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Traficantes promovem raves para atrair jovens

08 de abril de 2008 02h24

O olho-gordo nos lucros das drogas sintéticas levou os traficantes das favelas do Rio de Janeiro a entrar no mercado das raves. Deixaram de assistir ao sucesso dos playboys da zona sul com a promoção das baladas e a venda de "balas" (ecstasy) e misturam música eletrônica com funk para atrair mais jovens para as suas festas. A conseqüência do empreendimento está no caixa das bocas-de-fumo: acresceram mais alguns milhares de reais com a venda de GHB, LSD e, principalmente, o ecstasy, drogas que até um ano atrás raramente subiam os morros do Rio.

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O maior sucesso do novo foco nos negócios é o tráfico do Morro da Mangueira, na zona norte. Todas as semanas são realizados dois bailes no complexo. O principal é às sextas-feiras, no Buraco Quente, a porta de entrada da comunidade e o principal ponto do comércio de drogas na região. Aos sábados, as noitadas acontecem na rua da Praça, no vizinho morro dos Telégrafos. Ao contrário das raves tradicionais, nas favelas não há cobrança de ingressos para entrar nas festas. O lucro está garantido com a venda das drogas.

O mix rave-funk funciona tão integrado no Morro da Mangueira que DJs, ao final da música trance, sempre tocam o rap do ecstasy, do MCs Tourinho e Digão, que faz apologia às drogas e exalta um dos chefes do tráfico da favela, Leandro Monteiro Reis, o Pitbull. Outra prova da relação estreita está na investigação da 16ª DP (Barra da Tijuca) que levou para a cadeia seis dos principais traficantes de ecstasy da Barra e do Recreio. Dois dos rapazes da zona sul aparecem como freqüentadores da comunidade.

O tráfico da Mangueira não é o único a lucrar com as raves. Duas outras comunidades têm grande movimento de jovens à procura das festas trance: Nova Holanda, no complexo da Maré, e morro do Fogueteiro, no Catumbi. O primeiro dispõe inclusive de uma página no site de relacionamentos Orkut, para promover suas baladas junto à garotada da zona sul. É justamente nos sites que os traficantes da classe média vendem o ecstasy e divulgam as suas festas.

A razão para o aumento da procura pelas raves nas favelas, segundo policiais que investigam a venda de drogas sintéticas no Rio, seria a pressão que a polícia faz desde o ano passado aos traficantes do asfalto, levando para a cadeia os principais líderes das quadrilhas que negociavam ecstasy. "É muito mais seguro para ele, usuário, consumir nestas raves do que correr riscos de ser pego numa blitz ao comprar com um amigo do asfalto", analisa o delegado Vitor César Santos, titular da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) da Polícia Federal. O policial também vê no empreendimento uma estratégia dos traficantes, que atuam como comerciantes e enxergam no ecstasy a droga do futuro.

Abarrotado de drogas
O comércio de ecstasy nas favelas cariocas já abastece o mercado de festas eletrônicas em São Paulo. É o que revelam escutas telefônicas interceptadas pela polícia, com autorização da Justiça. Numa conversa gravada, um produtor de modelos e atores, que se identifica como Paulão, liga para Francisco Paulo Testas Monteiro, o Tuchinha, então chefe do Morro da Mangueira, e pede "balinhas" para vender na capital paulista.

"As investigações mostram que o comércio de ecstasy já está presente na favela e aumentando. Não é mais algo restrito ao asfalto, à turma de jovens endinheirados. Para o traficante é um negócio como qualquer outro de entorpecente. Se tem público, e ele é jovem principalmente, os bandidos estão lá oferecendo a droga", diz o chefe do setor de investigações da 17ª DP (São Cristóvão), Marco Antonio Carvalho.

Durante a conversa, o traficante fala que o preço da droga deve ser combinado pessoalmente e que a entrega é rápida: à noite mesmo, próximo à quadra da escola. E até traficantes se viciam: Vinícius da Lima Pereira, o Chevette, braço-direito do atual chefe da Mangueira, Leandro Monteiro Reis, o Pitbull, é conhecido na favela por fazer uso diário de "balas".

Rival denunciou festa à PM
A investida dos "donos" das favelas aos freqüentadores de raves do asfalto já provocou uma crise com os "vendedores" de classe média. Uma delas envolve o traficante Carlos Domingos Moreira Passo Júnior, o Carlão. No ano passado, ao descobrir que a sua noitada tinha um concorrente no Morro do Fogueteiro, no Catumbi, não perdeu tempo: ligou para o 190 da Polícia Militar e denunciou a festa, alegando inclusive que ela contaria com a presença do homem que comanda o tráfico de drogas na favela.

Carlão descobriu a concorrência através de duas meninas que eram suas "clientes" cativas em raves, no Recreio. Ao convidá-las, ouviu que seria difícil pela coincidência de datas: no mesmo dia, um DJ estava produzindo um encontro de música eletrônica no Fogueteiro.

Como suas conversas telefônicas eram monitoradas pela Polícia Civil, sua estratégia foi flagrada. Ao falar com a PM, ele foi taxativo: "É a respeito de uma rave que tá rolando, que tá sendo feita por um cara lá do Morro do Fogueteiro... Isso, com a participação dos caras, do dono do Fogueteiro, que vai na festa". Apesar da denúncia, a rave aconteceu. Outra comunidade em que a festa trance é investigada é do Complexo de São Carlos, no Estácio. Os traficantes também são apontados como promotores dos encontros.

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