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Em cidade mais violenta, morte pode sair por R$ 100

10 de fevereiro de 2008 12h39 atualizado às 13h28

Segundo o Mapa da Violência, Coronel Sapucaia tem 107 homicídios por 100 mil habitantes. Foto: Graciliano Rocha/Especial para Terra

Segundo o Mapa da Violência, Coronel Sapucaia tem 107 homicídios por 100 mil habitantes
Foto: Graciliano Rocha/Especial para Terra

Com o "título" de município mais violento do Brasil, a cidade de Coronel Sapucaia fica em um ponto obscuro do sul de Mato Grosso do Sul, numa região dominada pelo tráfico de drogas e pelo contrabando, na fronteira com o Paraguai. Segundo o Mapa da Violência, divulgado em janeiro, a cidade registra uma taxa de 107 homicídios para cada 100 mil habitantes. Em 2006, foram 13 homicídios - um para cada mil habitantes. A reportagem do Terra percorreu a fronteira com o Paraguai e encontrou uma região onde uma morte pode ser encomendada por R$ 100, e 90% dos inquéritos de assassinato são concluídos sem que o autor seja identificado. Em metade dos crimes, a vítima sequer é identificada.

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Quem anda à noite pela fronteira mais perigosa do Brasil pode se sentir num faroeste. Em Capitán Bado, Paraguai, pouca gente circula pela rua. Tirando o posto de combustível, nada fica aberto depois das 21h. Neste horário, seguranças privados reinam pelas ruas carregando livremente armas de grande porte, como escopetas calibre 12, fuzis leves e pistolas automáticas 9 mm.

"Há muitos pistoleiros por aqui, a maioria já trabalha para a máfia, mas eles sempre pegam um serviço por fora", disse um suboficial da Polícia Nacional do Paraguai, que pediu para ter o nome preservado porque não tem autorização da corporação para dar entrevista. Segundo ele, com R$ 1 mil qualquer um pode contratar um assassino de aluguel.

O delegado da Polícia Civil de Coronel Sapucaia, Marcius Geraldo Santos Cordeiro, desconfia da 'tabela' citada pelo colega paraguaio. "Mil reais só se a vítima tiver muito relevo, aqui um pistoleiro mata por R$ 100, eu mesmo tenho inquéritos na minha delegacia, onde um pistoleiro recebeu R$ 140 para matar".

Coronel Sapucaia cola-se num canteiro central com a cidade paraguaia de Capitán Bado, que tem 8 mil habitantes. A divisão política é apenas uma linha imaginária assinalada por marcos de concreto, não existe controle sobre a passagem de pessoas e mercadorias e, com a ausência do Estado, Sapucaia e Bado se tornaram um remanso para criminosos dos dois países. A Polícia Federal e a Senad (órgão anti-drogas do Paraguai) apontam a região como a provedora de 80% da maconha consumida no Brasil e nos países do Cone-Sul e como um dos mais importantes entrepostos da cocaína produzida nos Andes e enviada para grandes cidades brasileiras e para mercados consumidores da Europa e do Oriente Médio.

Uma visita à delegacia da cidade é o suficiente para compreender porque os crimes não são solucionados. Há apenas um delegado e três agentes. Não há escrivão e o perito mais próximo está a 130 km de distância.

"Eles matam mesmo é do lado de lá. Em 60% dos casos, as mortes acontecem no Paraguai e os corpos só são 'desovados' aqui, muitas vezes não conseguimos nem identificar a vítima porque é comum, em disputas do tráfico, que as vítimas tenham olhos arrancados, muitas vezes, as mãos são decepadas e os corpos são mutilados. São crimes cometidos com requintes extremos de crueldade", afirma o delegado Marcius Geraldo Santos Cordeiro, 45 anos, que chegou à cidade em agosto do ano passado. Cordeiro, aliás, não permanece na cidade em tempo integral. Também comanda uma delegacia na vizinha Amambai, a 40 km.

Crime
Em Coronel Sapucaia, um dos crimes que viraram exceção na estatística dos sem solução foi o assassinato do radialista Samuel Román, em 20 de abril de 2004. O jornalista comandava um programa popular numa rádio de Capitán Bado, onde distribuía cestas básicas a ouvintes e criticava o então prefeito de Coronel Sapucaia, Eurico Mariano.

Román estacionava seu Santana na avenida Internacional, que divide as duas cidades, quando quatro homens em duas motocicletas se aproximaram. Abriram fogo com pistolas automáticas 9 mm, crivando o corpo do radialista com 18 balas. Mariano é réu do processo e sua defesa nega que ele tenha mandado matar o adversário.

"Naquela semana ele (Román) denunciou que o prefeito desviou R$ 100 mil da folha de pagamento dos funcionários da prefeitura", relembra a diretora da Rádio Conquista, Sílvia Gimenez Portillo, 42 anos. "Naquele dia ele foi ao banco em Amambai, voltou pra cá só para morrer. Agora está nas mãos da justiça".

Chacinas e drogas
A riqueza secreta da fronteira floresce escondida em matagais, que só são visíveis em vôos de helicóptero, ou chega de avião em pistas clandestinas. A economia da região é movida pela maconha e pela cocaína, de acordo com o juiz federal Odilon de Oliveira. O juiz é o responsável pela condenação de muitos traficantes considerados "peixes graúdos" da fronteira. A maioria deles continua solta.

"Essa região se tornou muito importante para o tráfico internacional, porque agrega duas etapas diferentes do processo - tanto a produção da maconha quanto um entreposto para a cocaína", afirma o capitão Oscar Chamorro, um dos coordenadores das operações da Senad. Desde a semana passada, Chamorro lidera uma operação para erradicação de plantações ilegais de maconha na região.

A Senad paraguaia, que atua com uma forte colaboração da inteligência da PF brasileira e do DEA (a agência anti-drogas dos EUA), afirma que a fronteira é a base de operações de muitos barões do tráfico monopolizando o negócio das drogas.

A maior chacina da região foi registrada em janeiro de 2002 e, de acordo com a Polícia Nacional do Paraguai, foi fruto de uma guerra entre as quadrilhas de Carlos Cabral Árias, o Líder Cabral, e de traficantes ligados a Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar. Vinte homens armados invadiram a fortaleza de Líder Cabral que fica bem na fronteira das duas cidades. Armados de fuzis e metralhadoras, abriram fogo contra tudo que se movia. Dez pessoas foram mortas em menos de 15 minutos, entre elas três pedreiros e Leonardo, o filho de três anos de Cabral, morto a caminho do hospital em decorrência de um tiro de M-16 na cabeça. Líder Cabral escapou pulando o muro e iniciou sua vingança. Nas três semanas seguintes à matança, 22 pessoas foram executadas na região de Capitán Bado, segundo os registros da Polícia Nacional do Paraguai.

Seis anos depois da maior chacina da região, a fortaleza de Líder Cabral é uma casa fechada bem na divisa entre Brasil e Paraguai. Seus muros ainda guardam as marcas do tiroteio como um alerta para a existência dos mortos que não fazem parte da estatística.

Redação Terra