Rio: dossiê liga PMs presos a homicídios e cartel

20 de setembro de 2007 • 01h57 • atualizado às 04h49

Depois da prisão dos policiais do 15º BPM (Duque de Caxias), no Rio, acusados de receber propinas de traficantes para liberar a venda de drogas em favelas da região, moradores decidiram revelar crimes supostamente associados ao grupo. O delegado da 59ª DP (Caxias), André Drumond, afirmou ter recebido ontem dezenas de denúncias e até um dossiê contra os policiais em outros atos ilícitos, como homicídios e formação de cartel de cooperativas de transporte alternativo. Ontem, dois dos 59 investigados pela Polícia Civil foram soltos e um ainda não se apresentou.

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Há quatro anos, três dos policiais acusados tiveram prisão decretada pela Justiça, suspeitos de integrar grupo de extermínio. Na época, o chamado "Bonde do Paraguai" foi acusado do assassinato de três pessoas no distrito de Imbariê, Caxias, no Rio. O trio acabou solto por falta de provas. Os soldados Wellington Pralon Domingos e Darniei Marques Moreira e o sargento Hideraldo Vieira chegaram a ser investigados com mais seis PMs do 15º BPM. Acusados de triplo homicídio, formação de quadrilha, abuso de autoridade e tortura, todos foram presos.

Entre os assassinatos atribuídos ao grupo na ocasião estão os de Jefferson Félix Vieira do Nascimento, 21 anos, e Wilson de Jesus Carmo, 25 anos. Eles foram executados porque teriam desobedecido a um suposto toque de recolher imposto pelos acusados. Na época, os PMs alegaram que participavam de uma operação e revidaram disparos de bandidos.

Ontem, mais dois acusados se entregaram: um se apresentou no Batalhão Especial Prisional (BEP) e o outro, o agente penitenciário Emerson Barros de Azevedo, foi levado pelo advogado Flávio Teixeira à 1ª Vara Criminal, depois à promotoria e finalmente à 59ª DP. Depois de prestar depoimento, acabou solto. Segundo o advogado, Emerson foi confundido com um dos PM.

De acordo com o corregedor-geral da PM, Paulo Ricardo Paúl, o último acusado prometeu se entregar hoje no BEP. Ontem, 11 policiais foram conduzidos à delegacia para prestar depoimento. Eles chegaram em um ônibus, de onde desceram em fila, sem esconder o rosto e chegaram até a sorrir para os jornalistas.

Sentados em um corredor próximo à sala do delegado e escoltados por PMs fardados, os acusados conversaram animadamente enquanto aguardavam a vez de depor. Quatro disseram que só falariam em juízo. A O Dia, o delegado afirmou que o conteúdo dos depoimentos não seria revelado. Advogados contaram que eles negaram envolvimento e declararam que não conhecem os traficantes citados pela polícia.

Na madrugada de ontem, testemunhas fizeram reconhecimento pessoal de dois cabos. Um deles, Darniei Marques Moreira, não foi identificado e seu advogado conseguiu alvará de soltura expedido pela juíza Maria Danielle Abi Daud, da 1ª Vara Criminal de Caxias.

O delegado, que tem 28 dias para concluir o inquérito, disse que os PMs serão indiciados por associação ao tráfico, abuso de autoridade, formação de quadrilha, corrupção ativa e concussão. Cercado por policiais, ele negou que tenha recebido ameaças e que esteja usando escolta. Drumond chegou a bater no vidro do carro para provar que não era blindado.

O chefe da Casa Civil, Régis Fichtner, criticou a conduta dos PMs. "O governo lamenta que existam num mesmo batalhão 58 policiais envolvidos com o crime. São criminosos vestidos de farda".

Ex-comandante critica inquérito
Ontem, o ex-comandante do 15º BPM, tenente-coronel José da Silva Macedo Júnior, divulgou uma carta sobre a prisão dos policiais. Ele foi exonerado do cargo e mandado para o Departamento Geral de Pessoal. O tenente-coronel Luís Carlos Antonio Corso da Costa, assume a unidade de Caxias.

Na carta, Macedo diz que o procedimento sobre o caso, tanto na Corregedoria quanto na 59ª DP, começou ano passado, antes de ele assumir o comando do batalhão, e que dos 59 indiciados no inquérito, 46 já serviam no quartel desde a gestão anterior à sua.

Em referência ao seu antecessor - coronel Paulo César Lopes -, a nota de Macedo alfineta, afirmando que "sempre utilizou o senso de justiça, evitando práticas arbitrárias que objetivam promoção pessoal, deixando de lado a realização de shows pirotécnicos que só diminuem o moral de uma tropa abatida e sacrificada".

Ele declara que, em 10 meses de trabalho, puniu disciplinarmente 134 PMs, sendo que quatro foram excluídos da corporação e outros 10 foram submetidos a processos disciplinares.

Macedo disse encarar a transferência como rotina, mas que "não vê glória em transformar o episódio em palco para os holofotes da mídia em busca de promoção pessoal". A O Dia, ele confirmou que se referia às investigações do delegado Drumond. "Quem cala consente. Era o momento de não permanecer calado. Três dias de investigações são muito pouco para oito meses de fitas gravadas. Alguns cometeram delitos e merecem ser punidos, mas muitos são inocentes e a verdade vai virar prova". Drumond não comentou as declarações.

Em nota, a Secretaria de Segurança Pública informou que "acompanha todas as declarações públicas de policiais civis e militares. As que não estiverem dentro dos limites ético e profissional, acarretarão em medidas disciplinares imediatas".

A nota ressalta ainda que, no momento certo, a população saberá as medidas corretivas. Sobre as prisões, o secretário José Mariano Beltrame disse que está atento aos desvios de conduta de policiais. "O que temos que ter são políticas honestas para combater a corrupção. Agora não podemos fiscalizar um a um".

Esquema pode ter 150 nomes
Segundo investigadores, um dos policiais que serão ouvidos nos próximos dias está disposto a falar o que sabe para receber o benefício da delação premiada (informações em troca da redução de pena). Ele prometeu entregar nomes de envolvidos, inclusive de oficiais. A investigação aponta que pode chegar a 150 o número de PMs ligados ao esquema. Parentes dos presos estiveram ontem na DP e a mulher de um deles saiu chorando.

Um dos presos, Vladimir Santos Costa, foi apontado pela polícia como chefe da milícia do bairro Santa Eugênia, em Nova Iguaçu. Ele estaria sendo investigado por delegacia da região.

Ontem, 74 soldados recém-formados se apresentaram ao 15º BPM. Com mochilas e bolsas, os jovens policiais chegaram de manhã e se apresentaram ao coronel Macedo. Apesar de exonerado, ele ainda estava no comando da unidade ontem. Segundo a assessoria da Secretaria de Segurança Pública, o novo comandante, coronel Luís Carlos Antônio Corso, já responde pelo batalhão, mas a troca oficial de comando só deverá acontecer amanhã.

No total, serão 85 novos praças que vão assumir o policiamento. Os soldados vão substituir os 58 presos. Até amanhã, devem chegar mais 11 soldados ao batalhão.

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