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Especialista: remoção em área de risco deveria ser indiscutível

16 jan 2011
10h52
Simone Sartori

Com 611 mortes registradas até este domingo, a tragédia climática na região serrana do Rio de Janeiro já entrou para a história como uma das maiores do Brasil. Mesmo sem registros oficiais sobre o número de mortos em catástrofes ambientais no País, a história recente mostra que o problema não é particularidade do Estado fluminense. Segundo o engenheiro civil Alberto Sayão, doutor em engenharia geotécnica e professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), a "ocupação descontrolada" de encosta é um dos principais motivos de tragédias como essa. "Não se pode simplesmente orientar as pessoas a saírem de suas casas. Deveria ser indiscutível a retirada de pessoas das áreas de risco", afirma.

Chuvas já provocaram a morte de mais de 600 pessoas no Rio
Chuvas já provocaram a morte de mais de 600 pessoas no Rio
Foto: EFE

A pior teria sido em janeiro de 1967, na região da Serra das Araras, em Piraí (RJ), com mais de 1,2 mil mortes, segundo o géologo Luiz Ferreira Vaz em artigo publicado no jornal O Estado de S.Paulo, em janeiro de 2010. Entre os enchentes mais recentes está a registrada no início de 2010 no município de São Luiz do Paraitinga, em São Paulo, que registrou 78 mortos. Em novembro de 2008, as chuvas também provocaram 135 mortes em Santa Catarina. O que diferencia as tragédias é o saldo de vítimas, que varia de acordo com o tipo de solo e o número de ocupações irregulares nas regiões atingidas.

Segundo Sayão, tragédias como as da região serrana do Rio ocorrem devido a uma série de fatores - que inclui o tipo de solo e intenso volume de chuvas que atinge as encostas e rios - e têm a "ocupação descontrolada" como um de seus principais vértices.

"Evitar a catástrofe talvez não seja possível. O que o homem pode fazer é evitar a ocupação. As consequências dos deslizamentos poderiam ser menores se não houvesse as ocupações. Precisamos pensar no que fazer para tentar intervir nas áreas de risco", afirmou. Segundo ele, uma das saídas seria a criação de órgãos estaduais para gerenciar essas áreas, com a elaboração de medidas de prevenção e segurança para a população.

"Não existe gestão de segurança nas encostas em nenhum outro Estado, apenas na cidade do Rio (Alberto Sayão cita a Fundação GEO-RIO, órgão da Secretaria Municipal de Obras responsável pelas encostas da capital fluminense). Os municípios não têm estrutura para absorver os problemas. Do ponto de vista técnico, os engenheiros e geólogos sabem o que fazer para minimizar os riscos e podem até realizar obras de melhorias. A técnica é mais do que disponível. O que falta é vontade e organização política para que essas ações sejam efetivadas. Não adianta ficar só no discurso. Certamente, se as encostas tivessem sido gerenciadas, o número de mortes teria sido menor", afirma.

Sayão acredita que um sistema eficaz de monitoramento e alerta das encostas poderia ser outra alternativa. "Com o alerta, seria possível tomar providências, que já estariam organizadas. As pessoas saberiam que teriam de sair de suas casas imediatamente, e saberiam até para onde ir, seja para um abrigo ou um ginásio", defende.

Crescimento urbano acelerado
Flávio Erthal, presidente do Departamento de Recursos Minerais (DRM), uma autarquia estadual ligada ao governo fluminense, engrossa a opinião de que as ações precisam ser coordenadas para que os resultados sejam mais rápidos e consistentes. "Para não morrer mais pessoas, é preciso ter para onde levá-las. Essa situação de desordem urbana ocorre há décadas. Você constrói onde não deveria construir, aí a natureza vem e toma conta. As pessoas passam a morar perto de rios, nas encostas, e tudo sem controle, ao longo de anos, num crescimento urbano acelerado. É um problema que precisa ser enfrentado", afirma.

De acordo com ele, tragédias como as do Rio surgem não só da falta de controle das construções em áreas de risco como também da falta de infraestrutura das cidades. "O interesse dos governos em mudar, como foi demonstrado, já é um avanço enorme. O trabalho está sendo feito, mas não com a velocidade ideal. Ainda tem muita gente que mora mal, em áreas inadequadas". Ele explica que, atualmente, o governo do Rio de Janeiro, através do Departamento de Recursos Minerais (DRM), elabora um mapa mais amplo das áreas de risco e admite a necessidade de resultados mais rápidos nesse setor.

"Faremos um levantamento em 20 municípios do Rio, com a ideia de hierarquizar também as regiões de maior risco. Também criamos em 2009 um núcleo específico para trabalhar nisso e um concurso foi aberto para a contratação de pessoal. Mas o que a gente tem, tem que ser acelerado e acelerado com mais informação. A informação geológica seria fundamental para poder acelerar e organizar as ações", diz, citando também a necessidade de investimento em recursos tecnológicos para aperfeiçoamento dos sistemas de alerta e monitoramento, conforme lembrou Alberto Sayão, professor da PUC-RJ.

Erthal, no entanto, faz questão de lembrar que é fundamental a conscientização da população para minimizar as perdas em catástrofes ambientais. "O homem desmata, constrói indiscriminadamente, muda as condições do solo sem controle adequado. Nas cidades, as pessoas colocam o lixo na rua, a chuva vem, carrega o lixo para o bueiro, entope o bueiro e a enchente acontece. A intervenção humana no ambiente tem algum preço", alerta.

As encostas, segundo ele, com o excesso de chuvas, viram "tsunamis de terra", causando estragos e eventualmente mortes. "Pedras, detritos, entulhos, tudo isso aumenta a velocidade da descida da terra. Quando a terra chega em áreas mais planas, onde estão as casas, em processos inadequados de ocupação, aquilo destrói tudo. E o homem não domina isso, o que vai acontecer", explica Erthal.

Veja a Praça do Suspiro, em Nova Friburgo, antes e depois da chuva

Veja onde foram registradas as mortes

Fonte: Redação Terra
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