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Remédios roubados no Brasil abastecem as Farc

03 de junho de 2006 21h24

Armas e munição levadas por traficantes brasileiros em troca de drogas não são os únicos produtos do Brasil que abastecem as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Investigações da Polícia Federal (PF) revelam que a sobrevivência dos guerrilheiros nos acampamentos no Sul da Colômbia depende do fornecimento de alimentos e remédios vindos do Brasil - uma 'importação' feita, muitas vezes, de forma criminosa.

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O inquérito 622/04, instaurado pela Superintendência da PF no Amazonas, apura o contrabando de medicamentos que combatem doenças tropicais para a Colômbia. A investigação começou em 21 de outubro de 2004, quando um morador de São Gabriel da Cachoeira informou à PF sobre acidente no Rio Negro com uma lancha-voadeira em que viajavam três colombianos. Um dos ocupantes morreu. Mas o que mais chamou a atenção dos policiais foi a descoberta do material que ficou espalhado pelo rio: além de 9,2 mil cartuchos calibres 22, 16 e 12, havia 2.768 ampolas de Glucantime, remédio indicado contra a leishmaniose (doença transmitida por picada de mosquito), fabricado pelo laboratório Aventis-Farma, de São Paulo.

A PF apurou que a lancha havia sido roubada de um morador de São Gabriel da Cachoeira e que os colombianos tinham ligação com as Farc. O passo seguinte foi rastrear a origem da carga.

Os agentes descobriram que o remédio havia sido desviado da Central Única de Medicamentos do Estado do Amazonas, em Manaus. As ampolas de Glucantime - que não pode ser vendido em farmácias e é distribuído em postos de saúde - faziam parte dos lotes 205105, 205971, 206300 e 206303, distribuídos pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e 401664, enviado pelo Ministério da Saúde.

Assim como medicamentos que combatem outras doenças tropicais como febre amarela e malária, o Glucantime é essencial para quem vive nas regiões de mata fechada, habitat natural do mosquito transmissor da leishmaniose. É o caso dos esconderijos da guerrilha na fronteira com o Brasil. Agente que trabalha na região contou, em depoimento à CPI do Tráfico de Armas, que emissários das Farc descem o Rio Negro para comprar remédios no Brasil.

Toque de recolher após 18h
O controle das Farc sobre as cidades na fronteira com o Amazonas inclui até toque de recolher. Segundo agentes da Superintendência da PF de Manaus, guerrilheiros proíbem a circulação de embarcações depois das 18h em águas colombianas. A medida faz parte de série de regras impostas na região há cerca de dois meses.

"A determinação é para a segurança da própria guerrilha. Como precaução contra ataques-surpresa, todos os barcos que navegam na área são vistoriados. À noite, a revista se torna mais arriscada, então decidiram simplesmente restringir o tráfego", explica um policial federal.

Outra regra é a proibição de qualquer contato de menores com drogas. "Guerrilheiros têm receio do vazamento de informações estratégicas, como a localização de acampamentos e campos de treinamento e principalmente o esquema de negociação de cocaína com traficantes brasileiros. O medo deles é de que dados cheguem à PF e ao Exército Brasileiro", diz o agente da PF.

Brasileiros pagam 'pedágio' às Farc
Guerrilheiros das Farc cobram 'pedágio' para quem entra no Sul da Colômbia para vender mercadorias nas cidadezinhas às margens do Rio Negro. A taxa exigida dos comerciantes é de 10% da carga a ser negociada, segundo agentes brasileiros que atuam na fronteira.

"Temos conhecimento desse 'acordo' desde 1997, quando nossa equipe começou a trabalhar na área. Comerciantes de cidade de São Miguel da Cachoeira sobem o Rio Negro de barco até a cidade de San Felipe. Se o carregamento for de frango, por exemplo, eles levam uma tonelada para vender à população e 100 quilos ficam reservados para o pagamento à guerrilha", contou um agente à CPI do Tráfico de Armas, esclarecendo que a negociação e a extorsão aos brasileiros acontecem em território colombiano.

O comércio pelo Rio Negro é considerado vital para a guerrilha, na avaliação da Polícia Federal. ¿É a principal rota de entrada de produtos indispensáveis para a sobrevivência das Farc. Por lá, passam armas, munição, alimentos e remédios¿, afirma um delegado. Segundo ele, o abastecimento pelo Norte da Colômbia enfrenta dificuldades devido à repressão do Exército local e à Lei do Abate, que permite que qualquer veículo que transporte suprimentos para os guerrilheiros seja alvo de disparos.

A cobrança do "pedágio" pelas Farc se assemelha à prática usada por traficantes de favelas cariocas. Os bandidos costumam ficar com caixas de bebida, cigarro e comida antes que os produtos sejam vendidos a moradores das comunidades.

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