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O livre comércio de armas em cidades paraguaias, bolivianas, argentinas e uruguaias na fronteira com Brasil é parte de uma rede internacional responsável pelos armamentos utilizados por facções criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho. A conclusão faz parte do relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Tráfico de Armas. Com base em dezenas de depoimentos de policiais, pesquisadores e de acusados de envolvimento com o comércio ilegal de armamento, a comissão conseguiu traçar um mapa de rotas usadas pelos traficantes para abastecer o crime organizado brasileiro.
Embora não haja números precisos, estima-se que entre duas em cada três armas usadas por integrantes de facções criminosas que atuam no Rio de Janeiro tenham saído do Paraguai. No caso do Paraná, a Secretaria Estadual de Segurança Pública afirma que o número chega a 90%. Os ingredientes que tornam o país vizinho uma "Meca" do armamento para o crime organizado brasileiro são as fronteiras pouco vigiadas e a possibilidade de comprar armas como fuzis AR-15 e pistolas 9 milímetros - que, no Brasil, são de uso privativo das Forças Armadas - sem qualquer burocracia. Muitas vezes nas lojas do próprio comércio.
Das 22 lojas paraguaias de armamentos referidas no relatório da CPI, 18 se situam em cidades que fazem fronteira com o Mato Grosso do Sul (11) e com o Paraná (9). Pedro Juan Caballero, na divisa com Ponta Porã (MS), e Ciudad Del Este, na fronteira de Foz do Iguaçu (PR) concentram, cada uma, 9 dessas lojas.
No caso do Mato Grosso do Sul, as estratégias de transporte do material variam conforme a imaginação dos traficantes. Sem nenhuma barreira natural entre Ponta Porã e Pedro Juan Caballero, cidades divididas apenas por uma praça, as armas atravessam facilmente a fronteira e depois seguem por rodovias. Segundo o relatório, o mais comum é que pequenas quantidades de armas sejam escondidas em cargas de produtos legais, como aparelhos de som, roupas e outros objetos para burlar a fiscalização. Em alguns casos, fuzis são desmontados e divididos entre passageiros de ônibus que seguem para os Estados de São Paulo ou do Rio. Outra alternativa encontrada pelos traficantes é embarcar as armas em pequenos aviões e levá-las até pontos de entrega dentro do território brasileiro.
A região de Pedro Juan Caballero está no epicentro de uma das maiores zonas produtoras de maconha do continente, onde serviços de inteligência afirmam que existem até três mil hectares de maconha plantada. A região é uma das bases de operação do grupo comandado pelo traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, que está preso no presídio federal de Catanduva, no Paraná. Um dos pontos de partida para a investigação da Polícia Federal brasileira sobre a rede que abastece o crime organizado brasileiro com armas no Paraguai foi a agenda telefônica de Beira-Mar, apreendida quando ele foi preso na Colômbia. Na agenda estavam todos seus contatos para compra de armas no país vizinho. Era "uma verdadeira agenda de mercado das armas que ele comprava no Paraguai", segundo disse à CPI o delegado Getúlio Bezerra dos Santos.
Já onde a linha fronteiriça está sob um rio, como é o caso das divisas entre Foz e Ciudad Del Este ou Mundo Novo (MS) e Salto Del Guairá (Paraguai), os traficantes usam pequenos barcos para fazer a travessia até o Brasil e, uma vez em território nacional, segue por terra. O documento afirma que é comum comboios de ônibus de sacoleiros e turistas cruzarem a Ponte da Amizade, que liga os dois países, seguindo depois sem serem revistados até pontos do interior do Brasil.
Laranjas e militares
O Paraguai não fabrica armas, apenas serve como plataforma para os traficantes. Desde 1999, o Brasil deixou de exportar armas para a venda comercial no país, restringindo as remessas para as Forças Armadas e para a polícia. Isso não impediu, contudo, que armas brasileiras possam ser encontradas nas lojas do Paraguai. Além de lotes antigos, a CPI encontrou indícios de envolvimento de militares com o comércio de armas.
Uma das testemunhas-chave ouvidas, o traficante preso identificado apenas como "Ômega", falou de um estratagema envolvendo a abertura de empresas fantasmas em paraísos fiscais para compra do armamento brasileiro que acabaria nas lojas do Paraguai.
Ômega disse que a maioria das lojas de armas no Paraguai estão em nome de comerciantes que funcionariam, de fato, como testas-de-ferro de militares paraguaios. A testemunha revelou ter comprado 1.8 mil fuzis desviados das Forças Armadas do Paraguai. "Eu comprei 1,8 mil G3 (fuzil alemão) da Força Aérea Paraguaia", diz no depoimento secreto.
Este ano, a Polícia Federal desbaratou uma quadrilha em São Paulo e apreendeu 20 caixas de munição calibre 7.62 NATO (para fuzil) com a identificação "Año 1989 - Ministério da Defesa Nacional - Dirección de Industrias Militares - Planta Industrial Piribebuy", do Paraguai.
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