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Não há solução para trânsito a curtíssimo prazo, diz Lacerda

08 de janeiro de 2009 07h24 atualizado às 07h32

Márcio Lacerda (esq.) tem como vice Roberto de Carvalho (dir.). Foto: Ney Rubens/Especial para Terra

Márcio Lacerda (esq.) tem como vice Roberto de Carvalho (dir.)
Foto: Ney Rubens/Especial para Terra

O prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda (PSB), 62 anos, nunca havia disputado uma eleição até o pleito de outubro do ano passado. A candidatura dele foi idealizada pelo governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), e pelo ex-prefeito da capital mineira, Fernando Pimentel (PT). O seu vice é o ex-deputado estadual Roberto de Carvalho (PT).

» Veja: Lacerda concede entrevista

Nascido na cidade de Leopoldina, na Zona da Mata, o empresário é casado com Regina Lacerda e pai de três filhos. Passou a infância e a adolescência em Inhapim, município do Vale do Rio Doce. Aos 17 anos mudou-se para Belo Horizonte, onde iniciou o curso de Administração de Empresa pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Durante o regime militar, foi militante do Partido Comunista Brasileiro e da Ação Libertadora Nacional (ALN). Chegou a ficar preso durante quatro anos. O cárcere foi dividido com o amigo Fernando Pimentel, de quem recebeu a Prefeitura de Belo Horizonte no dia 1 de janeiro.

Foi dono de empresas do ramo de telecomunicações e em 2003 trabalhou como secretário-executivo do Ministério da Integração Nacional, na gestão de Ciro Gomes. Em 2007, a convite do governador Aécio Neves, assumiu a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico do Estado de MG.

Logo depois de tomar posse em Belo Horizonte, Lacerda conversou com o Terra. O prefeito, que já no primeiro dia de mandato foi obrigado a anunciar medidas emergenciais para socorrer os desabrigados pela chuva na cidade, prometeu fazer uma administração próxima da população e dar continuidade ao projeto iniciado pelo ex-prefeito Fernando Pimentel. Tudo com a benção do governador Aécio Neves. Confira abaixo a íntegra da entrevista:

Já no primeiro dia à frente da Prefeitura de Belo Horizonte, o senhor teve de enfrentar um problema grave, que foi a enchente provocada pela cheia do rio Arrudas. Desde a campanha eleitoral, passando pela fase de transição da administração até estes primeiros dias de trabalho, o senhor teve o contato direto com os problemas da capital. O que o senhor viu e gostou e o que o senhor viu e não gostou, por isso o está incomodando e pretende resolver logo?
Durante a campanha e também depois de eleito, no período de transição, visitei diversas regiões, conversei com várias lideranças, com os diversos setores do governo e da sociedade civil e me aprofundei bastante nos temas relativos à cidade. Ouvi muitas reivindicações, críticas, sugestões e também elogios, de comerciantes, de moradores, de dirigentes, enfim, de uma expressiva parcela da sociedade organizada. A principal queixa se refere a um assunto que é comum em todas as metrópoles: o trânsito. Mas existe muita coisa boa, que pretendo manter: as obras estruturantes, os programas de participação popular, os programas sociais, enfim, há mais coisas boas do que ruins.

Claro que temos deficiências em vários setores e temos que corrigi-las. No momento, estamos trabalhando em um plano estratégico para a cidade, com metas definidas para curto, médio e longo prazos nas áreas da saúde, habitação, educação, segurança, transporte, trabalho e renda, cultura, esporte, lazer e meio ambiente. Pretendo administrar Belo Horizonte sendo fiel ao meu lema de campanha: "continuar e melhorar". Ou seja, continuar o que existe de bom na cidade e melhorar ainda mais no que for possível. Belo Horizonte é uma cidade que foi muito bem administrada nos últimos anos. A gestão do prefeito Fernando Pimentel foi excelente, tanto é que tem mais de 90% de aprovação.

Por falar em chuva, um dos fatores que contribuiu para a enchente do rio Arrudas foi a falta de canalização do leito do rio em Contagem, na região da Vila São Paulo e do bairro Industrial. Os problemas que as cidades da região metropolitana não conseguem resolver geralmente sobrecaem sobre Belo Horizonte. Outro exemplo é a área da Saúde. O sistema está sobrecarregado devido ao número de pacientes que vêm de outros municípios. O que o senhor pretende fazer para não ficar resolvendo problemas dos outros?
Belo Horizonte é a capital do Estado. É natural que os cidadãos mineiros de outras cidades busquem os serviços aqui, que são de boa qualidade. A questão metropolitana é uma das prioridades em meu programa de governo. Um grande desafio é o atendimento universal da saúde para o município e para a Região Metropolitana como um todo. As soluções, necessariamente, deverão ser compartilhadas com o governo do Estado e com os demais municípios.

Pretendemos criar um sistema para atendimento de emergências, com novas portas de entrada em municípios vizinhos, articuladas por um Samu metropolitano. Vamos construir ainda um Hospital Metropolitano para 300 leitos. Outra idéia é a implantação de um consórcio metropolitano de saúde. Para fazer o planejamento de Belo Horizonte, temos que conversar com as cidades vizinhas. Essa integração é fundamental. Belo Horizonte vai participar ativamente da Agência de Desenvolvimento Metropolitano, cuja criação foi aprovada recentemente na Assembléia Legislativa. A criação da agência visa dar um braço operacional, eficaz, para a assembléia e o conselho deliberativo metropolitanos, que já existem.

Um dos maiores males da cidade é o trânsito, com quase 1,1 milhão de carros atualmente. Na campanha, o senhor falou muito no programa Corta-Caminho, o Viurb´s, que são cerca de 150 obras viárias que pretendem desafogar e planejar o tráfego da capital. Mas o senhor mesmo disse que as mudanças serão percebidas daqui dois ou três anos. E o trânsito de Belo Horizonte já está quase parando. Quais medidas mais urgentes vai tomar para minimizar o problema?
A BHTrans está estudando medidas imediatas para amenizar o problema, que iremos divulgar em breve. Mas adianto que não é possível fazer muita coisa no curtíssimo prazo. Belo Horizonte tem um sistema de circulação radial ultrapassado, precisa de muitas vias transversais para tirar o tráfego do centro. O programa Corta-Caminho, um dos pontos principais do meu plano de governo, prevê a construção de ruas e avenidas, trincheiras e viadutos, que serão interligados a outras vias já existentes, formando anéis alternativos de trânsito. Como medidas de curto prazo, vamos dar prioridade para obras que têm impacto maior no trânsito da área central. Outra vertente que pretendo concentrar todos os meus esforços é na ampliação do metrô. A questão do trânsito e transporte também deve ser vista pela ótica da integração da Região Metropolitana.

Ainda falando sobre transporte público, quando o prefeito Célio de Castro foi reeleito, em 2000, ele disse que as três principais intervenções do segundo mandato dele seriam a conclusão da linha do metrô até o Barreiro; a ligação da avenida Pedro II até a avenida Tancredo Neves, passando pela Vila São José; e a recuperação da Lagoa da Pampulha. O prefeito Célio de Castro deixou a prefeitura, Fernando Pimentel já cumpriu dois mandatos e nenhum dos três projetos foi concluído, ficando somente em um, o metrô. Em 2012, quando o senhor terminar o primeiro mandato, os belorizontinos terão novas opções de linhas do metrô concluídas?
As obras de ligação das avenidas Pedro II e Tancredo Neves, passando pela Vila São José, estão a pleno vapor, seguindo seu cronograma normalmente. Na Lagoa da Pampulha, muito foi investido na gestão de Fernando Pimentel. Muito do espelho d¿água da lagoa foi recuperado, sem falar na revitalização da orla, do patrimônio arquitetônico e da criação do Parque Ecológico, um espaço belíssimo. Sobre o metrô, ele é plenamente viável com a Parceria Público Privada (PPP). Neste momento, estamos em entendimento com os governos estadual e federal para que possamos formatar um modelo de Parceria Público-Privada, que envolva a iniciativa privada e os três níveis de governo.

O senhor trabalhou no Ministério da Integração Nacional com o ministro Ciro Gomes, e no governo de MG com o governador Aécio Neves. O que o senhor fez de bom nestes dois lugares que pretende trazer para executar na sua administração em Belo Horizonte? E o que o senhor acha que não deu certo e que vai evitar repetir para não errar novamente?
Além de minha longa experiência na gestão de minhas empresas, tive a oportunidade de trabalhar no governo Lula, no Ministério da Integração Nacional, e no governo Aécio, como secretário de Desenvolvimento Econômico. Tanto no Ministério como no governo do Estado, tive uma ótima experiência sobre gestão pública. Esta experiência, sem dúvida, é um facilitador na busca de recursos e convênios para a cidade. Conheço bem as esferas federal e estadual de governo e sei onde procurar as parcerias.

Também lidei com situações diversas, desde catástrofes, como as enchentes do Nordeste, na época em que eu era secretário executivo do Ministério, até a atração de investimentos externos, na época em que fui secretário de Estado. Foi uma experiência muito rica, que certamente me ajudará muito na Prefeitura de Belo Horizonte.

Durante a campanha eleitoral, tanto o senhor quanto o governador Aécio Neves e o ex-prefeito Fernando Pimentel disseram que a eleição do candidato da Aliança por BH, Márcio Lacerda, não significava uma vitória simples, mas sim o triunfo de uma tese que Aécio e Pimentel defendem que eles acreditam ser o melhor para o Brasil no futuro. Houve a aliança, tucanos e petistas andaram juntos, alguns reclamaram, e hoje o senhor é o prefeito.

Qual tese é esta e como ela vai influenciar a vida política do País nos próximos anos? E completando, para o senhor o que a vitória da união PT-PSDB, simbolizada no candidato do PSB, pode influenciar nas eleições de 2010, tanto para o governo de MG quanto para a presidência da República? O senhor vê o presidente Lula dentro deste projeto?
Há seis anos, o governador Aécio Neves e o prefeito Fernando Pimentel iniciaram uma parceria que visa o interesse público e não os interesses partidários. Uma série de projetos foram encaminhados e uma série de problemas muito antigos foram resolvidos em função dessa colaboração. Fui candidato a prefeito por acreditar neste projeto. A população me elegeu, demonstrando que aprova esta tese de partidos adversários abrirem mão das diferenças em prol dos interesse públicos. Sobre as questões políticas futuras, o que posso dizer é que pretendo fazer meu trabalho muito bem-feito, administrar bem esta cidade. Fui eleito para isso. Tenho muito trabalho como prefeito e certamente não terei tempo para me envolver em questões partidárias.

Com a crise financeira mundial, que muitos economistas dizem ser impossível do Brasil escapar dos efeitos, como o senhor pretende cortar gastos se os investimentos diminuírem a níveis muito baixos? Aliás, como o senhor recebeu o caixa da prefeitura ?
Como empresário, durante quase 30 anos, administrei várias crises financeiras. Trago, então, uma experiência que, sem dúvida, me ajudará a enxergar caminhos na busca de soluções. Com ponderação e transparência, faremos os ajustes orçamentários que menos impacto tenham sobre os serviços e áreas fundamentais para a vida da cidade. Posso assegurar que o setor social não sofrerá qualquer redução nos recursos previstos para este ano. Vamos manter e aprofundar as questões sociais. Os ajustes, se necessários, deverão ser feitos em obras, com adiamento de alguns empreendimentos. Recebi o caixa municipal saneado, sem dívidas de curto prazo, o que traz uma tranqüilidade para a administração.

Para finalizar, qual recado o senhor manda para a população de Belo Horizonte, já pensando nestes quatro anos de governo? O cidadão que precisar e quiser conversar com o senhor, terá as portas da prefeitura sempre abertas?
Quero governar ouvindo a população. A participação da população é fundamental. Convido todos os cidadãos de Belo Horizonte a participarem ativamente da administração da cidade, através dos diversos canais de diálogo existentes na cidade, como fóruns e conselhos. Procurem participar destes fóruns. Nosso programa de governo foi aprovado nas eleições, nossa mensagem teve acolhida da maioria, mas ele não é imutável e está aí para receber contribuições, para receber melhorias.

Vamos aprimorar as conquistas e manter os projetos vitoriosos como o Orçamento Participativo, o Vila Viva, a Escola Integrada, a Escola Infantil. Vamos corrigir os rumos naquelas atividades que não estejam produzindo resultados desejados. Vamos trabalhar juntos na construção de uma cidade cada vez mais justa e fraterna.

Especial para Terra