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Bala perdida: jovem é enterrada ao som de MPB

27 de abril de 2007 05h49 atualizado às 23h29

O corpo da universitária Juliana Pereira da Silva, 23 anos, foi enterrado na tarde desta sexta-feira no Cemitério Jardim da Saudade, em Paciência, na zona oeste do Rio de Janeiro. Ela foi atingida por uma bala perdida, ontem, quando passava de carro pela estrada da Água Branca, em Realengo, onde ocorria um confronto entre traficantes das favelas do Batan e Fumacê. A forte chuva que atingiu a cidade não impediu que pelo menos 350 pessoas acompanhassem o cortejo.

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Emocionados, parentes e amigos de Juliana usavam camisetas pretas com a foto dela e a frase "Um sorriso... uma paz... saudade eterna". Durante o enterrro, um amigo da universitária colocou no CD do carro a música Eu apenas queria que você soubesse, de Gonzaguinha, a favorita de Juliana. Todos também cantaram uma música de Ivete Sangalo, que a estudante adorava.

A mãe da estudante estava muito abalada e não quis falar. Os amigos vão se reunir no domingo na Praia de Grumari, na zona oeste, para prestar homenagens à Juliana.

"Ela tinha uma felicidade especial e o sorriso mais encantador que conheci. Vivia com paixão, rodeada de amigos, e tinha uma energia irresistível. Difícil aceitar essa perda. É mais uma vítima da desordem social do Rio", lamentou a amiga de infância Tatiane Grassi.

Juliana era filha única e vivia com a mãe em Bangu. O pai morreu há dois anos e, como os parentes moram na mesma rua, as duas continuaram no local. Mas, segundo o namorado, a jovem tinha medo da violência cada vez mais constante no bairro. "Juliana chegou a comentar que queria sair de lá, mas ficavam presas pela família. Ela evitava até ir a certos lugares", disse Thiago.

A jovem completou 23 anos dia 12. Ela cursava o quinto semestre de Publicidade e Propaganda na Faculdade Hélio Alonso, em Botafogo. Segundo a amiga de sala de aula Stela Paixão, 20 anos, Juliana vivia feliz desde que começou a estagiar na empresa de energéticos, há um ano. "Ela vibrou porque finalmente pôde comprar seu carro, o Celta que estava dirigindo. Foi uma fatalidade, estava no lugar errado e na hora errada".

Bala perdida
A estudante e dois amigos voltavam de uma comemoração, numa casa de shows em São João de Meriti, na Baixada Fluminense. Juliana estava festejando o fato de ter entrado de férias.

Por volta das 4h, ela foi deixar a amiga Estefani Serpa de Castro, 23 anos, em casa. Sem saber, passou pelo fogo cruzado entre os criminosos. Além de Juliana, Estefani ficou ferida por estilhaços de vidros do Celta onde estavam. O carro foi alvejado por quatro tiros nos pneus e lataria.

As duas amigas pararam um táxi que passava pelo local e foram para o Hospital Albert Schweitzer, Realengo. O outro passageiros do carro Daniel Domingues da Silva, 26 anos, seguiu as amigas dirigindo o Celta de Juliana. Ele não ficou ferido.

O desespero continuou no hospital. Juliana perdeu muito sangue, já que a bala atingiu uma veia femoral. Segundo o nutricionista Thiago Madeira, 25 anos, namorado da jovem, não havia cirurgião vascular na unidade, o que foi confirmado pela assessoria da Secretaria Estadual de Saúde.

De acordo com a secretaria, um helicóptero foi acionado para transferir Juliana para o Hospital Souza Aguiar, mas a estudante teria morrido antes de entrar na aeronave. Já Thiago disse que o helicóptero só teria chegado às 9h e não teria conseguido pousar.

O rapaz afirmou ainda que amigos de Juliana chegaram a pedir que os médicos do Albert Schweitzer solicitassem cirurgião em hospitais particulares, já que ela tinha plano da saúde, mas nenhum especialista teria sido encontrado. "Se os hospitais tivessem mais recursos, ela teria chance", criticou.

O diretor do Hospital Albert Schweitzer explicou que a unidade é voltada principalmente para o tratamento de doentes crônicos e que a emergência não é especializada para casos de alta complexidade, como o de pessoas baleadas. Quando Juliana chegou, segundo o diretor, já estava com um quadro gravíssimo e havia perdido muito sangue.

Na unidade, a estudante sofreu duas paradas cardíacas, recebeu dois litros de sangue e os médicos tentaram estabilizar a pressão de Juliana. Ao mesmo tempo, um helicóptero já esperava no quartel do Corpo de Bombeiros, para poder remover a universitária para o Hospital Souza Aguiar. Quando era levada do hospital para o helicóptero, morreu na ambulância.

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