O filme Tropa de Elite é alvo de discussões em locais dos mais variados e está na boca do povo, da classe média e da elite carioca e brasileira. Mas antes de chegar em bares, salas de espera e elevadores, o debate foi iniciado nas salas de aula. Jovens que se preparam em cursinhos para ingressar no Batalhão de Operações Especiais da Polícia (Bope) contaram em entrevista ao O Dia Online que viram o filme pirata, leram o livro que inspirou o roteiro de José Padilha e ficaram ainda mais convictos da vontade de ingressar no Bope depois de assistirem ao filme nos cinemas.
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O jovem Marcio Bachur, 17 anos, perdeu o pai quando tinha apenas oito. Seu pai era oficial do Batalhão de Choque da Polícia Militar, e morreu em operação em favelas do Rio. Segundo o estudante, a perda do pai foi um dos motivos para que ele decidisse seguir a vida militar. E o filme reforçou esse desejo. "O filme incentivou mais. O problema é que você quer mudar a Polícia e não consegue", reclama, em uma atitude similar ao do personagem Neto (vivido pelo ator Caio Junqueira), do filme.
Daniel Muniz, 19 anos, é outro "aspirante" a ingressar na "Tropa". O estudante chegou a cursar pedagogia na Uerj, mas desistiu, diferente de Mathias no filme, que levou a faculdade de Direito até o fim. Ele e Márcio já foram bem na primeira etapa da prova, tirando conceito A no exame de qualificação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. O concurso da Polícia Militar na Uerj é o primeiro passo para ingressar no Bope. Mas os jovens não recebem muito apoio.
"Minha mãe, meu pai e minha irmã dizem que me abandonam, minha namorada acha um absurdo", conta. Com Marcio a história é diferente. "Apoiar ninguém apoia, minha mãe diz que não é isso que ela quer para mim, mas respeita minha decisão".
Embasados e a favor da "tática do Bope"
Os dois leram a obra escrita pelo sociólogo Luis Eduardo Soares, pelo ex-capitão do Bope Rodrigo Pimentel e por André Batista, e acreditam que Tropa de Elite é bem diferente de Elite da Tropa. "O livro conta mais a realidade. Pra mim a operação não é tão tranqüila quanto mostra o filme. O filme romantiza, tem bem menos dificuldade", opina Márcio, que conviveu com o pai na mesma rotina.
Apesar das críticas dos próprios oficiais de que a obra exagera nas cenas de violência, Daniel disse que não vai perder a estréia no cinema. "O exagero é para causar mais impacto no expectador. Na atual conjuntura o Bope é eficaz para combater o tráfico". Márcio concorda, e diz que as pessoas não entendem a necessidade da tática utilizada pela tropa, segundo ele tão fria quanto a dos traficantes, como mostra o filme.
"A tortura no filme foi até tranqüila. Não que resolva, mas como você vai arrancar uma informação do traficante? Fazendo carinho nele ele não vai falar". Daniel discorda, diz que a cena em que alunos são queimados em pneus foi a que mais o marcou, pela frieza por parte dos bandidos. "Isso prova que a repressão também deve ser fria", completa.
Já Márcio disse que o que mais o chocou no filme não foram as torturas, mas sim o sistema. "A corrupção dos policiais e dos políticos. E a burguesia alimenta, financia o tráfico".
Para quem pensa que a opinião dos estudantes é puro palpite, espere até se deparar com o perfil deles no Orkut. Márcio exalta em sua página a preferência de leitura, é claro, o livro "Elite da Tropa". Em seu álbum, ostenta uma caveira característica do Bope. Entre suas comunidades estão a de filhos de policiais, com mais de 300 membros, a de Questões Militares no Brasil, com descrição de estratégias, que conta com mais de 5 mil membros. Além de outras sobre armas, contra as drogas, e do CATI, Central de Treinamento de Policiais. "Procuro me integrar, estudar para poder criticar. A população critica a polícia sem base nenhuma", defende.
O lado bom e invisível
Tropa de Elite mostra um Bope que o próprio texto do filme denomina "incorruptível". Mas a polícia não é só flores. Pelo contrário. Nos últimos dias 58 policiais militares foram presos acusados de envolvimento com o tráfico de drogas e de praticar crimes de extorsão na Favela Santa Lúcia, em Imbariê, Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.
No entanto, Marcio acredita que a sociedade enxerga a polícia apenas por essa banda podre. "Uma maçã podre acaba estragando as outras. A sociedade olha para o policial e já vê o corrupto. Quando a polícia chega para abordar já acham que está errado, que é abuso".
Mas isso não inibe sua vontade nem o amedronta. "Não tenho medo porque senão não faria a prova, ainda mais para entrar no Bope. Daniel acha o mesmo. "A maioria dos oficiais da PM não querem o Bope. Ninguém quer tomar remédio de tarja preta, ter problema com a mulher", explica, lembrando das cenas vividas pelo Capitão Nascimento, interpretado por Wagner Moura, no filme.
Perguntados se o Capitão Nascimento é um super-herói para a juventude, os dois "aspiras" brincam. "O meu é o Superman, diz Marcio. Daniel entra na onda: "O meu é o Batman".
Marcio acha que não vale ser herói, mas tentar mudar alguma coisa. "Por mim vale, assim como muitos tenho o sentimento de tentar mudar isso, mostrar o trabalho digno e correto de alguns policiais. Cabe a sociedade observar e saber dividir".

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