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Doenças em cruzeiros seria falta de higiene, aponta infectologista

16 mar 2012
06h46
atualizado às 07h20
Laura Gheller*

Sinônimos de sofisticação, os cruzeiros marítimos são um dos principais sonhos de consumo do turista brasileiro. Nos grandes navios, capazes de transportar mais de 1 mil passageiros, também podem embarcar enormes problemas: as doenças.

Neste mês, o navio Balmoral, retido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no porto de Santos (SP) com 1.226 passageiros e 524 tripulantes no início de março, foi um exemplo dessa realidade pouco conhecida dos transatlânticos que cruzam a costa brasileira. Cinco casos de gripe e dois casos de diarreia em tripulantes e passageiros foram registrados no navio. Em fevereiro, uma tripulante do MSC Armonia passou mal e, após internação em Santos, acabou morrendo com diagnóstico de influenza B.

De acordo com o infectologista do ambulatório de medicina do viajante da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Gustavo Johanson, 42 anos, embarcações são ambientes muito propícios para a disseminação de patologias, especialmente respiratórias e aquelas transmitidas por objetos contaminados por manuseio. "Um caso clássico de infecção em navios é a de diarréias ocasionadas por norovírus, transmitido pelo manuseio dos objetos. Um caso destes é capaz de acabar com uma viagem", diz o médico.

Para evitar estas ameaças, a desinfecção de tudo o que é manuseado pela equipe de limpeza da tripulação deve ser constante, "como em um hospital". "As tripulações funcionam como comunidades fechadas, um um navio do tipo cruzeiro reúne um grande número de pessoas, às vezes 2 mil passageiros ou mais", diz Johanson.

De acordo com o médico, quanto mais pessoas no local reduzido, maior probabilidade de contaminação através de gotículas de saliva ou outras secreções durante o ato de falar, espirrar. Quanto mais pessoas em um menor espaço, maior a probabilidade de transmissão.

Além disso, doenças como meningite, sarampo, rubéola, e outras moléstias gastrointestinais têm a chamada "sazonalidade". Enquanto algumas doenças são mais frequentes no inverno, outras têm maior ocorrência no verão. Promovendo o encontro de pessoas de diversas nacionalidades, o cruzeiro "mistura" os casos dos picos de infecção, conforme o infectologista.

Procedimentos
Conforme a Associação Brasileira de Cruzeiros Marítimos (Abremar), companhias tomam as providências necessárias para prevenir surtos de doenças entre a tripulação. De acordo com a Abremar, a porcentagem de ocorrências relacionadas à saúde por turista transportado nos navios fica abaixo do registrado para quaisquer locais com grande circulação de pessoas, como metrôs, ônibus, aviões, hotéis, piscinas, praias e cidades.

De acordo com a Abremar, todos os navios possuem sistemas complexos de tratamento de água, lavam os alimentos com água filtrada e importam produtos primários, como macarrão. Carnes, verduras, frutas e laticínios são adquiridos no Brasil. O lixo, segundo a associação, passa por separação e vai para reciclagem. Há uma área especial, com maquinário, para o tratamento dos resíduos. O que sobra acaba compactado e entregue para empresas contratadas em terra firme. O lixo hospitalar vai para o depósito de embalagens especiais. Além disso, conforme a Abremar, todas as categorias de resíduos têm etiqueta de identificação: alimentos, vidro, porcelana, alumínio e plástico.

A associação aponta que os navios possuem estrutura de atendimento médico e ambulatório. Na suspeita de uma doença mais séria, o hóspede é encaminhado para um clínica quando o navio atraca no porto.

Conforme a Abremar, as operadoras enfrentam dificuldades para interpretar os regulamentos de saúde pública em cada um dos portos do litoral brasileiro. No ano passado, a associação se reuniu com a Anvisa e com representantes de companhias para discutir o desenvolvimento de um manual oficial para o saneamento de todos os navios de cruzeiro que circulam pela costa do País. "Montamos e traduzimos um documento com mais de 70 páginas para que ambos os lados, governo e armadoras internacionais, pudessem chegar a um entendimento e, juntas, alinhar o discurso. Com isso, todos ganham: quem inspeciona, quem traz o navio e, principalmente, o turista", disse Ricardo Amaral, presidente da Abremar.

Inspeções
A Anvisa tem a responsabilidade de inspecionar todos os navios que entram no território brasileiro, desde a sua chegada até a saída. As embarcações são vistoriadas conforme o tempo de permanência do navio na costa do País. A avaliação leva em conta itens como abastecimento, tratamento e pontos de ofertas de água potável, recebimento, armazenamento, manipulação e exposição de alimentos e climatização. Além disso, aspectos como hospital de bordo, acondicionamento e tratamento de resíduos sólidos, alojamentos, piscinas, deck, spas e outros também passam por análises, segundo a Anvisa. Caso sejam constatados problemas, as punições podem chegar a multas entre R$ 2 mil e R$ 1,5 milhão - que pode ser dobrada em caso de reincidência - à interdição da embarcação.

Ao final de cada temporada, a agência publica um documento sobre a situação da higiene nos cruzeiros que passaram pelo Brasil. O relatório da temporada 2010/2011 divulgado em setembro de 2011 mostrou que quase um terço das embarcações que foram inspecionadas quando passaram pelo Brasil apresentaram irregularidades. Os problemas iam desde a água contaminada até o armazenamento inadequado dos alimentos.

Orientações
Para auxiliar na segurança dos passageiros de navios de cruzeiro, a Anvisa criou um hotsite com dicas de saúde para os viajantes. Na página da internet (www.anvisa.gov.br/hotsite/cruzeiros), os passageiros são orientados a fazer uma avaliação com um médico antes de embarcar, principalmente se forem portadores de doenças. A agência também alerta os viajantes que fazem uso de remédios para que levem os medicamentos em quantidade suficiente para toda a viagem.

Durante o cruzeiro, o guia recomenda que o passageiro esteja sempre atento àquilo que ingere, para impedir um problema comum em navios, a diarreia. Para isso, o viajante deve evitar consumir alimentos crus, gelo e água de procedência desconhecida, frutas com casca danificada e produtos vendidos por ambulantes.

Caso fique doente, o passageiro deve comunicar o fato à equipe de bordo. Eles tomarão as devidas providências e alertarão os serviços de saúde do local para onde o navio está se deslocando.

No mesmo site, os viajantes também podem conferir o resultado das inspeções realizadas nos navios que circulam pela costa brasileira. O relatório detalha o histórico das vistorias e o índice de segurança que a embarcação oferece.

*Colaborou Hermano Freitas

As cidades de Porto Belo, Bombinhas e Itapema trabalham em conjunto na recepção de turistas
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Foto: Fabrício Jachowicz / vc repórter
Fonte: Terra

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