Ecstasy: classe média adere ao consumo e ao tráfico

04 de novembro de 2007 • 01h45 • atualizado às 01h45

Gustavo de Almeida e Ricardo Mota

Rio de Janeiro


João (nome fictício), 25 anos, tem a vida que muitos jovens do Rio gostariam de ter. Morador da Zzna sul, estudou em bons colégios, formou-se em Publicidade e fez pós-graduação na UFRJ. O relacionamento com os pais sempre foi aberto, o melhor possível, como ele mesmo gosta de dizer. Na primeira vez em que fumou maconha, contou em casa. E ouviu dos pais que o melhor para sua vida era largar a droga e se dedicar aos estudos, tudo sem repressão, na base da conversa.

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A palavra vício não faz parte de seu dicionário. Durante a semana. acorda cedo e vai para o trabalho. Uma vez por semana joga futebol com os amigos. "Não tenho aquela paranóia: preciso da bala (ecstasy) senão eu não vivo. Não tem isso. Tenho minha vida. Trabalho, vou ao cinema, ao Maracanã, saio para jantar com meus pais. Mas gosto de rave e, quando vou, tomo uma bala".

A história de João pode, infelizmente, estar longe do fim. Um exemplo de final infeliz é o do adolescente Lucas Amendola Maiorano, morto durante a rave em Itaboraí na madrugada de domingo passado. O DIA publicou reportagem exclusiva com a cobertura do evento e revelou cenas tristes da festa.

Alertas como o de Itaboraí, se não servem para João, pelo menos já são ouvidos por Fábio (nome fictício), que também teve um início feliz no ecstasy. Por pouco tempo. Na extinta Bolsa de Valores do Rio, Fabinho, de 22 anos, estudante de Economia, se destacava como operador e em breve teria sua própria corretora.

Ajuda dos pais, engenheiro e administradora de empresas, não faltaria. Cursando o terceiro período de Economia em uma faculdade particular de prestígio, por causa da "balinha" perdeu o emprego e não conseguiu se formar, já que a semana dele só tinha dois dias: quinta e sexta, nas festas. De segunda a quarta, inventava desculpas para ficar em casa, esgotado.

A história de fim triste foi contada pela psiquiatra Maria Theresa Aquino, coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção ao Uso de Drogas (Nepad), trabalho desenvolvido na Universidade do Estado do Rio (Uerj). Maria Theresa não esconde seu espanto: se até 2001 os casos de dependentes de ecstasy atendidos por seu consultório não passavam de um por ano, hoje a média é diferente e assustadora: "Desde 2001, atendo de 20 a 30 jovens por ano com problemas devidos ao ecstasy". A grande e esmagadora maioria, da classe média alta. Jovens bem resolvidos que poderiam sonhar com um êxtase bem diferente do que a falsa felicidade da "balinha".

Integrante do Conselho Municipal Antidrogas (Comad), o delegado de Polícia Federal Antônio Rayol já detectou, em seus estudos pelo conselho, uma tendência ainda mais perigosa. "O ecstasy consegue atingir uma parcela de jovens que ainda eram resistentes à maconha e à cocaína. Os usuários e traficantes de ecstasy simplesmente não se acham usuários e traficantes de drogas", diz Rayol, que chefiou por três anos a Delegacia de Repressão a Entorpecentes da Polícia Federal. Para o delegado, um dos fatores que ajudaram o ecstasy a se espalhar é a "cultura do comprimido". "Propagandas de medicamentos deveriam ser restritas. Hoje se toma um comprimido para tudo, as crianças vêem os pais fazendo isso. Então quando o ecstasy é oferecido, o jovem aceita melhor."

Em seminário realizado pelo Comad na quarta-feira, conselheiros e especialistas reconheceram que as farmácias de manipulação, hoje, têm condições técnicas de fabricar ecstasy. "Não queremos falar mal em vão, nem achamos que profissionais sejam levianos. Mas hoje em dia qualquer iniciante produz o ecstasy."

A presidente da Comissão de Prevenção ao Uso de Drogas da Câmara Municipal, vereadora Sílvia Pontes (Democratas), elabora projeto que controla a presença das substâncias que compõem o ecstasy nas farmácias de manipulação. "Um projeto que obrigue as farmácias a comunicarem ao poder público a presença dos componentes", explica. Além desse projeto de controle das farmácias, Sílvia quer discutir com os donos das boates a questão da responsabilização pelo tráfico que acontece nos estabelecimentos. "Não cabe ao dono de boate combater o tráfico frontalmente. Ele não tem poder e nem capacidade de polícia. No entanto, temos de pensar em projetos que obriguem o proprietário a conviver mas sem ser conivente, a no mínimo tentar denunciar, ajudar a polícia a investigar", afirma a vereadora.

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