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A verdadeira pegadinha

. Foto: Diego Medina/Ilustração/Terra


Foto: Diego Medina/Ilustração/Terra

Sempre que o assunto é televisão, tento me afastar da armadilha da fácil eloqüência. Alguns reclamam de quem diz que o tema "é complexo", como se apontar sua complexidade fosse confissão de incompetência. Lamento, mas realmente é complexo. Diz respeito a muito dinheiro e, com ele, muito poder.

A televisão diz respeito ao que as pessoas fazem com o tempo livre, ao modo como recebem informação - e à informação que lhes dizem ser importante -, aos modelos de comportamento e aos parâmetros do que se deva achar bom, belo e desejável. Movimenta a economia, ilumina ou ofusca etnias, religiões e culturas, legitima uma determinada visão sobre a responsabilidade do Estado, dos políticos, da Justiça, das leis.

É realmente muito difícil falar criticamente sobre TV sem ser tachado de moralista, ranzinza, arrogante, elitista, intolerante e alarmista. A TV aberta no Brasil é, como todos sabem ou deveriam saber, concessão pública. O que significa que deve ser fiscalizada. Só questiona essa fiscalização quem não compreende a diferença entre o que é público e o que é privado ou quem tem interesse em não ser regulado.

Fiscalizar não é sinônimo de censurar. Fiscalizar faz parte de um exercício raro para uma imensa camada da sociedade brasileira: o da cidadania. Televisão não é um meio inofensivo e não deveria ser tratado como se dependesse apenas do livre-arbítrio do indivíduo. Dizer que os insatisfeitos podem mudar de canal é tratar com desprezo e irresponsabilidade o que é público. Não se trata de ter ou não ter uma opção melhor, e sim do que se veicula, e em que horários, em todos os canais.

A Comissão dos Direitos Humanos da Câmara dos Deputados já apontou o que pode ser classificado como "baixaria na TV". O site www.eticanatv.org.br traz o ranking atualizado da campanha "Quem financia a baixaria é contra a cidadania", além de denúncias, pareceres e bons artigos sobre o tema.

A carta de princípios da Comissão condena, por exemplo, o estímulo a "práticas de espancamento, tortura, linchamento ou atos violentos de qualquer natureza", pregando que a TV "se contraponha às práticas de violência e discriminação contra a mulher" e não incite "à violência contra quem quer que seja". Não é o que se vê em horário nobre: o novelista Manoel Carlos, incensado pela mídia como autor sensível aos sentimentos e dramas da mulher contemporânea, escreveu uma das cenas mais violentas da televisão brasileira, a do espancamento de uma personagem por ninguém menos que seu pai ¿ uma surra regada a humilhação e aplaudida pela moral conservadora.

Telespectador ativo

Para além das mentiras de domingo à tarde e das armações de programas que tratam de brigas de namorados e exames de paternidade, já tão debatidas, gostaria de ressaltar o que há de mais desprezível e leviano na programação da TV aberta: as "pegadinhas". Deixemos aos psicólogos e psicanalistas a tarefa de explicar o que move o espectador a assistir à humilhação alheia e rir dela.

Arrisco apenas uma digressão, na contramão dos que atribuem ao telespectador (por meio de sua capacidade de conceder ou não audiência) o poder de ditar o que se veicula na TV - raciocínio que leva a algo genérico como "este é o gosto popular" e simplista como "a TV mostra o que as pessoas querem ver". Raciocínio, aliás, valioso para quem não quer se envolver com um debate pesado, arriscado, extenso e complexo.

Pelo menos desde os anos 60 sabemos, no meio acadêmico, que o telespectador é ativo, escolhe, interpreta, constrói sentidos. Um programa absolutamente repulsivo não terá audiência, não terá anunciantes e sairá da grade. É certo, portanto, que o que tem audiência está mexendo com um imaginário que não pode ser ignorado.

O que é grave, e esta é a digressão, é que a natureza lúdica da TV parece coibir uma análise mais aprofundada do tipo de sujeito que vem sendo reforçado fora dela. Se a degradação do outro é sabidamente entretenimento, o riso está automaticamente autorizado. E que não se leve muito a sério, por favor, porque afinal "é brincadeira".

O sujeito que se constrói, sempre que ri do bobo que está sendo enganado, é cada vez mais incapaz do exercício da alteridade: não se coloca no lugar do outro, não se dispõe a pensar sob outra perspectiva. E não se importa em tomar a humilhação como a piada do dia. A verdadeira vítima da pegadinha não está na tela, e sim no sofá da sala. Francamente, parafraseando Shakespeare, penso que estamos fazendo pouco barulho por algo que é muito, talvez tudo.

* Jornalista, doutora em Comunicação pela PUC-SP e diretora da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS

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