Collor diz que foi vítima de vingança política

15 de março de 2007 • 17h01 • atualizado às 23h55
O ex-presidente, Fernando Collor de Mello (PTB-AL), se emociona durante o seu primeiro discurso como senador, em Brasília Foto: Reprodução
O ex-presidente, Fernando Collor de Mello (PTB-AL), se emociona durante o seu primeiro discurso como senador, em Brasília
15 de março de 2007
Foto: Reprodução

Luciana Lima
Direto de Brasília

Brasília


O senador Fernando Collor de Mello (PTB-AL) usou seu primeiro discurso no Senado Federal para fazer sua defesa contra o processo de impeachment que resultou na sua renúncia à presidência da República, em 1992. Em um discurso que durou cerca de 3 horas nesta quinta-feira, o ex-presidente disse que foi vítima de vingança política.

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O proferimento de Collor foi marcado por muitos momentos de lágrimas. Ele interrompeu a fala, com a voz embargada, ao dizer que não seria fácil "volver os olhos ao passado".

"Os episódios que aqui vou rememorar obrigaram-me a padecer calado e causaram mossas na minha alma e cicatrizes no meu coração. Fui acusado sem provas, insultado e humilhado durante meses a fio. Tive minha condenação antes mesmo de qualquer julgamento", declarou no começo de sua estréia na tribuna. E lembrou: "Hoje, passados 17 anos de minha posse na presidência da República, volto à atividade política integrando esta augusta Casa, a mesma que a interrompeu por decisão dos ilustres membros que a compunham".

Collor lembrou quando deixou o Palácio do Planalto, após a renúncia, e disse que pediu ao piloto do helicóptero que o conduzia que sobrevoasse o Centro Integral de Apoio à Criança e ao Adolescente (Ciac) de Santa Maria, uma cidade satélite de Brasília. "O piloto me respondeu que não havia gasolina suficiente para mais 10 ou 15 minutos de vôo". E concluiu: "Naquele momento, vi que a Presidência da República que o povo havia me dado, havia sido levada", disse Collor, chorando.

O senador demonstrou conter o choro ao dizer que "foi condenado, antes mesmo de qualquer julgamento" e quando foi interrompido pelo senador Romeu Tuma, que também chorou ao lembrar das investigações contra o presidente. Tuma foi secretário da Receita, secretário nacional da Polícia Federal e diretor geral da Polícia Federal durante a gestão de Collor.

"O discurso de Collor possui 99 páginas e se intitula Resgate da História: A verdade sobre o processo do impeachment. Collor detalhou cronologicamente cada passo do processo de investigação contra ele.

O ex-presidente classificou como açodado o trabalho realizado pela CPI que recomendou sua cassação. No texto, disse que essa comissão não conseguiu reunir nenhuma evidência que justificasse a perda de seu mandato e que ela própria declarou que não tinha competência para julgar as denúncias feitas pelo seu irmão Pedro Collor de Mello. "Não fui notificado, indiciado, como acusar quem não foi objeto de investigação?", disse.

Sobre os abusos citados por Collor em seu discurso, reagiu o senador Aloísio Mercadante (PT-SP) que participou da comissão. "Não compartilho com aqueles que consideram que o trabalho da CPI ou o impeachment se devem a falta de uma relação republicana entre o governo e o Congresso. Estava na dimensão republicana do meu mandato daquilo que eu achava que era meu mandato".

Collor acatou a crítica e respondeu: "Não tenho dúvida nenhuma de que dentre aqueles que participaram das diversas etapas do processo de impeachment existem pessoas que, como o senhor, estavam agindo única e exclusivamente com base no seu convencimento".

Ao ser interrompido pelo senador Artur Virgílio (PSDB-AM), Collor disse que foi "vítima de uma vingança política e de uma desforra particular". Ao avaliar o discurso do ex-presidente da República, Artur Virgílio disse que ele "pagou um preço muito alto por seus erros, num país onde ninguém paga".

Por fim, Collor encerrou o discurso com o desejo de que todos as denúncias que enfrentou fossem esquecidas. "Não vim lastimar o passado. Vim para sepultar de vez essa dolorosa lembrança".

Collor chegou ao plenário do Senado acompanhado de sua namorada. O primeiro a cumprimentar o senador Collor foi Roberto Jefferson, deputado cassado devidos às denúncias do "mensalão". Cerca de 60 senadores permaneceram em plenário para ouvir o discurso de Collor.

Redação Terra
 
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