Caixão com o corpo do bebê é carregado |
Cláudio Dias
Direto de Araraquara
São Paulo
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A mãe de Marcela, a dona-de-casa Cacilda Galante Ferreira, 37 anos, contou que a filha acordou bem, mas, ainda pela manhã, passou mal e foi levada ao hospital.
Marcela chegou a tomar leite e vomitou. Exames detectaram pneumonia em um dos pulmões e ela foi transferida à cidade vizinha de Franca. "Ela viveu o tempo dela e o tempo de Deus. Estou em paz porque sei que o meu dever foi cumprido", disse Cacilda.
Aos quatro meses da gravidez, Cacilda foi avisada pela médica de que o bebê nasceria sem cérebro. Ao invés de rejeitar a criança, ela decidiu prosseguir com a gestação.
A expectativa gerada pela medicina era de que ela viveria poucas horas, mas, ao contrário do que se esperava, o bebê não morreu. Cacilda tem outras duas filhas e, para cuidar exclusivamente da caçula, se mudou do sítio da família.
Por cinco meses, Marcela e a mãe viveram no hospital, até a saúde do bebê estabilizar e a família alugar uma casa na cidade.
A pediatra neunatologista Márcia Beani, que acompanhou o caso de Marcela, diz que a medicina não conseguiu explicar como a menina se manteve viva por quase dois anos.
"Mesmo sem ter o cérebro, a Marcela tinha um tronco cerebral (é a porção do sistema nervoso central que fica entre a medula espinhal e o espaço do cérebro) que coordenava os movimentos vitais e a respiração."
A criança respirava sozinha. Por precaução, a médica lembra que optou por deixar um concentrador de oxigênio ao lado de Marcela para ajudá-la a respirar.
"Apesar disso, ela ficava muito pouco tempo com o concentrador e quando saia de casa respirava por conta própria", diz.
Marcela não enxergava, não falava e usava um aparelho para ouvir. Era por meio da voz que ela reconhecia a mãe.
A alimentação era regulada, batida em liquidificador e passada através de uma soda. A médica conta que Marcela não andava, mas nem por isso ficava em casa.
Há dois meses, segundo a mãe, Marcela saiu do quarto e chegou a conhecer o sítio da família na zona rural.
"Foi um momento muito especial mesmo, porque ela conheceu a casa dela e nós tiramos muitas fotos. Esse é um momento que vou guardar pra sempre na minha vida", contou a mãe.
"Ela saia de casa sim e viveu uma vida que ninguém soube explicar", conta a médica. Ela destaca que não foi a ausência do cérebro que matou a criança. "A morte diagnosticada foi pela pneumonia e não foi pela falência dos órgãos."
A criança é velada no salão Santo Agostinho, em Patrocínio Paulista. O enterro acontecerá às 17 horas, no Cemitério Municipal.
Redação Terra