Nelson Alves trocou o banco de praça da cidade por uma das gavetas da sepultura |
Cláudio Dias
Direto de Araraquara
Mato Grosso
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Alves não sabe o dia exato em que teve a idéia de trocar o banco de uma praça da cidade por uma das cinco gavetas vazias da sepultura. "A minha irmã morreu há alguns meses e, desde então, passei a morar na rua. Como na praça só tinha gente usando droga e eu não sou disso resolvi vir morar no cemitério porque isso aqui me pertence", diz o pedreiro que também abandonou a profissão e aguarda a aposentadoria.
O jazigo tem oito espaços para comportar os mortos da Família Alves. No lado direito estão enterrados, de baixo para cima: sua mãe, seu pai e a irmã. "Eu durmo aqui em cima da minha irmã", brinca Alves, que tem apenas um irmão vivo e morando no asilo municipal. "Se ele morrer antes que eu, vai ficar na parte de baixo do túmulo porque esse espaço aqui (a última gaveta do lado direito da sepultura) é meu."
Admitindo problemas com a bebida, Alves afirma tomar várias doses de pinga ao dia. E a cachaça foi uma das responsáveis pelo fim do casamento há quase 30 anos. "Eu tive dois filhos que não vejo faz tempo. A menina pelo que eu sei virou advogada, mas nunca mais vi ninguém deles ou qualquer outro parente. Como não tenho ninguém fico aqui mesmo com meus pais e minha irmã mortos", diz.
O administrador do cemitério, João Fernandes Coelho Silva, lembra que Alves pertencia a uma família conhecida da cidade, mas, depois de perder os pais, os parentes mais próximos o deixaram de lado. "Era um bom trabalhador. Ele esteve na construção da Rodoviária e de outros prédios públicos da cidade", diz Silva, que conhece a vida do "inquilino". "Ele tem mais de 20 anos de carteira de trabalho assinada."
Silva afirma que procurou uma forma de retirar o pedreiro do cemitério temendo pela sua própria saúde. No entanto, o entendimento do Poder Público é de que o jazigo é particular, por isso, ele pode permanecer no espaço. "Lá é insalubre e, durante à noite, vive cheio de baratas, só que ele insiste em ficar", destaca o administrador do cemitério inaugurado em outubro de 1894.
Alves, por sua vez, não se preocupa com as baratas que percorrem a sepultura. "A Prefeitura até dedetizou aqui pra mim", diverte-se o pedreiro enquanto acende um cigarro. Dentro do tumulo, ele mantém um colchão fino, um travesseiro, dois cobertores, um tênis surrado e algumas poucas peças de roupa. "Isso aqui eu ganho do pessoal." Mas e a comida? Seu Nelson, como também é chamado, logo emenda: "Tem uma vizinha aqui do lado que me dá comida. Já até levei minha marmitinha pra ela."
O pedreiro criou um mundo particular dentro do cemitério de Jaú. À noite, quando o portão se fecha, corre até um tanque e toma banho. A roupa é lavada no mesmo local. Apesar da iluminação restrita, não teme ficar sozinho do jazigo. "Tá todo mundo morto, não tem problema não. Quando está calor eu até coloco o colchão aqui fora", exemplifica o morador do jazigo, apontando para o corredor entre os túmulos.
Visitando o cemitério, o desempregado José Carlos Oliveira, 51 anos, lembra que o pedreiro virou quase uma "atração turística" da cidade. "Tem gente que vem aqui só pra conhecer o cara que mora dentro do túmulo", brinca. Alves, inclusive, não fica intimidado em contar sobre sua vida e sentencia: "Já trabalhei muito na minha vida e não deu em nada. Agora, vou ficar aqui dormindo no túmulo, esperando a minha hora e tomando minha pinguinha."
Redação Terra