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Guarabu ordenou que "olheiros" ocupem as lajes das casas em ruas ao redor da favela. Nos acessos à comunidade, bandidos com fuzis fazem a "contenção".
O bando de Guarabu, fortemente armado, conta também com metralhadora Madsen, que tem capacidade para disparar até 550 tiros por minuto. A metralhadora é, segundo especialistas, uma arma de longo alcance, podendo ser utilizada até para ataques antiaéreos. No entanto, de acordo com policiais militares e civis, responsáveis por reprimir o tráfico no Dendê, a arma mais encontrada na comunidade é o fuzil AK-47, que dispara 650 tiros por minuto.
Fabricado em mais de 40 países, o AK-47 custa em torno de US$ 4 mil, mesmo preço da Madsen, que assusta pelo tamanho.
Agentes do Serviço Reservado do 17º BPM (Ilha do Governador) vêm monitorando a estrutura do tráfico no Dendê e acreditam que o morro será o próximo alvo dos milicianos. No entanto, os policiais não vêem possibilidade de a favela ser tomada facilmente, em função da quantidade de armas e "soldados" aliados a Fernandinho Guarabu. Além da fidelidade dos bandidos do Dendê, Guarabu conta com o silêncio sobre seus atos de parte dos moradores.
Assistencialista, o chefão do Dendê promete melhorias na favela, em troca da ausência de denúncias.
Reforço policial
Nas favelas onde as milícias já se instalaram, o clima ontem era de aparente tranqüilidade. O policiamento no entorno do Morro do Barbante e do Boogie Woogie foi reforçado. A Vila Joaniza está ocupada por homens do 17º BPM e do Grupamento Especial Tático-Móvel (Getam) para evitar novos confrontos entre traficantes do Comando Vermelho (CV) que tentam retomar a favela, já que foram expulsos pelos milicianos. Em confronto sábado, quatro pessoas foram mortas e duas, feridas.
Um dos mortos foi o ex-policial militar José Carlos Gonçalves. De acordo com a polícia, o ex-PM tinha duas condenações por roubo. No total, ele deveria ter cumprido pena de 20 anos.
Vários refugiados da milícia
Expulsos pela milícia do Boogie Woogie, moradores e parentes de bandidos da favela vizinha se refugiaram no Morro do Dendê, com autorização de Fernandinho. Na Vila Joaniza, moradores que haviam sido expulsos durante os confrontos de sábado pelos traficantes voltaram para suas casas, com o aval das milícias.
Moradores do Morro do Dendê estão apreensivos com a possibilidade de invasão. Com medo, eles preferem não comentar o assunto. "Está querendo que eu morra? Não sei de nada", diz uma comerciante, sem se identificar. Outros dizem apenas que estão adotando medidas preventivas, para que não sejam vítimas de traficantes e nem de milícias. "Quem tem juízo, vai para casa cedo. Há toque de recolher, mas não oficialmente. Ninguém fica na rua dando bobeira", conta outro morador.
Portão foi pedido por moradores
O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), chegou a cogitar ontem derrubar portão que teria sido instalado por milícias há mais de dois meses na Vila Joaniza. "Não vamos aceitar. Esse portão será detonado pela Secretaria de Segurança . Isso é inaceitável, um muro que impeça o acesso", disse.
No fim da tarde, no entanto, o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, em nota oficial, afirmou que não iria derrubar o portão, "já que o mesmo foi colocado no local por moradores da comunidade". A associação de moradores da Vila Joaniza informou que abaixo-assinado com mais de 300 assinaturas pediu o portão.
De acordo com moradores, milicianos colocaram o portão no local e cobraram R$ 15 de taxa de instalação - R$ 10 pela obra e R$ 5 pela chave.
Cabral: "milícia é o fim do mundo
O governador Sérgio Cabral classificou ontem as milícias como "fim do mundo". Ele afirmou ainda que não vai tolerar as ações de grupos armados e comparou a situação com Bogotá, capital da Colômbia, onde paramilitares ilegais já tomaram parte da cidade. O exemplo foi usado para mostrar a série de problemas que os milicianos podem trazer às comunidades carentes.
"Imagina se eu vou tolerar milícia. Isso é o fim do mundo. Em Bogotá, os paramilitares foram aceitos nas comunidades e hoje o país vive uma grave crise. O poder paralelo não é a solução", afirmou o governador.
Pouco antes de assumir, durante o período de transição, Cabral chegou a elogiar o combate ao crime organizado na Colômbia. Na época, ele disse que tentaria adaptar as medidas bem-sucedidas do país para adotá-las no Rio. O governador também se reuniu com o sociólogo Hugo Acero, que foi secretário de Segurança e Convivência Social em Medellín, também na Colômbia.
Em Bogotá, milicianos chegam a oferecer "empréstimos" de dinheiro com 20% de juros ao mês, proíbem cabelos compridos para homens e minissaias e maquiagem para mulheres.
Cabral ainda criticou o governo Rosinha Garotinho, dizendo que herdou uma situação difícil na segurança. Segundo ele, o que ocorre é uma conseqüência da falta do Estado. "O Estado estava ausente, tanto na área social, quanto na segurança".
À tarde, os deputados estaduais Alessandro Molon (PT) e Marcelo Freixo (PSOL) se reuniram com o secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, para pedir providências no combate às milícias. Presidente da Comissão de Direitos Humanos, Molon afirmou que Beltrame reconheceu a gravidade da situação e garantiu que já há levantamento com locais e envolvidos nas ações ilegais.
"O secretário concordou que as ações aumentaram, mas disse que uma dificuldade de apuração é a falta de tipificação do crime chamado milícia", disse Molon. Beltrame declarou ainda que prepara um contra-ataque às milícias.
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