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'É patético não aceitar o passar do tempo', diz FHC

10 set 2012
11h01
atualizado às 11h37
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Aos 81 anos, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso participa de uma organização de ex-líderes mundiais intitulada The Elders, Os Anciões, na tradução do inglês. Em entrevista exclusiva ao Terra, ele reflete sobre sua idade atual e o papel dos mais velhos de compartilhar o conhecimento acumulado com os mais jovens e ajudá-los a construir o ambicionado mundo melhor. "Porque você é jovem não assegura que seja melhor, precisa ter valores nos quais você crê".

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Veja a íntegra da entrevista exclusiva de FHC ao Terra

"A coisa mais patética do mundo é alguém que não aceita o transcorrer do tempo, que quer ser criança, menino, jovem. Não, velho é velho", diz FHC. O ex-presidente afirma que aprendeu a conviver com a ideia da morte. "É rara a semana em que não morre alguém que eu conheça", diz. "Eu penso na vida".

No dia 3 de setembro, Fernando Henrique recebeu uma equipe do Terra para uma entrevista exclusiva em sua residência na zona sul de São Paulo. Um apartamento amplo, mas sóbrio, tal qual a figura de seu ilustre proprietário. Durante uma hora, o ex-presidente falou sobre sua participação no The Elders, o mensalão, a presidência de Dilma Roussef, a descriminalização das drogas e como lida com a idade, entre outros temas.

Confira trecho da conversa do Terra com o ex-presidente, em que ele fala sobre a morte e o papel dos jovens na sociedade atual:

Terra - Como o senhor se vê com 81 anos? O que mudou na sua vida?
Fernando Henrique Cardoso - Pode parecer pretensioso, mas mudou muito pouco. Procuro nem pensar quantos anos tenho e fazer o que eu tenho que fazer. Faço as coisas com prazer. Quando fui presidente, também fiz. Agora não sou. Vou fazer outras coisas, também faço com dedicação, com prazer. No The Elders, o Carter (Jimmy, 87 anos, ex-presidente dos EUA) é mais velho. Se você visse a energia que tem o Carter, fisicamente. Nós fomos a uma reunião nos montes Atlas, no Marrocos, e em certo momento você tinha que subir uma montanha. Você podia ir de automóvel, a cavalo ou a pé. E ele foi a pé, tranquilamente. Acho que isso depende muito de você estar interessado na vida.

Terra - O que mudou na sua vida depois da morte da sua mulher Ruth Cardoso?
FHC - Bom, isso é mais complicado. Não é só a morte da Ruth. Na minha idade, muitos já morreram e é rara a semana em que não morre alguém que eu conheça. Tem que se acostumar com a ideia da morte, com a finitude. Não adianta, você sofre, a perda é irreversível. O que eu tenho procurado dizer é que a pessoa morre, mas você fica com ela dentro de você. Você guarda a memória, de alguma maneira quase que conversa com aqueles que são mais próximos, mais queridos. Isso não serve de consolo, mas quando você sabe que de qualquer maneira vai morrer, faz parte do ciclo existencial.

Terra - O senhor pensa nisso? Pensa na morte?
FHC - Não, não. Vem, vem, um dia virá. Eu não fico pensando na morte, eu penso na vida. Agora, também acho o seguinte: imagina se você fosse eterno, que chatice, né? Que coisa terrível. E como você também fisicamente vai mudando com o tempo, vai aceitando essas transformações. A coisa mais patética do mundo é alguém que não aceita o transcorrer do tempo, que quer ser criança, menino, jovem. Não, velho é velho. E pode viver bem como velho, viver ativamente como velho, ter uma presença normal.

Terra - O senhor pensa no seu legado?
FHC - Claro que eu penso. Mas pensar não adianta muito. O que eu fiz, já fiz. O que vai ser feito com que eu fiz? Deus sabe. Como eu tenho noção de história, li muito, sei que os julgamentos vão variando muito. Se você ficar na história, o que não é fácil, você vai ser sempre julgado. Uns vão ser a favor, outros vão ser contra. Por outro lado, isso depende de como as pessoas vão mudando suas próprias percepções. Por exemplo, Getúlio. Quando morreu, se suicidou. Estava sem espaço de reconhecimento, teve que se matar. Hoje todo mundo fala bem.

Terra - Como o senhor acha que ocorre essa transmissão de conhecimento dos mais velhos para os jovens na sociedade instantânea atual?
FHC - Eu acho isso não tira dos jovens a dimensão de generosidade e preocupação com os outros. O que pode haver nessa informação instantânea é que os quadros mentais se desorganizam se você não tiver quem seja capaz de estruturá-los. Uma das funções dos mais velhos é mostrar o conjunto, explicar porque uma coisa pode se ligar a outra. Quando a informação é muito fragmentada, e se for muita informação, você pode se perder, mas isso não tira dos jovens o interesse por entender as coisas.

Terra - Em relação a movimentos como Primavera Árabe e o Occupy, revoluções e protestos que nasceram da insatisfação dos jovens. Eles representam que este é o momento dos jovens assumirem um papel mais importante na política?
FHC - Tomara fosse. Tomara seja. Acontece o seguinte: quando você tem insatisfação, ao mesmo tempo você tem falta de emprego e repressão, tem aí a possibilidade de um rastilho pegar fogo. Foi o que aconteceu na Tunísia. Em uma sociedade mais aberta, é mais difícil isso. Você tem mais liberdade, não tem tanta repressão. Depende de cada situação. Sem dúvida, chega um momento em que as novas gerações assumem o seu lugar. Às vezes, é para melhor; às vezes, para pior. Porque você é jovem não assegura que seja melhor, precisa ter valores nos quais você crê.

Terra - O escritor uruguaio Eduardo Galeano afirma que esses movimentos representam que o 'mundo está grávido de outro mundo'. O senhor concorda com isso? O que senhor espera do término dessa gestação?
FHC - O Galeano tem a visão de uma espécie de filosofia da história como um destino, que vai ser melhor. O mundo está grávido de outro melhor? Tomara. Mas isso não é automaticamente assim, às vezes piora. Antes do Hitler, o mundo era melhor na Alemanha do que depois, e a juventude aderiu ao Hitler. Quem conhece a história não faz essas afirmações tão bombásticas.

Terra - Qual é a projeção que o senhor faz paras as próximas décadas no Brasil e no Mundo?
FHC - O mundo entrou numa crise grande. O sistema capitalista entrou numa crise grande. Ela não se resolve de um dia para o outro. Você junta essa crise, com a crise ecológica, aquecimento global, com as insatisfações com falta de liberdade, isso pode delinear uma vontade de um mundo melhor. Como você vai fazer isso? Sabe Deus, não existe fórmula. Essa gravidez pode dar uma criança aleijada. Tomara que não dê, depende que a gente lute e tenha valores.

Certamente o mundo hoje não será mais como foi até pouco tempo, controlado por uma grande potência. Acabou isso. Está muito fragmentando. É um mundo que vai requerer capacidade de negociação e abertura, para que mais países, mais civilizações, participem. O grande problema (para a visão ocidental) é o mundo islâmico, um bilhão de pessoas que têm que participar. Parece que é o demônio que está lá. Antes era o comunismo, a China. O mundo vai precisar entender e conviver nessa diversidade. Essa é a grande questão, a organização de mecanismos globais que sejam capazes de aceitar a diversidade e permitam uma governança global. Não tem isso.

Mesmo na crise econômica, não se conseguiu até agora nem definir uma forma de regulação do sistema financeiro. Melhorou, mas coisas técnicas. Ainda vai levar muito tempo, e eu não digo isso com pessimismo porque a história muda devagar. Esse é o nosso desafio desse século. Você vai dizer isso para quem está com fome? Não resolve, ele quer já. Se você olhar dentro de uma perspectiva histórica, nós estamos criando outro mundo. Neste sentido, o Galeano tem razão. Tomara que ele seja melhor. Para isso precisa de The Elders, para isso precisa de gente que pense o mundo com generosidade, pense a humanidade, não só a classe, não só o seu país.

 

Fonte: Terra
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