Alemão: funk traz tática para enfrentar polícia

08 de julho de 2007 • 07h49 • atualizado às 11h47
Os desenhos apreendidos tornaram mais consistentes dois inquéritos que investigavam a quadrilha de Antônio José de Souza Ferreira, o Tota
Os desenhos apreendidos tornaram mais consistentes dois inquéritos que investigavam a quadrilha de Antônio José de Souza Ferreira, o Tota
08 de julho de 2007
Terra

Em operação no dia 27 de junho, no Complexo do Alemão, em que 19 bandidos foram mortos após oito horas de tiroteios, foi apreendido CD com músicas que revelam as táticas usadas pelos traficantes para atacar a polícia. A gravação - realizada durante baile funk no Morro da Chatuba, na Penha - dá voz a antigo manual de guerrilha, apreendido durante incursão do Batalhão de Operações Especiais (Bope), em 18 de abril de 2005, na favela da Fazendinha, que integra o Complexo do Alemão.

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O documento de 50 páginas, dividido em oito capítulos, foi escrito por Marcelo Costa da Silva, que integrou a 26ª Brigada de Infantaria Pára-Quedista do Exército entre 1992 e 1996. Ele acabou morto durante o confronto naquela mesma tarde na favela. Suas táticas de "guerra", no entanto, foram bem assimiladas.

"De meio-dia a meia-noite, de meia-noite a meio-dia/A bala come no blindado/Toda hora, todo dia", grita um MC no microfone, durante o baile.

Assim como no antigo manual do Alemão, o Caveirão é tratado sempre como o principal alvo a ser combatido. Na música, o cantor avisa: "Matamos 3 C. (Terceiro Comando) arrombado/Adelaide (ADA)/Até X-9 (informante da polícia)/E se o blindado brotar/Nós joga (sic) coquetel molotov".

A bomba é também mais uma velha tática de guerrilha. Durante várias operações realizadas no Complexo do Alemão, especialmente na localidade conhecida como Areal (onde os líderes da quadrilha se escondem), os bandidos costumam arremessar as garrafas com gasolina e fogo. "Numa dessas operações chegaram a jogar um galão de cinco litros de vinho, com o qual fizeram um coquetel molotov gigantesco", explicou o motorista de um blindado da PM.

Trechos
Primeiro trecho da faixa 3 do CD gravado no baile da Chatuba, na Penha, que destaca o ataque ao caveirão.

"De meio-dia a meia-noite, de meia-noite a meio-dia/A bala come no blindado toda hora, todo dia".

Em outra parte, o MC fala sobre o plantão de 24h dos traficantes (por 48h de folga), o prazer de matar rivais e as bombas atiradas.

"24 por 48h, contenção todo momento
Nós crias da PH
Fortemente
No armamento
Matamos 3 C. (Terceiro Comando Puro)
Adelaide (ADA)
Até X-9 (informante)
Se o blindado brotar
Nós joga coquetel molotov/coquetel molotov"

Outra letra descreve armas da quadrilha e fala da guerra convocada.

"Os fuzil já tão na pista/Desentoca as granadas/Vai ter guerra! O Maluco que convocou!"

"Mais uma guerrinha louca pra tu trocar munição/Vários traçantes nos alemão (rivais)/AK cromado, G3zão e 62 (fuzis)/O Sig Sauer eu não deixo pra depois/A linda FAP aplicando de 2 em 2"

Desenhos estão em inquéritos
Os desenhos apreendidos na época robusteceram dois inquéritos que investigavam a quadrilha de Antônio José de Souza Ferreira, o Tota: um da 21ª DP (Bonsucesso), onde o manual foi apresentado a toda a imprensa em 2005; e outro da 22ª (Penha). Nas páginas, havia ilustrações indicando, entre outras estratégias, o que bandidos deveriam fazer para atacar helicópteros e os blindados (os caveirões) da polícia; e como usar casamatas, iguais às que foram destruídas na Fazendinha e na Vila Cruzeiro, mês passado.

Os funks do CD, gravado no dia do aniversário de um dos fornecedores de drogas, François Soares Suassuna, o Jansen, relatam o poder de fogo do grupo de Tota. "Desentoca as granadas/Vai ter guerra!", canta o MC.

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