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Domínio sobre enriquecimento de urânio reforça preocupação

5 set 2009
18h19
atualizado às 18h22

Vasconcelo Quadros


O caso da pesquisa desenvolvida pelo físico nuclear brasileiro Dalton Ellery Girão Barroso não foi o primeiro conflito entre o governo brasileiro e a AIEA. Em 2004, os inspetores da entidade tentaram, também sem sucesso, acessar as centrífugas de enriquecimento de urânio das usinas de Resende.

A suspeita era, mais uma vez, que o Brasil estava enriquecendo urânio em teor superior ao necessário para a produção de energia elétrica. O governo alegou que seu compromisso era abrir à inspeção apenas a entrada e saída do material e que a tecnologia dos equipamentos, um assunto de Estado, poderia ficar exposta. E fechou as portas aos inspetores.

Os sucessivos embates, segundo especialistas ouvidos pelo JB, geraram um dilema insuperável para a AIEA, com o qual o governo nada tem a ver: como a entidade pode ter a garantia de que o Brasil, já detentor do conhecimento e da tecnologia, não vai enriquecer o urânio em teor de bomba atômica? Ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Jobim afirma que a garantia está na Constituição de 1988, da qual ele foi relator e ajudou a escrever. Mas foi também Jobim quem convenceu o governo, em outro embate este ano com Amorim, mediado pelo presidente Lula, a não assinar o último protocolo adicional pedido pela AIEA.

O ministro argumentou que o protocolo inviabilizaria a pesquisa sobre a tecnologia e a produção de energia nuclear necessária ao novo submarino brasileiro. Em entrevista ao JB, em abril, Jobim afirmou que, embora respeite o tratado, o Brasil tem toda a tecnologia para desenvolver a energia nuclear que as potências mundiais já utilizam.

Barroso acha que nada justificaria hoje um programa agressivo de armas nucleares. Mas observa que, num mundo de futuro incerto, o Brasil não pode abrir mão dos conhecimentos para desenvolver os instrumentos necessários à garantia da segurança e da soberania, caso isso seja necessário.

"Abrir mão de possuir armas é uma coisa, abrir mão do conhecimento de como fazê-las é outra coisa", disse. Barroso afirmou que os resultados de suas pesquisas se destinam a fins pacíficos (geração de energia elétrica, agricultura, medicina, ect.). Mas admitiu que, se o governo tivesse vontade política e recursos, o País teria todas as condições de desenvolver a energia nuclear para fins militares. O Brasil, segundo ele, domina toda a cadeia do conhecimento e da tecnologia e poderia, se quisesse, construir arsenais para causar efeito dissuasivo, como fazem as potências desde o final da Segunda Guerra Mundial. "A tecnologia nuclear é absolutamente dual. Quem a domina para fins pacíficos, adquire também a capacidade para aplicá-la a fins bélicos".

Ele lembrou que no processamento do combustível nuclear, a usina que enriquece o urânio para reatores, cujo teor é de até 5%, também pode ser operada no enriquecimento do urânio para uma bomba atômica, que exige 90% de teor.

"Quem constrói reatores para produzir energia elétrica, pode construir também para produzir plutônio adequado a fins bélicos", disse. Segundo ele, da mesma forma que são necessárias para reciclar o combustível nuclear no reator, as usinas podem extrair o plutônio do combustível queimado no mesmo reator.

Barroso levou seis anos pesquisando os explosivos nucleares. Os resultados obtidos na tese e divulgados pela primeira vez no livro, segundo admite, aprofundam o conhecimento universal dos processos físicos envolvidos nas explosões nucleares.

"Isso se deve a resultados de cálculos computacionais executados por mim, dentro de modelos físicos conhecidos", contou.

Jornal do Brasil Jornal do Brasil
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