Rio tem primeira morte por dengue após epidemia

14 de novembro de 2008 • 05h19 • atualizado às 05h55

A dengue provocou nessa quinta-feira a primeira morte no Estado do Rio desde a última epidemia da doença. A vítima, Daniela de Souza dos Santos, 22 anos, trabalhadora e estudante, era casada e mãe de um menino de 4 anos. Ela morava em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.

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Balconista e estudante do 8º ano do Fundamental, Daniela estava no CTI do HGV, onde chegou em estado muito grave, de ambulância, encaminhada pelo Hospital da Posse, unidade pública municipal de Nova Iguaçu, local em que ocorreu o seu primeiro atendimento. A jovem morreu com os sintomas da doença do tipo hemorrágico. À tarde, procurado pelo Jornal do Brasil, o diretor da unidade, o médico Marcelo Soares, confirmou o diagnóstico, mas informou que só hoje ficará pronto o laudo do exame sorológico.

"Ainda não fechamos as nossas estatísticas e nem acionamos o sinal de alerta para as autoridades da Secretaria de Saúde, mas, desde a semana passada, observamos um aumento no número de atendimentos emergenciais de casos de dengue", esclareceu o diretor do HGV. "Desde a última epidemia, esse foi o primeiro caso de morte por dengue registrado nesta unidade."

Tal como ocorreu em diversos casos na epidemia passada, cujo pico, segundo a Secretaria Estadual de Saúde, ocorreu entre fevereiro e maio deste ano, Daniela - de acordo com sua tia, Ivanilda Muniz de Souza - sofreu com a demora do diagnóstico correto da doença. Desde sexta-feira, ela passou três vezes pelo Hospital da Posse, onde a doença foi tratada como infecção urinária, e a paciente, liberada. Na terça, foi internada e encaminhada, já com hemorragia, para o HGV.

"Mais pessoas vão morrer se nada for feito logo. O governo precisa fazer alguma coisa para mudar esse quadro. Minha sobrinha era mãe e trabalhadora, não merecia esse fim", desabafou Ivanilda, única da família em condições de dar entrevista, apesar das lágrimas.

O diretor do Hospital da Posse, Marcos de Souza, confirmou que só na terça-feira a unidade verificou sintomas de dengue com plaquetonia (causa de hemorragia).

"Há uma grande dificuldade em diagnósticos desse tipo", admitiu o diretor. "O que é mais grave é o fato de ainda haver casos nesse nível de gravidade. Infelizmente, pode ocorrer de novo."

Descaso
Segundo a tia e vizinha de Daniela, a sobrinha enfrentou ainda descaso tanto por parte de vizinhos como das autoridades.

"Há quatro meses, tentávamos combater os focos próximos de nossa casa, com medo de algo de pior acontecesse. Imploramos para que vizinhos pusessem areia nos cacos de vidro que usam no alto dos muros para proteger suas casas de invasores. Teve um que até pôs a areia uma vez, mas a água da chuva levou e não adiantou nada. E reclamamos com os encarregados das obras de saneamento, que abriram dois buracos na nossa rua, cada um de dois metros de diâmetro", explicou Ivanilda, que mora em Vila Marino, Nova Iguaçu, na Rua Anderson, logradouro sem asfalto, onde lama e lixo se acumulam em frente às casas. Nessa rua vivia Daniela. Num dos buracos, encalhou o carro da reportagem.

Força-tarefa contra a doença
Uma ação conjunta entre os governos federal, estadual e municipal é a estratégia traçada pelo novo prefeito para deter o avanço de uma nova epidemia de dengue no próximo verão.

A decisão de criar a força-tarefa, que une as três esferas da administração pública, foi divulgada após uma reunião do ministro da Saúde, José Gomes Temporão, e o governador Sérgio Cabral, realizada na tarde de quinta, no Palácio Guanabara, em Laranjeiras, com todos os secretários do Estado e dos recém-nomeados pelo futuro prefeito do Rio, Eduardo Paes.

"Vamos assumir no meio do surto de dengue, ou no momento de maior prevalência. Muito pouca coisa a gente vai poder fazer nesse verão. Vamos, principalmente, articular a rede assistencial da melhor maneira possível. E trazer o poder de combate à dengue para o cidadão. É absolutamente fundamental que todos os moradores do Rio de Janeiro se conscientizem do seu papel e cuidem de suas casas e bairros", explicou o novo secretário de Saúde do município do Rio, o cardiologista Hans Dohmann.

O esforço a ser empreendido no combate à dengue será realizado simultaneamente por diversos órgãos do governo, nos níveis municipal, estadual e federal, declarou o secretário estadual de Saúde, Sérgio Côrtes. O trabalho, exemplificou, envolverá as secretarias de Educação, de Transporte e de Urbanismo, entre outras. Côrtes observou que o ministro da Saúde deixou claro que considera importante o envolvimento do secretário Saúde do Estado do Rio e de todos os 92 municípios no programa de combate à doença que o ministério apresentou em Brasília.

"Quando o centro de hidratação foi criado pelo governo do Estado e pelo ministério da Saúde, nos 70 mil pacientes atendidos não foi registrado nenhum óbito. Temos que parar de pensar se vai haver ou não epidemia. O trabalho é todo dia. Temos de trabalhar a conscientização o tempo todo", concede Côrtes, que atribuiu as epidemias que assolaram a cidade nos últimos 15 anos à falta de ação da prefeitura.

Origem do mosquito
O secretário de Vigilância e Saúde do ministério da Saúde, Gerson Penna, disse que uma das vantagens do plano divulgado é que terminou a disputa para ver se o mosquito da dengue é municipal, estadual ou federal, "como houve no passado, com uma omissão do município".

"O secretário de Saúde, 24 horas depois de ter sido anunciado, já estava em Brasília para discutir um plano de combate", acrescentou.

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