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Quarta, 26 de julho de 2006, 16h09

Veja íntegra da entrevista com Cláudio Lembo

O governador de São Paulo, Cláudio Lembo (PFL), ameaçou lançar uma autobiografia sobre sua experiência de nove meses à frente do maior Estado da federação. Em entrevista nesta quarta-feira nos estúdios do Jornal do Terra, Lembo disse que pode deixar muita gente assustada se decidir contar tudo.

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Em quase 40 minutos de conversa, o governador paulista comentou a situação do sistema carcerário, defendeu privatizar a construção de novos presídios e disparou críticas contra aqueles que chama de "elite branca" e contra seu próprio partido.

Jornal do Terra - A grande maioria dos internautas pergunta sobre a segurança. Nos primeiros ataques do PCC, o senhor reclamou da falta de solidariedade dos companheiros de chapa. O comportamento mudou na segunda onda de violência?
Cláudio Lembo - Foi diferente, porque na segunda onda de violência, todos estávamos preparados: governo e cidadãos. Não era preciso mais apoio ou solidariedade. Sobre a primeira vez, volto a lamentar que não tenham sido mais solidários.

Jornal do Terra - Que repercussões políticas a atitude de falar o que pensa que o senhor tomou naquela época teve nos meses seguintes?
Cláudio Lembo - Eu diria que houve afastamento de todos os bajuladores. Foi uma coisa muito boa, eles não apareceram mais no palácio. E eu posso estar obliterado, mas nas ruas sinto a solidariedade do povo, sobretudo daquelas pessoas mais humildes. Pode ser impressão deformada por quem está isolado. Os bajuladores se afastaram porque eu falo o que penso e eles têm medo.

Jornal do Terra - É inevitável no regime atual que o governante fique isolado no palácio?
Cláudio Lembo - Creio que sim, isolado pelo regime presidencialista. Mesmo no regime parlamentarista, o primeiro-ministro acaba isolado. Imagina o premier de Israel neste momento, está isoladíssimo. Até por segurança, e também por circunstâncias políticas. Isso tem suas dificuldades e vantagens, você pode fazer reflexões e agir a partir delas. Se você acerta é você que acerta, e se erra, é você que erra.

Jornal do Terra - Esse problema de segurança em SP não se tornou uma richa entre partidos?
Cláudio Lembo - Não, de maneira alguma. Não há nem um pouco posição de confronto, admito que aqui e ali figuras do governo federal tenham se aproveitado da situação. Usaram de maneira que não deveriam o Exército nacional e a força nacional de segurança, como elementos que iriam solucionar todos os problemas de São Paulo. É ridículo falar isso. Falo sem nenhuma vaidade e com muita consciência cívica: não tinha nada que ter exército em SP, é um problema de inteligência que temos aqui.

Jornal do Terra - Diziam que com policiamento ostensivo se criaria uma sensação de segurança...
Cláudio Lembo - Por que vou mentir para o provo? É ingênuo achar que o tanque de guerra garante a presença de segurança. Falta dar ao povo a realidade. Acho que nesses três meses, com transparência, fizemos com que cada cidadão pudesse pensar por si. Há quem queira integração das polícias civil e militar em um só corpo. Eu sou totalmente contra. O que tem que haver é integração de comando.

Jornal do Terra - O que deu errado, então?
Cláudio Lembo - Nada deu errado, apenas deu certo para o PCC em um certo momento. O que estava errado eram os presídios, com a fragilização da disciplina. Você pode me chamar de conservador, mas acho que uma sociedade só sobrevive com disciplina. Se romper o estado de direito, teremos fragilidade. Hoje estamos cumprindo a lei de execução penal, ela é o limite para nós.

Jornal do Terra - Há como evitar a comunicação entre chefes do PCC nos presídios e seus operadores na rua?
Cláudio Lembo - Hoje as coisas estão um pouco melhor. Quando eu assumi, vi dois grandes problemas: primeiro, as Organizações Não Governamentais a serviço do crime. Claro que há ONGs respeitáveis, mas as que eu me referia eram as que dominavam o presídios. Segundo, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Sou advogado, fui muito criticado por dizer isso. Mas alguns advogados eram os pombos-correio entre a criminalidade interna e externa.

Jornal do Terra - É uma coincidência que o PCC tenha se estruturado justamente quando o Estado passou a prender mais criminosos?
Cláudio Lembo - São duas situações que têm que ser analisadas. Primeiro, é paradoxo: o Estado que mais cumpre mandados de prisão é o que mais sofreu, porque ele tem 144 presídios, 52% dos "reeducandos" do Brasil, para ser politicamente correto. O segundo Estado tem 12 mil, e nós temos 142 mil. Portanto, quem cumpre a lei duramente sofre mais. Segundo, temos que repensar as penas. Só a privação de liberdade é um erro. Não se pode levar pessoas que cometeram um pequeno delito pra um presídio com criminosos perigosos, quadrilhas, os PCCs da vida. Está se criando um exército auxiliar para o PCC ou para qualquer quadrilha organizada.

Jornal do Terra - Os agentes penitenciários deveriam portar arma?
Cláudio Lembo - Eles são heróis. É um cotidiano muito difícil, com um ambiente pesado, de baixo astral. Eu acho que eles devem ser portadores de arma, nós abrimos uma linha de crédito no banco estadual para que eles possam comparar suas próprias armas. Não são policiais, são parapoliciais e não podem ter armas, como nós, civis. A arma teria efeito mais psicológico do que de garantia de vida.

Jornal do Terra - Usar a presidenciária federal de Catanduvas (PR) ajudaria de alguma maneira a desestruturar um pouco a organização do PCC?
Cláudio Lembo - Não, os detentos do PCC estão cumprindo pena em penitenciárias de segurança máxima do Estado de SP: Presidente Venceslau e Presidente Bernardes, onde não há rebelião. Nós poderemos eventualmente usar Catanduvas, mas não é nosso objetivo fazê-lo.

Jornal do Terra - Quando vai começar efetivamente a reforma do presídio de Araraquara?
Cláudio Lembo - Existe uma diferença entre o tempo da notícia e o tempo da burocracia. Vocês querem resposta imediata, o administrador público só pode dar a resposta dentro da burocracia. Não gosto de inaugurar presídio, mas por mera casualidade eu inaugurei o de Araraquara. Era a menina dos olhos do Estado, tudo automatizado. Tinha todo o monitoramento por vídeo, uma obra-prima da tecnologia. Eles destruíram tudo, não ficou pedra sobre pedra, só as muralhas. Acho estranho que tenham sido colocadas grades com bucha, quero saber o porquê, pois deveria ser concretado. Em agosto, começa a efetiva reforma física. Era um presídio modelo e as coisas no Brasil nem sempre funcionam como foram pensadas.

Jornal do Terra - É possível atender à demanda de encarceramento em SP?
Cláudio Lembo - Teria que construir uma cadeia por mês. É uma tragédia. Por isso apóio as penas alternativas. No meio da grande crise, a Associação Paulista dos Magistrados teve a elegância de elaborar um anteprojeto de reforma do Código Penal, que deve nos entregar em dias. Estou aguardando com grande interesse esse anteprojeto.

Jornal do Terra - O senhor é a favor da privatização de presídios?
Cláudio Lembo - Sou totalmente contrário à entrega da administração do presídio à administração particular. O que tem se pensado é fazer um "resort". A iniciativa particular constrói presídio e o Estado aluga cela, como em um hotel. É uma idéia, está sendo estudado. A vantagem seria poder abrigar mais e com mais dinâmica, sem tanta burocracia.

Jornal do Terra - Os líderes do PCC estão hoje concentrados em duas cadeias. O fato de terem estado dispersos pode ter fortalecido a organização?
Cláudio Lembo - Melhor deixá-los confinados juntos, parece que deu certo. O problema de maio provavelmente acontecer após levarmos os líderes a Venceslau e Bernardes. Pode ter sido uma reação. Não se resolveu totalmente a questão do celular, é uma coisinha diabólica. É muito pequeno e muito eficiente na transmissão de notícias. Mas a Polícia Militar tem feito vistorias contínuas em todos os presídios, virou uma rotina.

Jornal do Terra - Como eles fazem para recarregar celulares dentro da cela?
Cláudio Lembo - Primeiramente, existe eletricidade dentro do presídio. E eles não são ingênuos, sabem fazer ligação clandestina. Há histórias até folclóricas: a empreiteira constrói presídios e empregados mancomunados com o crime deixam celulares dentro das paredes. A pessoa sem liberdade, fechada em um cubículo, cria coisas incríveis. Em segundo lugar, fui informado que em Araraquara jogavam baterias por estilingue.

Jornal do Terra - Por que manter investimentos no fura-fila se o metrô é muito mais eficiente?
Cláudio Lembo - Manda a pergunta para o Gilberto Kassab, o prefeito que responda a essa loucura. E ao Celso Pitta também. Se eu tivesse quatro anos de mandato, eu faria um grande investimento nos trens metropolitanos. Os trens espanhóis são muito bonitos, mas são trens para a burguesia. O problema é o trem da zona leste, que foram esquecidas há muito anos.

Jornal do Terra - E o Rodoanel? As marginais ainda estão cheias de caminhões.
Cláudio Lembo - Mas muito bem asfaltadas, foram reformadas. Para o Rodoanel, estamos com o orçamento bem bloqueado. Liberei R$ 25 milhões, mas isso não é nada, são precisos R$ 4 bilhões. O Rodoanel demora uns 4 anos para ser concluído, a questão é se com pedágio ou sem? Eu quero pedágio. Acho impossível uma obra dessas com dinheiro público.

Jornal do Terra - O que o senhor quis dizer quando criticou a elite branca?
Cláudio Lembo - Isso foi uma resposta incisiva a uma jornalista que perguntou incisivamente. Acho que temos no Brasil um grupo de pessoas que não se deram conta de que vivem em um país de terceiro mundo, e têm uma história muito amarga de cerceamento. O Brasil nunca conheceu a liberdade pessoal. Alguns tinham tudo e grande maioria vivia nas senzalas e colônias. Sou italianinho de São Paulo, daqueles que sofreram isso na pele. Temos que abrir as mentes e integrar a sociedade brasileira.

Jornal do Terra - Muitos internautas o elogiam e perguntam se o senhor não está no partido errado.
Cláudio Lembo - Eu não sei se existe partido certo, no Brasil os partidos são muito ruins. Eles têm que se reciclar. Se me permitem, eu faço um pedido muito direto aos internautas: pensem antes de votar em deputados federal e estadual em 1º de outubro. Veja o escândalo que é o Congresso e os parlamentos em todos os seus níveis. Culpa deles? Não, culpa minha que sou eleitor e elegi mal.

Jornal do Terra - O senhor diria que a elite branca e perversa, como o senhor chegou a definir, é uma elite sanguessuga?
Cláudio Lembo - É sim. Desde a chegada do colonizador português, e depois corsários franceses e holandeses que aqui se instalaram, só houve depredação no Brasil, nunca se construiu, só se degradou. Acho que este momento de levantar todas as mazelas para cima é um momento de esperança, porque depois a gente pode fazer um país igualitário.

Jornal do Terra - O senhor pretende continuar no PFL?
Cláudio Lembo - Sou fundador do PFL, e fui da Arena. Eu nunca saí do partido, o partido saiu de mim. Eu li um artigo dizendo que eles me esperam na curva depois do mandato, o que é um cinismo. Querem governador mas não me querem depois. Em janeiro, vão dizer se eu continuo no PFL ou não. Se eu sair, não tenho para onde migrar. Ruim com o PFL e pior sem ele.

Jornal do Terra - O senhor já disse que não via a hora de deixar o cargo porque não agüenta tanta pressão.
Cláudio Lembo - Eu sempre fiz ironia dizendo que felizmente são só nove meses. Me honra muito ser governador de SP e faço tudo o que for necessário dentro das minhas limitações e forças. Agora, é uma experiência muito dura. Não quero inimigos, mas poderia escrever uma biografia no futuro, vou assustar a todos.

Jornal do Terra - Isso é uma promessa ou uma ameaça?
Cláudio Lembo - Uma ameaça.

Jornal do Terra - A gente ouviu relatos de abusos policiais e chacinas durante a crise de violência gerada pelos ataques do PCC.
Cláudio Lembo - Não acredito, não há clima para vingança. Não há mais idéia de vingança na polícia. Todos os casos, cada um individualmente, tiveram um inquérito policial, um processo, e se houve qualquer violência, vai aparecer.

Jornal do Terra - E depois do mandato, o que o senhor pretende fazer?
Cláudio Lembo - Eu vou para o Bixiga. Se a universidade Mackenzie me quiser ainda, volto a sua reitoria.

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Vagner Magalhães/Terra Cláudio Lembo em entrevista ao Jornal do Terra Cláudio Lembo em entrevista ao Jornal do Terra

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