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 MV-Brasil protesta contra Halloween no Rio
28 de outubro de 2007 08h53 atualizado às 09h36

O MV-Brasil, movimento de valorização da cultura, realiza nas ruas do Rio de Janeiro um protesto contra o Halloween (Dia das Bruxas), festa pagã com origem nos Estados Unidos, comemorada no dia 31 de outubro.

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O protesto, que é realizado pelo movimento desde 2003, conta com 400 cartazes espalhados por 80 bairros do Rio, Niterói e São Gonçalo desde o dia 19.

Os cartazes estampam em letras garrafais o dizer "Halloween é satanismo, Brasil País cristão!", que chega para substituir o já conhecido "Halloween é o cacete. Viva a cultura nacional".

O trabalho foi feito pelos voluntários do grupo a despeito da Lei Municipal de Limpeza Urbana, que proíbe colagem de cartazes em vias públicas. Os fins justificam os meios, na opinião de Wagner Vasconcelos, carioca de 42 anos, prestes a se formar bacharel em Direito pela UFRJ, um dos fundadores do movimento. "Na minha escala de valores, a soberania da cultura brasileira vem antes da estética das ruas".

De onde vem o dinheiro
A decisão de incluir satanismo no novo slogan foi tomada há três meses. Uma decisão coletiva movida pelo fato de religião ajudar a chamar mais a atenção para a causa. Festejar o halloween no Brasil, para o pessoal do movimento, seria muito mais do que uma reles imitação de costumes.

"É uma ferramenta usada por uma conspiração de famílias como os Bush e a Família Real Britânica para dominar o mundo, anulando nacionalidades", acredita Wagner. Note-se, no entanto, que a afirmação de que o Brasil é um País cristão é refutada pela Constituição, que diz que o Brasil é um país laico, sem religião oficial.

O custo para imprimir os cartazes foi de R$ 5 mil. Parte dessa quantia veio da venda de camisetas com mensagens antiamericanas a R$ 14, na barraca que o MV-Brasil monta na Cinelândia, todos os dias de semana, de 10h às 18h. Mas a montante maior é fruto das contribuições mensais não-obrigatórias dos integrantes. A de Wagner é de R$ 50. Morador de São Gonçalo, o carioca com nome alemão é solteiro e não tem filhos.

Wagner está sempre de uniforme - colete e calça marrons, t-shirt e boné pretos. "A repetição da roupa é uma técnica de propaganda para fixar a imagem", justifica. A consciência política vem desde os 14 anos. Tal qual um Policarpo Quaresma do século XXI - título que rejeita por achar que Lima Barreto ridicularizou o patriota e ainda o matou ao fim do romance - Wagner diz que o comprometimento com a nação é para o resto da vida: "Não consigo pensar em outra coisa".

Mãos sujas de cola
Um Gurgel cinza, modelo Carajás 86, vidros fumée, com "veículo nacional" escrito na lateral, fica estacionado ao lado da tenda. Este é um dos dois carros de que o movimento dispõe para transportar voluntários em busca da parede perfeita para pregar as palavras de ordem. Caius Julius, 58 anos, bancário aposentado, recusa-se a dar o sobrenome à reportagem. "Põe Caius do MV-Brasil", pede ele, que entrou para o movimento há sete anos, assim como Ubirajara, 70 anos, vendedor aposentado e Almir, 47 anos, vendedor autônomo. Guilherme, 34 anos, professor de educação física de escola pública, alistou-se como voluntário em 2002. São eles que sujam as mãos de cola e saem na calada da noite para colar cartazes.

Tudo é feito debaixo das barbas da polícia. Caius e Almir contam um episódio ocorrido em 2004 em que os dois colavam uma faixa em um dos pilares da Ponte Rio-Niterói, quando um PM chamou a atenção deles. "Elogiaram nosso trabalho e nos encorajaram a continuar", lembra Almir.

Os policiais deram a eles números de telefone celular para ligar caso algum colega da polícia os importunasse. Quem passa de carro e os vê equilibrados em escadas de madeira buzina e grita palavras de apoio, garante Caius, que faz questão de frisar que leva três horas para fazer compras no supermercado. "Leio todos os rótulos para me certificar de que só compro produtos nacionais". Só lamenta ter de andar em ônibus da alemã Mercedes Benz.

A secretária Rafaela Serra, 20 anos, usou o horário de almoço para participar do marco zero da campanha contra o halloween. Maquiagem completa e unhas pintadas com esmalte rosa purpurinado, ela era uma das poucas jovens do MV-Brasil, composto em sua maioria por aposentados. "Faço parte há um ano. Desde então, não comi mais no Mc Donald's e boicotei a Nestlé". Mas o celular da empresa alemã Siemens é prova de que "há coisas impossíveis de se deixar de usar".

Juventude empresta sua força
Mais jovem ainda no movimento é Morgana Raissa de Oliveira, 8 anos, filha de Aline Dias, 33 anos, brasileira radicada na Dinamarca, que conheceu o MV-Brasil há dois anos. Seu papel é defender o Brasil lá fora. Para isso, decora o bar de que é dona em Copenhagen com faixas do grupo, só põe música brasileira para tocar e serve caipirinha feita com Caninha 51. "Nunca usaria vodca! Caipivodca é uma palhaçada".

O motivo que levou Aline a sair de Duque de Caxias e imigrar em 2004 deixando para trás os três filhos foi desilusão com o resultado das eleições municipais que elegeram Cesar Maia no primeiro turno. Ela só está esperando o ano letivo terminar para levar Morgana para a Dinamarca.

Há quem ache o ultranacionalismo do MV-Brasil digno da extrema direita. Ou da extrema esquerda. Ou de facistas, ou mesmo de nazistas. Caius esclarece: "Não somos nem um nem outro. Somos do Brasil. Não importa a inclinação política, queremos defender a cultura brasileira".

Jornal do Brasil
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