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Rio: número de baleados é comparado ao de guerras

05 de maio de 2007 19h52

A guerra não é declarada, mas as cenas de tiroteio, desespero e correria já fazem parte do dia-a-dia do Rio. Nos hospitais, a quantidade de baleados em busca de socorro é digna de grandes batalhas: só no primeiro trimestre deste ano, 1.025 pessoas alvejadas foram atendidas nas principais unidades públicas do Estado. Os dados do Ministério e das Secretarias Municipal e Estadual de Saúde mostram que, por dia, são mais de 11 feridos a bala. A estatística não inclui aqueles que não chegaram a ser levados para hospitais porque morreram antes.

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O número de baleados socorridos no primeiro trimestre aumentou 8% em relação ao mesmo período do ano passado. A gravidade das lesões também vem crescendo. Segundo o diretor do Hospital Souza Aguiar, José Macedo de Araújo Neto, devido ao grande poder de fogo das armas usadas por bandidos, um só tiro pode comprometer vários órgãos.

"Os baleados chegam extremamente graves devido ao poder de impacto da bala. Hoje, não é preciso que o projétil entre no corpo para causar dano grave. Tiro de fuzil causa choque 30 vezes maior do que o diâmetro da bala. Atendemos paciente que levou um tiro e teve pulmão, pâncreas, estômago, intestino e fígado perfurados", diz.

O aumento do poder de fogo não é o único desafio dos médicos. A falta de estrutura nos hospitais aumenta o drama. Atingido por uma bala perdida segunda-feira em São Gonçalo, o soldador Carlos José Sampaio, 27 anos, teve a perna amputada quatro dias depois. Ele passou por três hospitais.

"O médico do Azevedo Lima (Niterói) disse que a bala não precisava ser retirada, mas a dor continuou. Fui para o pronto-socorro de São Gonçalo e só na quarta-feira cirurgião vascular me examinou e disse que não tinha recursos. Fiquei desesperado. Assinei um termo de responsabilidade para ter alta e vim para cá. Se tivesse vindo no dia do tiro, não tinha perdido minha perna", lamenta o paciente. Carlos, que teme mostrar o rosto porque mora em área de risco, está internado na Unidade de Pacientes Graves do Souza Aguiar.

A falta de recursos médicos também prejudicou o socorro à universitária Juliana Pereira da Silva, 23 anos, baleada dia 26 durante confronto entre traficantes em Realengo. Levada para o Hospital Albert Schweitzer, a jovem morreu sem ser operada: a unidade não tinha cirurgião vascular de plantão.

O médico Aloísio Tibiriçá, coordenador do grupo de emergência do Conselho Regional de Medicina do Rio (Cremerj), defende estudo sobre o perfil das unidades. "A mudança no perfil do atendimento é clara em função do aumento da violência urbana. É preciso mapear a rede.

Os dados da secretaria apontam que só no Hospital Pedro II, em Santa Cruz, o número de baleados nos primeiros quatro meses do ano subiu 88,5% em relação ao mesmo período do ano passado. Entre janeiro e abril de 2006, foram 52 atendimentos. Este ano, 98.

No Hospital Getúlio Vargas, Penha, só no mês passado, foram atendidos 87 pacientes baleados. Os dados referentes ao Souza Aguiar ¿ que mostram apenas os baleados socorridos em janeiro e fevereiro ¿ indicam 93 pacientes em dois meses.

Segundo a assessoria da Secretaria de Segurança, a estatística do terror tem como fator principal o aumento do número de confrontos de policiais e bandidos. Procurado, o secretário José Mariano Beltrame não comentou os dados da Saúde.

De acordo com o Instituto de Segurança Pública (ISP), foram registrados 790 homicídios na Região Metropolitana do Rio em janeiro e fevereiro de 2006. No mesmo período deste ano, o número subiu para 809.

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