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 Brasil investigou oposição paraguaia na Argentina
30 de dezembro de 2007 10h47 atualizado às 14h50

A ditadura brasileira cooperou com o Paraguai fornecendo informações de inteligência sobre movimento de opositores no exterior durante a Operação Condor. O pedido de busca nº 14/75 mostra que os arapongas brasileiros espionavam militantes paraguaios dentro do território argentino. O documento foi encaminhado pela Embaixada do Brasil em Assunção ao Estado Maior das Forças Armadas do Paraguai.

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Dele faz parte um relatório sobre uma reunião da organização clandestina paraguaia Movimento da Defesa da Pátria, o Modepa, realizada em 16 de agosto de 1975, na cidade de Resistência, Argentina. De acordo com a inteligência brasileira, a reunião serviu para planejar a instalação de quatro bases de militantes oposicionistas na capital Assunção e nas cidades paraguaias de Guayaki, Encarnación (fronteira com a Argentina) e em Pedro Juan Caballero, que faz fronteira seca com a cidade brasileira de Ponta Porã (MS).

Na semana passada, o Tribunal Penal de Roma expediu pedido de prisão de 146 pessoas que teriam participado do comando dos regimes militares da América do Sul entre as décadas de 70 e 80 e que teriam integrado a Operação Condor. Entre eles, estão pedidos contra o general João Figueiredo, o irmão dele, general Euclydes Figueiredo, o ex-ministro do Exército de Figueiredo, Walter Pires de Carvalho e Albuquerque, o ex-chefe do SNI (Serviço Nacional de Informações), general Otávio Aguiar Medeiros, o ex-comandante do 3º Exército, general Antônio Bandeira, e o ex-superintendente da PF no Rio Grande do Sul, coronel Luíz Macksen de Castro Rodrigues. Todos mortos.

Segundo o relatório da reunião de 1975, 30 militantes paraguaios voltariam ao país pelas fronteiras e trabalhariam em empresas de fachada das supostas bases.

Os quatro dirigentes da oposição paraguaia que participaram do encontro em Resistência foram identificados pela inteligência brasileira como sendo: Júlio Vargas, do Modepa e "membro comitê central do Partido Comunista setor chinês"; Ignácio Benigno Fernandez, a quem os brasileiros também atribuíram ligações com uma corrente maoísta do Partido Comunista Paraguaio; Libório Ramón Alderete, da Frente Patriótica de Libertação Nacional (Frepalina); e o médico Agustín Goiburu, do Movimento Popular Colorado (Mopoco). O Mopoco era uma dissidência do Partido Colorado, que está no poder no Paraguai desde o golpe militar de 54 que alçou Stroessner à Presidência.

Asilado na Argentina, Goiburu foi um dos alvos prioritários da ditadura paraguaia em meados dos anos 70. O informe 031/76 da Polícia Federal em Foz do Iguaçu, de 15 de dezembro de 1976, refere-se à autorização de agentes da Assessoria Especial de Segurança e Informação (Aesi) de Itaipu, para segui-lo durante as visitas que o médico costumava fazer a amigos do lado brasileiro da Tríplice Fronteira.

Goiburu foi seqüestrado no dia 9 de fevereiro de 1977 em Posadas, cidade argentina em que vivia, e levado clandestinamente ao prédio do Departamento de Investigações da Polícia de Assunção - local onde funcionava um centro de tortura e de interrogatórios clandestinos. Nunca mais foi visto nem seu corpo encontrado.

O relatório sobre a reunião de Resistência afirma ainda que três dirigentes do Modepa no exílio - o general Carlos Montanaro, Rodolfo Gil Duarte e Elpídio Yegros - seriam amigos pessoais do presidente Carlos Andrés Pérez, que governou a Venezuela duas vezes. Nos seu primeiro mandato, entre 1974 e 79, Pérez liderou um programa de nacionalização das indústrias petrolífera e siderúrgica.

Perseguição a brasileiros

A pedido do Brasil, militantes brasileiros foram caçados pelas polícias da Argentina e do Paraguai. No dia 29 de dezembro de 1976, o Estado Maior das Forças Armadas do Paraguai emitiu a ordem de captura número 62/76 contra a brasileira Maria Lúcia Alves Ferreira, a Malu. O documento informa a origem do pedido - "serviço de inteligência de país amigo" (Brasil) - e afirma que a "subversiva", então exilada no Peru, pretendia retornar ao Brasil através da cidade fronteiriça de Foz do Iguaçu (PR) "no final de 1976 ou início de 77" usando um passaporte falso.

A ordem assinada pelo chefe do Estado Maior, general Alejandro Fretes Dávalos, e pelo coronel Benito Guanes Serrano foi dirigida ao então diretor do Departamento de Investigações da Polícia Nacional, Pastor Coronel, que deveria "não permitir que a mesma ingresse em território brasileiro".

O pedido de busca de Malu já chegou a ser considerado uma das primeiras evidências concretas do envolvimento do Brasil com a Operação Condor e foi trazido a público pelo pesquisador Patrice McSherry, da Universidade de Long Island (EUA), em 2000, mas muitos outros documentos que compõem o Arquivo do Terror revelam que a "tabelinha" entre as ditaduras brasileiras e dos países vizinhos já era um expediente comum desde 1974, antes mesmo da reunião em Santiago do Chile que teria definido o esquema secreto de cooperação entre os aparatos repressivos conhecido como Operação Condor.

Um deles é um documento de identidade de um cidadão uruguaio encontrado numa casa que sofrera uma batida da Polícia Federal em Foz do Iguaçu em novembro de 74. O governo brasileiro suspeitou que o local fosse um esconderijo de guerrilheiros da organização clandestina uruguaia Tupamaros. O adido militar da embaixada do Brasil em Montevidéu enviou um relatório sobre a possível presença dos Tupamaros em Foz. O informe recebeu o número 965/B/74 num documento do II Departamento do Exército Nacional, que centralizava investigações políticas no Uruguai, e o código A-1 (altíssima prioridade). Uma cópia do relatório 965/B/74, com o carimbo de secreto, foi encaminhado pelos militares uruguaios às autoridades do Paraguai.

Em 1975, os paraguaios receberam um pedido para prender a antropóloga brasileira Noemi Dias Martins, então com 25 anos. Ela era acusada de fazer "propaganda subversiva" na cidade argentina de Santo Tomé. Na época ela trabalhava em comunidades indígenas no Paraguai juntamente com o padre Bartolomeu Melliat, um célebre antropólogo espanhol. O alerta sobre as atividades da brasileira foi dado num documento, identificado no Arquivo do Terror pelo código 00030F2464, assinado pelo chefe de polícia da cidade argentina de Posadas, na fronteira com o Paraguai, Antonio Esquivel.

A participação dos órgãos de segurança da ditadura brasileira na Operação Condor aparece em documentos que fazem parte do chamado Arquivo do Terror, como ficou conhecido o conjunto de mais de 320 mil documentos referentes aos 35 anos do regime do general Alfredo Stroessner no Paraguai (1954-89).

A Operação Condor foi um esforço de integração dos serviços de inteligência e de repressão das ditaduras sul-americanas para perseguir militantes da esquerda e da oposição liberal entre meados da década de 70 e 80.

Redação Terra