em 2000 foram cometidos na capital paulista.

Esses números não incluem mortos em guerras ou outros conflitos nem suicídios. Apenas os óbitos resultantes de violência interpessoal. A participação da cidade na população mundial, estimada pela ONU em 6,1 bilhões de pessoas, é de apenas 0,17%.

Apesar disso, depois de forte aumento nos anos 80 e 90, as mortes por homicídio diminuíram na cidade nos últimos anos. Entre 2001 e 2002, caíram 9%. Os números do último trimestre do ano passado mostram uma redução ainda maior, de 16%, em relação ao mesmo período do anterior.

Quarta mais violenta
A média de 58 homicídios por 100 mil habitantes coloca São Paulo como a quarta capital mais violenta do país ¿ depois de Recife, Cuiabá e Porto Velho. Mas os números situam a cidade como uma das mais violentas do mundo, com índice de homicídios inferior apenas a lugares como Medellín e Cali, na Colômbia, Cidade da Guatemala e San Salvador.

Os índices de homicídio em São Paulo variam muito nos diversos bairros da cidade ¿ e invariavelmente são muito superiores na periferia do que nas áreas centrais, mais policiadas e habitadas por membros da camada mais rica da cidade.

Os índices de homicídio variam de dez por 100 mil habitantes na região de Pinheiros, de classe média e a poucos quilômetros do centro, a 103 por 100 mil (uma morte a cada mil habitantes por ano) em Parelheiros, no extremo sul da cidade, já na divisa com a Serra do Mar.

E entre essa população, os homens jovens são as maiores vítimas. Os homicídios são a principal causa de mortes entre os homens de 10 a 49 anos, à frente de doenças do coração e acidentes de trânsito. Na população total, os assassinatos são a terceira causa de mortes na cidade.

Um relatório mundial sobre violência e saúde, publicado no ano passado pela OMS, estima em 1,6 milhão o número de mortes violentas no mundo em 2000, uma proporção de 28,8 por grupo de 100 mil.

Os homicídios representam um terço desse total - 8,8 por 100 mil. A média paulistana é mais de seis vezes superior. No Brasil como um todo, o índice de homicídios é de 26 por 100 mil habitantes. Nas capitais, é de 40 por 100 mil.

Situação invertida
O relatório da OMS também mostra que, no mundo, os suicídios respondem por metade das mortes violentas, enquanto os homicídios por um terço e as mortes relacionadas a guerras representam 18% do total.

Já nas Américas, a situação se inverte. O índice de suicídios passa para oito por 100 mil, enquanto os homicídios sobem para cerca de 19 por 100 mil. Todos os números, porém, muito inferiores aos verificados em São Paulo.

"São Paulo é uma cidade terrível, do ponto de vista da convivência humana", diz o sociólogo Fernando Afonso Salla, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP).

Salla nota que o aumento da violência levou à perda dos espaços públicos de convivência e à procura cada vez maior, principalmente nos últimos 20 anos, de estratégias individuais de segurança. "Cresceram muito nos últimos anos a blindagem de carros, grades nas casas. Tudo isso torna a convivência na cidade muito complicada", afirma.

Para uma diminuição efetiva da violência, o sociólogo aponta a necessidade de investimento pesado em programas sociais, para integrar à sociedade as camadas mais pobres, dos bairros periféricos, ao mesmo tempo em que defende uma reforma no sistema policial e penitenciário, para acabar com as fugas nas prisões, e judiciário. "É a dobradinha de sempre, investimento na diminuição da exclusão social e econômica de um lado e no aumento da eficiência da polícia do outro", afirma.

Programas
Um estudo da prefeitura afirma que a violência caiu mais nos bairros da periferia onde foram implementados programas de inclusão social e complementação de renda.

De acordo com o estudo, a taxa de homicídios diminuiu nos 50 distritos administrativos onde os programas foram implementados. Na média, a redução foi de 10,7%, mas a queda foi maior (de 14,4%) nas regiões onde os programas sociais foram colocados em prática há mais tempo.

Nos distritos que ainda não foram atendidos pelos programas sociais, o índice de homicídios também caiu, mas a queda foi menor (de 7,7%).

O estudo também mostra que a violência diminuiu em sete dos dez distritos que em 2000 eram classificados como os mais violentos. Três deles deixaram a lista.

Nos bairros periféricos de Cidades Tiradentes e Brasilândia, ambos com índice de homicídios superior a 100 por 100 mil no ano 2000, as mortes caíram quase 30% entre 2001 e 2002. No Jardim Angela, que chegou a ser classificado como o bairro mais violento de São Paulo, no extremo sul da cidade, o índice de homicídios caiu de 110 por 100 mil para 89 por 100 mil.

Homicídios nas capitais (Mortes por 100 mil habitantes, em 2000)
1 - Recife: 67,4
2 - Cuiabá: 65,6
3 - Porto Velho: 60,7
4 - São Paulo: 58,5
5 - Vitória: 54,4
6 - Rio de Janeiro: 49,5
7 - Boa Vista: 46,4
8 - Macapá: 43,4
9 - Maceió: 37,9
10 - Campo Grande: 37,2
11 - Rio Branco: 35,2
12 - Aracaju: 33,6
13 - Brasília: 33,5
14 - Manaus: 32,4
15 - João Pessoa: 31,9
16 - Porto Alegre: 30
17 - Belo Horizonte: 28,2
18 - Fortaleza: 24,3
19 - Goiânia: 22,2
20 - Belém: 21,9
21 - Palmas: 21,8
22 - Curitiba: 21,1
23 - Teresina: 20,3
24 - São Luís: 14,9
25 - Salvador: 11,8
26 - Florianópolis: 11,1
27 - Natal: 6,7
Média nacional: 39,7
Fonte: Ministério da Saúde

São Paulo: homicídios por bairros (Mortes por 100 mil habitantes em 2002) - Os mais violentos
1 - Guaianazes: 115,5
2 - Parelheiros: 106,7
3 - Brás: 106,6
4 - Grajaú: 88,3
5 - Jardim Angela: 88,1
Fonte: Secretaria Municipal da Saúde São Paulo: homicídios por bairros (Mortes por 100 mil habitantes em 2002) - Os menos violentos
1 - Anhanguera: 10,2
2 - Santana: 11,6
3 - Socorro: 18,4
4 - Barra Funda: 24,4
5 - Rio Pequeno: 30,1
Fonte: Secretaria Municipal da Saúde

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