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 Contador é acusado de racismo na Bahia
11 de outubro de 2003 01h46

O contador desempregado Ércio Luiz Pontes Dias, 42 anos, foi detido, na manhã de ontem, depois de chamar duas estudantes de "pretas, putinhas e feias". A agressão aconteceu na Rua Carlos Gomes (centro), no momento em que Nívea Luzia Silva de Santana, 20, e Naiana Rocha Sacramento, 23, iam para uma atividade promovida pelo Fórum de Entidades Negras e cruzaram com o agressor.

Imediatamente as estudantes mobilizaram algumas testemunhas e seguiram Ércio até encontrar uma viatura, que os conduziu para a 1ª Delegacia de Polícia, nos Barris. Como confessou o crime em depoimento, Ércio será indiciado por racismo (Artigo 140, parágrafo 3º do Código Penal) e por crime de preconceito da cor e da raça (Artigo 20 da lei 7.616) que é inafiançável. Ele poderá pegar até seis anos de prisão.

Ércio Dias permanecerá na 1ª DP até o processo ser encaminhado para a Justiça, o que acontecerá ainda hoje. Quando o juiz for notificado sobre o caso, será conduzido para o Presídio Salvador, onde deverá permanecer até o julgamento. Na delegacia, Ércio declarou que xingou as mulheres porque foi assaltado por três homens negros e ficou com raiva dos afrodescendentes. "Fiquei com esse sentimento crescendo dentro de mim e acabei despejando nelas. Mas não quis ofendê-las. Eu só falei ''oh preta feia''", defendeu-se.

Conforme Nívea, a prisão do agressor só aconteceu porque elas tinham conhecimento sobre seus direitos e decidiram enfrentar todas as barreiras. Ela conta que o contador foi incisivo e realmente teve a intenção de agredi-las e desrespeitá-las. "Ele foi muito direto e grosseiro. Na hora nós passamos ele gritou pretas, putinhas e feias. Quando enfrentamos ele e anunciamos que iríamos chamar a polícia ele afirmou que conhecia os seus direitos e que não seria preso pelo que tinha feito", contou. Ércio é de Macapá e está em Salvador de passagem. Ele está viajando pelo Brasil há dois anos, parando em algumas cidades para fazer bicos.

O advogado das estudantes, Adilson Dantas, afirmou que mesmo diante de uma situação comprovada de racismo, os policiais resistiram para reconhecer o crime. Ele atribuiu o problema ao despreparo dos agentes para tratar questões de racismo e ressaltou a necessidade de criação de uma polícia especializada neste tipo de crime. "Acredito que muitos casos como esse não foram levados à frente por não haver uma delegacia com agentes preparados para receber as vítimas e conduzir as denúncias", afirmou. Adilson é representante do Gabinete de Articulação Institucional e Jurídica, que advoga gratuitamente para vítimas de racismo.

Esse é o segundo caso em que uma situação de racismo leva o criminoso para a delegacia. O primeiro aconteceu há um ano, dentro de um supermercado, quando um cliente agrediu verbalmente uma funcionária negra. Como negou o crime em depoimento, o acusado foi liberado e responde ao processo em liberdade. O julgamento ainda não foi marcado.

Correio da Bahia