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Mãe acusada de atirar bebê em lagoa é julgada

19 de janeiro de 2007 09h37 atualizado às 11h54

Juiz interrogou Simone e ela voltou a negar o crime. Foto: Ney Rubens/Especial para Terra

Juiz interrogou Simone e ela voltou a negar o crime
Foto: Ney Rubens/Especial para Terra

A promotora de vendas Simone Cassiano da Silva, 30 anos, acusada de ter jogado sua filha de três meses na Lagoa da Pampulha, zona norte de Belo Horizonte, está sendo julgada por tentativa de homicídio. O julgamento do crime, ocorrido em janeiro de 2006, começou na manhã de hoje no 1º Tribunal do Júri do Fórum Lafayette e a previsão é que dure cerca de 20 horas, terminando somente amanhã.

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A menina estava dentro de um saco plástico e foi resgatada com vida por pessoas que passavam perto da lagoa. Um cinegrafista amador filmou a cena. As imagens do resgate rodaram o mundo e causaram perplexidade. Simone Cassiano, que está presa na Penitenciária de Mulheres Estêvão Pinto na capital mineira, sempre negou que tivesse jogado a criança na água. Em seus depoimentos, ela alegava ter entregue o bebê a uma andarilha, a quem teria dado R$5.

Julgamento
O julgamento é presidido pelo juiz Lepoldo Mameluque. Atua na acusação o promotor de Justiça Luciano França da Silveira Júnior e, na defesa, o advogado Mateus Vergara. Desde o início da manhã, o salão do Tribunal está lotado pelo público. Sete jurados vão decidir o destino da ré. Caso seja ela condenada, a pena prevista para tentativa de homicídio é entre 12 e 30 anos.

Simone chegou algemada, escoltada por três policiais militares. Ela ganhou bastante peso e está com os cabelos mais longos. O julgamento começou com a leitura, pelo juiz, do depoimento da ré prestado um dia depois de a criança ter sido jogada na lagoa.

"Você está aqui para ser julgada pelo crime de tentativa de homicídio por ter jogado a sua filha na lagoa da Pampulha. Isso é verdade?', perguntou Mameluque, dirigindo-se à acusada. "Não, isso não é verdade", ela respondeu.

Depois da leitura do depoimento, o juiz perguntou se ela concordava integralmente com o depoimento e ela discordou apenas de um ponto. Disse que, ao contrário do que estava escrito, no dia que viu as reportagens com as imagens da criança encontrada na lagoa, ela não teria ficado acordada, mas tomou remédios e foi dormir.

Defesa
O advogado de defesa deu uma entrevista coletiva e disse que vai tentar desmontar a versão da acusação, de que foi Simone quem jogou o bebê na lagoa. Segungo Mateus Vergara, não existem provas de que tenha sido ela. "A versão da acusação é cheia de fantasias", afimou.

Segundo ele, o único crime possível para Simone Cassiano é o de abandono de incapaz, cuja pena é de seis meses a dois anos de prisão. "A polícia não investigou o crime. É muito mais fácil, em um crime de repercussão, achar o culpado no primeiro dia, para dar uma satisfação ao público. Não foi feito exame de impressão digital no saco plástico e nenhuma testemunha viu a Simone jogando a criança na água", disse o advogado.

Acusação
O delegado que presidiu o inquérito policial, Hélcio Sá Bernardes, se diz satisfeito e seguro com o trabalho de apuração e ainda ironizou as acusações do advogado. "O choro é livre. Ele como advogado tem que tentar tudo para liberar a cliente. A apuração foi tão mal feita que, até hoje ele não conseguiu um habeas corpus para ela. Nem mesmo em Brasília", disse o delegado.

A Promotoria de Justiça, disse que vai demonstrar, com base nos autos do processo, que a promotora de vendas cometeu o crime. Sobre a defesa utilizada pelo advogado, de que não há testemunhas que representem provas contra Simone Cassiano, o promotor Luciano França da Silveira Júnior, responsável pela acusação, disse que isso será comprovado na hora do julgamento com os depoimentos que serão prestados.

O julgamento, que será aberto ao público, será realizado no I Tribunal do Júri do Fórum Lafayette, com capacidade para 450 pessoas, em Belo Horizonte, a partir das 9 horas de sexta-feira. 21 jurados populares serão convocados. Destes, pelo menos 15 têm de comparecer para que a sessão seja realizada. Entre os jurados presentes serão sorteados sete para compor o júri. O julgamento será presidido pelo juiz substituto Leopoldo Mameluque.

A criança
O bebê foi registrado, por determinação da Justiça, com o nome de Letícia Maria Cassiano. Hoje, com cerca de um ano e três meses de idade, ela vive com um casal de pais provisórios, indicados pelo Juizado da Infância e da Juventude, enquanto o processo de guarda definitiva está tramitando. Os pais de Simone não desistiram de recuperar a neta e entraram, em 31 de janeiro do ano passado, com o processo de requerimento da guarda, que está em andamento sob segredo de Justiça.

Crime com repercussão mundial
Nos depoimentos, Simone Cassiano contou que, no dia 28 de janeiro de 2006, saiu desesperada da Maternidade Odette Valadares, na capital mineira, onde a filha nasceu prematura e ficou internada por mais de dois meses. Sem saber com um recém-nascido tão frágil e carente de cuidados especiais, ela, inicialmente, pensou em levar o neném para a casa da mãe, mas desistiu logo da idéia. Andado pela orla da lagoa, depois de muito chorar, Simone teria entregue a menina a uma andarilha, versão totalmente descartada pela polícia.

O certo, é que um casal fazia caminhada pela orla da Lagoa da Pampulha, ouviu um choro vindo da margem. Pensando ser de um gato, eles se aproximaram e viram um saco preto preso a um pedaço de madeira que boiava. Com a ajuda do vigia do Museu de Arte da Pampulha, Roberto Carlos de Souza, retiraram o saco da água e, ao abrirem, se surpreenderam com a criança, bem vestida e de laço na cabeça.

Quase um ano depois o, agora desempregado, Roberto Carlos de Souza, voltou ao local. Ele diz que até hoje se arrepia só de pensar no momento do resgate. Roberto foi quem puxou o saco plástico, com a ajuda de um pedaço de madeira, e o primeiro a ver que não era um gato, mas sim um bebê. "Fiquei em estado de choque quando vi o pezinho da criança. Eu só lembrava do meu filho (que hoje está com dois anos), e pensava como alguém pôde fazer aquilo com uma criança", emocionou-se. Atordoado com as imagens que não saiam da sua cabeça, e com o assédio da imprensa, Roberto afirma que ficou quase um mês sem conseguir dormir.

Todo o resgate foi filmado por um cinegrafista amador, que vendeu o direito das imagens para a TV Globo. Veiculadas no programa Fantástico, as cenas do resgate ganharam repercussão mundial e foram repetidas por emissoras de TV no mundo todo. Até mesmo na internet, era, e ainda é possível encontrar as imagens.

No dia seguinte, a mãe da criança, Simone Cassiano da Silva, foi presa pela polícia quando saía de sua casa, no Bairro Estoril, região oeste da capital. Descontrolada com a prisão, e com o assédio da imprensa, a promotora de vendas afirmou categoricamente que era inocente. "Não foi eu quem jogou a criança na água. Vocês vão achar quem jogou essa droga de criança na água", afirmou.

Redação Terra