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26 de fevereiro de 2012 • 17h05 • atualizado às 17h18

Diretor de instituto chileno critica improvisos em base antártica

Forças Armadas do Chile divulgaram imagem do incêndio que atingiu uma estação brasileira, deixando dois militares mortos e um ferido
Foto: Armada do Chile / Reuters
Mauricio Tonetto

A tragédia ocorrida durante a madrugada de sábado na Estação Antártica Comandante Ferraz, na Ilha Rei George (Antártida), foi "uma grande lição para o Chile" e demonstra que os pesquisadores e militares ainda convivem com a "improvisação". Foi o que afirmou o diretor nacional do Instituto Antártico Chileno (INACH), José Retamales, que desde 2003 preside o órgão responsável por coordenar, planejar e executar trabalhos científicos na região, sob tutela do Ministério das Relações Exteriores do Chile. Ele ajudou na logística durante o resgate dos brasileiros e disse que "foi horrível o incêndio ter acontecido na sala de geradores". Dois militares morreram e um ficou ferido.

Segundo Retamales, uma base moderna deveria funcionar com muito dinheiro, o que não acontece no Brasil e no Chile. "Há um pouco de improvisação, é uma realidade latino-americana", afirmou ele, que deu como exemplo a falta de uma sala de geradores secundária em Comandante Ferraz. "Quando um incêndio acontece na sala de geradores de energia é horrível, pois falta luz, água e os alarmes não funcionam. Não havia uma unidade de potência separada para apagar incêndios. Nós também não temos e a fatalidade foi uma grande lição, iremos empreender mudanças", ressaltou.

Retamales foi chamado à base chilena de Punta Arenas, sua cidade natal, para auxiliar no resgate dos feridos. Segundo ele, a ajuda demorou duas horas para chegar ao local do incêndio por dificuldades climáticas, o que era "desesperador". "Para ir de bote, tinha que entrar no oceano e a chegada demandava duas horas. De helicóptero só foi possível depois de uma certa visibilidade. Era desesperador que não pudéssemos ajudar mais rápido", relatou.

Brasil não deve deixar a Antártida
A Marinha informou hoje que o incêndio na casa de máquinas da Estação Antártica Comandante Ferraz levou à destruição de 70% da base. Mesmo assim, José Retamales acha que o governo brasileiro não deve desitir das pesquisas na Antártida e espera uma cooperação maior entre os dois países a partir de agora.

"Apesar da curta história brasileira na Antártida (década de 1980), a produção científica do País é importante para o continente. Conhecer a Antártida é uma obrigação de todos. Nos interessa muito e estamos próximos de assinar uma cooperação entre os dois países. O Brasil não deve ficar ausente da Antártida", salientou.

O incêndio comprometeu 40% do programa antártico brasileiro, segundo avaliou o diretor do Centro Polar e Climático da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Jefferson Simões, que já esteve 19 vezes no continente gelado, das quais cinco em Comandante Ferraz. "Foram afetadas principalmente as áreas de biociência, algumas pesquisas sobre química atmosférica e de monitoramento ambiental, especialmente sobre o impacto da atividade humana naquela região do planeta", afirmou.

Segundo Simões, no entanto, o programa antártico continuará funcionando porque a Comandante Ferraz, apesar de concentrar uma parte importante das pesquisas brasileiras, não era a única estação científica brasileira. Ele explicou que ao menos metade dos pesquisadores trabalha em navios de pesquisa ou em acampamentos isolados na Antártida.

A estação antártica brasileira começou suas operações em 1984, e no momento do incêndio abrigava 59 pessoas, entre militares e cientistas. A maior parte deles foi levada para uma base chilena e à cidade de Punta Arenas. O Terra entrou em contato com a Marinha, mas não obteve retorno.

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