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Lacerda não dá entrevista, mas nas conversas informais com assessores e visitantes, não esconde a indignação com o rumo da Operação Satiagraha e as suspeitas de que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) teria agido ilegalmente ao colaborar com a Polícia Federal nas investigações que levaram o banqueiro Daniel Dantas à cadeia.
"A cooperação foi legal, mas só a justiça pode dizer se houve algum desvio. Eu repetiria tudo de novo. Se tivesse sido feito o pedido, em vez dos 82 agentes, teria cedido 300 da Abin para ajudar o delegado Protógenes Queiroz", disse Lacerda a um interlocutor.
O delegado se sente constrangido com a hipótese de falso testemunho levantada por integrantes da CPI do Grampo - que pedem seu indiciamento - e diz que só o juiz federal Fausto De Sanctis poderá dar a palavra final sobre a legalidade ou não da cooperação. Numa decisão por 2 votos a 1, o juiz foi mantido ontem no caso Daniel Dantas pelo Tribunal Regional Federal (TRF) de São Paulo. O ministro da Justiça, Tarso Genro, decidiu, também ontem, recorrer à Advocacia Geral da União (AGU) para que o juiz federal Ali Mazloum reconsidere a decisão que impede a Abin de participar da força-tarefa que vai analisar os documentos apreendidos na semana passada no escritório da agência.
Lacerda dirigiu a Polícia Federal durante cinco anos e meio e diz que a integração entre os dois órgãos ocorreu em várias outras operações. A diferença é que desta vez foi um apoio ostensivo, com uma média de 20 agentes atuando diariamente no coração das investigações ¿ um contingente raramente cedido nesse tipo de parceria. Além disso, a direção da PF não foi informada da parceria. O apoio foi intensificado em abril, depois que o delegado Protógenes Queiroz, convocado por seus superiores para dar explicações a uma jornalista sobre as investigações que conduzia sob sigilo, passou a suspeitar que seus próprios chefes pudessem ter vazado a operação.
Honra
Lacerda acha que por se tratar de um alvo do perfil de Daniel Dantas, os 82 agentes representavam um apoio à altura do desafio. Segundo ele, os críticos da Abin esqueceram de citar outros órgãos, como o Banco Central, a Receita Federal, Controladoria Geral da União (CGU) e o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que ajudou a bloquear dinheiro do Fundo Opportunity no exterior.
Nos bastidores, o delegado se queixa do comportamento da PF que, na sua avaliação, tem feito um esforço desproporcional para apanhar Protógenes e, por tabela, causar o desgaste que ameaça seu retorno ao cargo. Na sua avaliação, voluntária ou involuntariamente, esse tipo de ação expõe um choque entre órgãos públicos e, por tabela, favorece a defesa do banqueiro. Lacerda afirma que não está preocupado em manter o emprego. Os pouco mais de R$ 4 mil que ganha como diretor da Abin pouco acrescentam à sua renda. Seu problema é moral.
"Tentaram atingir minha honra. Quero que o governo se convença de que não houve ilegalidade. Não quero deixar dúvida nenhuma", disse a um interlocutor, ao se referir às suspeitas de possa ter se envolvido com o suposto grampo no telefone do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, ou que haja ilegalidade na cooperação da Abin à PF.
Lacerda tinha como meta reestruturar a Abin e sabia que seu maior desafio era retirar o estigma da espionagem clandestina que acompanha o órgão desde a ditadura militar e que agora, por ironia, voltou-se contra ele. Os assessores acham que ele não tem "estômago" para suportar a fritura em fogo brando, que deve ser prolongar até a virada do ano, mas ele estabeleceu como limite para definir seu destino a conclusão do inquérito policial.
JB Online