Daniela Dariano
Rio de Janeiro
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Moradores de prédios de classe média com vista para o Morro dos Macacos, em Vila Isabel, obedecem à lei do silêncio da favela, mas os buracos de tiros na fachada dos imóveis denunciam: o bairro, junto com Tijuca, está em 2º lugar no ranking das áreas em que a população ouve estampidos de tiros com mais freqüência. Comerciante vizinho ao morro fechou com tijolos maciços duas de suas portas depois de ter a loja atingida diversas vezes por balas perdidas.
Especialista em segurança pública da UFRJ, Michel Misse, afirma que pesquisa reflete a sensação de insegurança dos cariocas. Ele crê que esse sentimento leva as pessoas a confundir os ruídos. "O aumento da freqüência de barulho de tiros e a proximidade com locais dominados por traficantes armados levam a interpretar errado o barulho".
Como a maioria dos moradores que convivem com o som das favelas, o corretor Cláudio Pereira, 35 anos, residente em prédio de classe média com fundos para o Morro da Formiga, na Tijuca, diz diferenciar som de tiro do barulho de fogos. "Há 20 anos, se alguém escutasse tiros, se jogaria no chão. Agora, olhamos pra trás para ver de onde está vindo", resume Cláudio, que antes vivia na Praça Saens Peña, perto do Morro do Salgueiro.
Para o coordenador do estudo, o estatístico da Uerj Antônio Ponce de Leon, o mapa pode orientar políticas públicas: "O núcleo está onde tem muita favela", afirma o colaborador da pesquisadora Alba Zaluar na coleta dos dados, que pretende montar novo mapa sobre o índice de pessoas por região que teve amigo ou vizinho vítima de homicídio.
Os dados são da mesma pesquisa, concluída em novembro passado, depois de ouvir quatro mil pessoas sobre violência no Rio de Janeiro.
Contradição na Barra a Jacarepaguá
Nem tudo é paz nos dois bairros em que o barulho de tiros é uma raridade, ouvido apenas por uma pequena minoria. Na Barra da Tijuca e em Jacarepaguá, 90,2% moradores dizem nunca ouvir disparos de armas de fogo e só 9,8% os ouvem raramente. Os criminosos, no entanto, parecem não dar ouvidos a essas estatísticas. Ao contrário, fazem crescer outros números: os da violência.
Só em Jacarepaguá, o índice de homicídios dolosos (intencional) em maio deste ano - último mês com dados atualizados completos -, foi 10 vezes maior do que, por exemplo, no Méier e no Cachambi, bairros que estão na região líder do ranking dos ruidosos tiroteios.
As mortes de bandidos em confronto com a polícia também foram em maior quantidade nos dois bairros da Zona Oeste (10 ao todo) do que em Vila Isabel, Grajaú e Andaraí, locais que juntos somaram três. O total de registros de ocorrências policiais da Barra e de Jacarepaguá também foi quatro vezes maior do que na Tijuca, vice-líder em tiroteio, segundo pesquisa da Uerj.
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