CPI das Milícias: Nadinho lança suspeita sobre políticos

10 de setembro de 2008 • 03h54 • atualizado às 03h54

A relação próxima entre a cúpula da Segurança Pública do governo passado e as milícias de Jacarepaguá ficou no centro das discussões ontem durante depoimento de dois investigados pela CPI das Milícias na Alerj. Em seu relato, o vereador Josinaldo Francisco da Cruz, o Nadinho de Rio das Pedras (DEM), afirmou que o ex-secretário de Segurança Marcelo Itagiba e a inspetora Marina Magessi - atualmente deputados federais pelo PMDB e PPS, respectivamente -, além do ex-chefe de Polícia Civil, Álvaro Lins, fizeram campanha com apoio de integrantes de milícias de Jacarepaguá.

» Leia mais notícias do jornal O Dia

Presidente da comissão, o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) decidiu colocar em votação, na semana que vem, a convocação dos parlamentares para depor. "Tanto num depoimento quanto no outro foi citado que autoridades da Segurança Pública do governo passado fizeram campanha em área reconhecidamente de milícia. Eles sabiam da existência desses grupos e não apenas deixaram de combater as milícias, como se beneficiaram do esquema montado por estes grupos para obtenção de votos", afirmou Freixo, com base no depoimento de Nadinho.

Depois de falar por quase duas horas em sessão aberta, o vereador Nadinho pediu à CPI um depoimento fechado no qual listou os nomes de envolvidos com a milícia de Rio das Pedras. Ao sair, afirmou que corre risco de vida. "Qualquer criança sabe quem é miliciano em Rio das Pedras. A preocupação é que eu perca para virar alvo mais fácil", disse, no mesmo tom de entrevista dada a O Dia em julho, quando afirmou: "só não tomo tiro por ser vereador".

Nadinho detalhou as relações de políticos com redutos controlados por milícias. Disse que, em 2006, fez campanha em Rio das Pedras para eleger Rodrigo Maia deputado federal e João Pedro para a Alerj, ambos do DEM. Além de Itagiba (que Nadinho confirmou sempre visitar a comunidade), Lins e Magessi, ele ainda citou o deputado Domingos Brazão (PMDB) como beneficiário do apoio destes grupos. "Rio das Pedras vem sofrendo uma intervenção muito forte no combate à milícia", afirmou Nadinho, para depois contar que o combate não acontecia no governo anterior.

Ameaças
O vereador ainda negou os informes recebidos pelo Ministério Público de que teria contratado um bando de pistoleiros de fora do Estado para matar a promotora Márcia Velasco, que o denunciou pela morte do inspetor Félix dos Santos Tostes, em fevereiro de 2007.

Freixo também questionou Nadinho sobre o depoimento que o presidente da cooperativa de transporte alternativo de Rio das Pedras, Getúlio Rodrigues Gamas, deu ao MP afirmando que o vereador ameaçou matá-lo caso não mudasse depoimento à Justiça pela morte de Féix. O vereador, que poderá ser indiciado por coação no curso do processo, negou as acusações.

João Pedro jantou na casa do inspetor Félix
As ligações do deputado estadual João Pedro Figueira, integrante da CPI, com acusados de fazer parte da milícia de Rio das Pedras não se limitam às citações de Nadinho na CPI. Em um depoimento dado no dia 14 de dezembro do ano passado na 4ª Vara Criminal, a viúva do inspetor Félix, Maria do Socorro Barbosa, contou que o parlamentar foi a um jantar em 2006 na casa do casal para discutir a situação eleitoral.

Com presença garantida em quase todas as reuniões da CPI das Milícias até agora, João Pedro não compareceu ontem à Assembléia para ouvir o depoimento de Nadinho, seu companheiro de partido. Procurado, o parlamentar afirmou que se ausentou para organizar o jogo da Seleção Brasileira, hoje, no Engenhão. Ele confirmou que jantou na casa do Félix a convite de Nadinho. "Ele (Nadinho) apoiou a mim e ao Rodrigo Maia, por questão de partido. Em 2006, Nadinho marcou o jantar, mas eu senti que já havia uma rusga entre eles", contou, referindo-se ao vereador e a Félix, que, na época, apoiava a candidatura do capitão Epaminondas Queiroz, então no PDT.

Nadinho responde pela morte de Félix junto com o policial civil André Luiz da Silva Malvar, preso em julho, no Nordeste. Apesar de negar qualquer relação pessoal com Malvar, Nadinho foi acusado ontem pela deputada Cidinha Campos (PDT) de ter nomeado a ex-mulher do policial, Eliane Malvar, para trabalhar na Câmara. O vereador negou conhecer Eliane.

Deputados negam envolvimento
Itagiba não quis dar entrevista e apenas emitiu uma nota em que listou iniciativas de sua gestão como secretário de Segurança como a instalação de um posto de policiamento comunitário em Rio das Pedras. Outro que não foi encontrado para comentar a ligação com milícia foi o secretário de Governo Rodrigo Bethlem.

Segundo dados disponíveis no Tribunal Superior Eleitoral, Itagiba teve 4.085 votos na 179ª Zona Eleitoral, que engloba a comunidade de Rio das Pedras. O campeão foi o capitão Queiroz com mais de seis mil votos. Brazão (4.868), Rodrigo Maia (3.386) e Rodrigo Bethlem (2.516) foram outros bem votados.

A deputada Marina Magessi, que teve 697 votos na região, se defendeu. "A única vez que fui a Rio das Pedras, foi no aniversário do Félix, que era meu amigo pessoal. Ele chamou políticos e o Itagiba para o palanque", afirmou. Brazão disse que sempre fez campanha na região e que nunca pediu autorização para entrar.

Nadinho também citou na CPI que trabalhou com o candidato a prefeito Eduardo Paes, em 1996. "Ele foi uma pessoa com quem tive convívio como subprefeito na época em que ele era presidente de Rio das Pedras, mas ele nunca trabalhou para mim", negou Paes.

Cidinha e Girão trocam acusações
O tempo fechou entre o sargento do Corpo de Bombeiros e candidato a vereador Cristiano Girão (PMN) e a deputada Cidinha Campos. O bate-boca começou com o pedido da parlamentar para a comissão investigar a morte de uma ex-empregada de Girão.

Segundo ela, há informação de que a mulher teria roubado dinheiro da casa do candidato e, descoberta, foi torturada na associação de moradores e arrastada "para servir de exemplo". Girão admitiu o roubo, mas disse desconhecer o paradeiro da mulher.

"Todo mundo tem medo do senhor no bairro", afirmou Cidinha. Girão retrucou: "menos o seu filho, que é meu amigo e freqüenta as minhas festas". A deputada disse que foi intimidada: "sei que o senhor é matador. E diz que prende tanta gente sendo bombeiro. Se o senhor não é miliciano, é justiceiro", acusou. Freixo teve que acalmar os ânimos: "o Rio não precisa de xerifes, precisa de leis".

Girão estava acompanhado da mulher, a funkeira MC Samantha, que chamou a atenção com suas jóias e roupas de grife. O sargento disse desconhecer a existência de grupo paramilitar na Gardênia Azul, mas confirmou que prende criminosos. "Sou líder comunitário e militar. Mesmo que não fosse, não vou permitir que ninguém roube ou fume maconha na minha porta", disse.

Girão revelou que foi assessor especial do governo Rosinha, em 2005, indicado pelo atual secretário de Governo Rodrigo Bethlem. Na ocasião, pediu a ele a instalação de posto policial na favela e foi atendido.

Girão admitiu não ter declarado alguns bens ao TRE e minimizou o patrimônio: "comprei por R$ 70 mil um apartamento naquela torrezinha na avenida Sernambetiba (o imóvel, doado à ex-mulher por R$ 15 mil, foi avaliado pela prefeitura em R$ 500 mil), um sítio em Silva Jardim e um carro. Dois foram roubados e os outros, vendidos, mas esqueci de dar baixa".

O Dia - © Copyright Editora O Dia S.A. - Para reprodução deste conteúdo, contate a Agência O Dia.
 
Enviar para amigos
Fechar por:
Enviar para amigos
Fechar por:

Imprimir

Fechar
Mais vistos

Notícias

  1. Carregando...
leia mais notícias »