Jornal: escutas abalam cúpula do Estado brasileiro

03 de setembro de 2008 • 18h01 • atualizado às 19h01

Jean-Pierre Langellier

Brasil


Um escândalo de escutas ilegais que atinge os mais altos escalões do Estado brasileiro levou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em nome da "transparência", a suspender Paulo Lacerda, o chefe da Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Ele foi substituído por um de seus subordinados, em 2 de setembro.

O escândalo eclodiu no domingo, quando a revista semanal Veja apontou que funcionários da Abin haviam instalado escutas no telefone de Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal brasileiro. Ministros e parlamentares, entre os quais o presidente do Senado, também foram vítimas do excesso de zelo dos "arapongas".

De acordo com o deputado Marcelo Itagiba, as escutas legais se "banalizam" mais e mais no Brasil - mais de 400 mil delas foram autorizadas pela Justiça em 2007-, enquanto as ilegais "se multiplicaram".

Usualmente, as gravações são destruídas depois de serem exploradas. A divulgada pela Veja havia sido realizada como parte de uma investigação conduzida pela Abin e pela Polícia Federal sobre um caso de corrupção. Mendes se declarou vítima de "uma completa falta de controle do aparelho de Estado" e de procedimentos dignos "de um regime totalitário".

As revelações forçaram o chefe de Estado a reagir, porque a Abin está diretamente subordinada à presidência da República. Declarando-se "indignado" e "inquieto", o presidente Lula ordenou que a polícia descubra quem deu a ordem para as escutas. O general Jorge Félix, encarregado da segurança da Presidência, inocentou a Abin, que "enquanto instituição não faz nem jamais fez coisas como essa".

Em depoimento a uma comissão do Congresso, ele admitiu que funcionários da agência teriam podido interceptar conversações e transmitir seu conteúdo à imprensa. Para o presidente Lula, o importante é demonstrar que ele nada teve a ver com essas práticas ilegais.

Caso isso seja realizado rapidamente, o potencial de incômodo da crise se atenuará. De outra forma, ela poderia afetar o desempenho de seu Partido dos Trabalhadores (PT) nas eleições municipais de outubro. Seja como for, apontou o editorialista Ricardo Noblat, todos precisam trabalhar para corrigir os erros: o Executivo controlando melhor seus serviços de segurança, o Legislativo votando leis que restrinjam as escutas, e o Judiciário restringindo o número de escutas que autoriza.

Le Monde
 
Enviar para amigos
Fechar por:
Enviar para amigos
Fechar por:

Imprimir

Fechar
Mais vistos

Notícias

  1. Carregando...
leia mais notícias »